Green Nomad em Kiribati
Em Novembro de 2003 estávamos em Vanuatu, nas ilhas Banks, que têm esse nome por causa do botânico Joseph Banks, que acompanhava o capitão Cook no Endeavour.
Tomada a decisão, da qual nunca nos arrependemos, fizemos uma travessia entre a Ilha de Sola, nas Ilhas Banks, e Tarawa, a capital de Kiribati, que fica no Grupo Gilbert. Kiribati se estende por uma vasta área, e mais a Leste estão o Grupo Phoenix e o Grupo Line. A travessia foi com ventos bem fortes de Sudeste a início, com os Trade Winds do hemisfério Sul dando suas últimas sopradas para aquele ano. Tivemos que prosseguir com grande com dois rizos e staysail, com vento aparente de 50 a 60 graus. Apòs três dias o vento amainou, e como seria de se esperar, começamos a entrar na zona de ventos inconstantes, calmarias e trovoadas que marcam a passagem entre os dois hemisférios. Depois veio a calmaria, que durou uns quatro dias. Como já tínhamos nos aproximado do equador, não havia mais riscos de ciclones, e decidimos esperar o pouco vento que viesse . Andávamos um pouco a motor, mas numa situação como essa normalmente elegemos poupar combustível e diminuir o desgaste do motor e ficar boiando.
Chegamos a Tarawa com um pequeno problema de aquecimento de causa não localizada no motor, de modo que velejamos pêlo passe do atol, dando bordos, o que não é fácil e muito menos desejado após 11 dias de mar, mas quando chegamos dentro do Lagoon ligamos o motor para as últimas 3 milhas.
Fizemos essa travessia inúmeras vezes, pois ficamos em Abaiang por mais de dois meses, e tivemos que voltar a Tarawa para pedir mais tempo de visto de permanência.
Ficamos em Kiribati por cinco meses, quatro meses da primeira vez com uma estada intermediária de cinco meses nas Ilhas Marshall e volta para rever os amigos por mais um mês, no caminho de volta para o hemisfério Sul após a temporada de ciclones. Vivemos em contato com os habitantes locais, que nos chamavam de "Imatang", que na língua deles quer dizer habitantes do paraíso. De novo a história de uma mitologia que diz que os deuses são branquinhos, e nós nos enquadrávamos no perfil. Outra coisa impressionante era o uso ainda corriqueiro das canoas polinésias com balancim e movidas à vela. Não faziam feio perto de nenhum catamaran moderno, e eu sempre corria para a proa para fotografar a passagem de algum velejador que se aproximava. Logo percebi que eles gostavam disso, e começaram a passar sempre perto. Também memorável foi a vez em que, fui convidado a pescar com nosso amigo Teinabo. Fui numa dessas canoas com uns quatro metros de comprimento, saímos do atol e logo estávamos com as linhas dentro da água. Eu sò me perguntava porque eles tinham parado a contrabordo de outra canoa e pego um atum de 40cm inteiro com um amigo, e porque este agora estava pendurado na ponta de um anzol do tamanho de um bandolim, com uma corrente de 4mm unindo-o a uma linha de polipropileno de 5 mm. Eu já sabia a resposta, mas preferia não admitir. Obviamente em menos de 2 minutos tínhamos um tubarão Mako de dois metros na ponta daquela "linhazinha", e começou o jogo nada seguro de trazê-lo para perto da canoa e ir golpeá-lo na cabeça, mas somente quando este se orientava com a cabeça em rumo divergente da canoa, senão os pescados iriam ser outros...
Para a Marli havia o aprendizado da culinária local. Sempre o coco era a base para variar a alimentação à base de peixe e arroz, com algumas raizes para complementar. Saímos de Abaiang com o coração pesado, mas logo iríamos voltar a estar entre amigos em Butaritari, o atol mais ao Norte de Kiribati. Em Kuma havia um grupo de famílias que compunham algo como um clube social. Tinham um "maneaba" próprio (maneaba é a casa comunitária de Kiribati, com um grande telhado em v, onde acontecem todos os eventos sociais), e quando fomos visitá-los para perguntar se poderíamos ficar e pescar em frente ao vilage deles, logo nos convidaram para jantar.
Estar ancorado num destes atois sempre rendia imagens que desafiavam os olhos. No atol de Abemama, onde viveu Robert Louis Stevenson, o azul perdurava até com mau tempo.
Kiribati foi tão especial para nós que ficou a vontade de voltar um dia. Além de estar num paraíso oceânico, ficava evidente como um estilo de vida sustentável é viável. As pessoas parecem viver mais felizes que as que conhecemos na sociedade de consumo moderna, e sabem usar o meio ambiente de forma sustentável e com respeito para sobreviver. Como as memórias que este povo e lugar deixaram em nós estão sempre nos chamando para voltar lá, nós já estamos construindo um novo barco, depois de termos vendido o Green Nomad na Austrália em 2005.
Devemos voltar à água até o fim deste ano, e mal podemos esperar. Muito trabalho ainda restará no barco, mas o faremos já a bordo, vivendo num canto do barco e trabalhando no outro, sonhando com Kiribati e os mares do Pacífico. |
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Novo Escritório da Austrália – B & G Yacht Design. Desde a minha mudança para a Austrália que recebo vários e-mails de pessoas curiosas em saber como está sendo a adaptação de toda a família. De uma forma geral ocorreu tudo muito bem e em vários aspectos superou nossas expectativas. Perth é uma cidade muito bem organizada, grande o suficiente para oferecer todos os tipos de serviços e entretenimento que podemos encontrar nas melhores cidades, mas ao mesmo tempo pequena o suficiente para ser fácil de administrar. Logo na primeira semana, ainda nos sentindo como turistas, fizemos um passeio que começamos a planejar desde os primeiros dias da preparação de nossa mudança: Fremantle, a cidade que abrigou a primeira competição da America’s Cup fora dos Estados Unidos em mais de 130 anos. Fremantle, que é praticamente um bairro de Perth, foi completamente remodelada para receber a competição. Passeamos pelas marinas que abrigaram os sindicatos desafiantes e o sindicato defensor, hoje com milhares de barcos de todos os tipos e tamanhos, mas o ponto alto foi a visita ao Western Australia Maritime Museum para ver o Austrália II, o primeiro barco a derrotar os americanos em toda a história da America’s Cup.
A primeira semana como turistas foi muito importante para a adaptação ao fuso horário local, diferente 11 horas do fuso horário brasileiro, mas depois vieram as primeiras obrigações: achar uma casa para morar, escolas para os filhos e montar uma estrutura adequada para retomar o trabalho do escritório. Logicamente que escolhemos ficar perto de Fremantle e encontramos uma casa em um lugar tranqüilo e agradável, no tamanho exato para nossa família e o escritório.
No início não foi tão simples retomar o trabalho, tanto eu como o Cabinho passamos por um longo período de adaptação a esta forma de trabalhar à distância. Graças à internet continuamos a nos falar diariamente, tanto por e-mails quanto pelo Skype, e aos poucos fomos aprendendo até a tirar vantagem das 11 horas de diferença entre nossos fusos horários. Hoje não é raro quando um de nós está buscando uma solução para um determinado problema, passar essa dúvida para o outro no final do expediente e na manhã seguinte receber várias sugestões, ou mesmo a solução completa, já que seu parceiro ficou literalmente acordado e trabalhando enquanto você dormia. Uma parte dessa minha adaptação foi estudar melhor o mercado náutico local. Visitei alguns "Boat Shows", principalmente os da costa oeste, e vi que não são muito diferentes de muitos outros que já havia visitado antes. Como em quase todo lugar a maior participação são de lanchas que geralmente seguem o padrão mundial de design, mas chama a atenção a grande quantidade de lanchas de alumínio voltadas principalmente para a pesca. Quanto aos veleiros, nota-se aqui também uma grande penetração das fábricas européias, mas há também um bom número de fábricas locais, tanto de monocascos, quanto de multicascos. Conversando com proprietários e usuários de barcos locais, notamos uma preocupação bem grande com relação a resistência, segurança e estabilidade. Em geral as condições aqui são mais adversas que no litoral brasileiro; bastante vento, mais frio, ondas grandes e um litoral cercado de corais, com poucos pontos seguros de ancoragem e outros perigos. Tem muita gente se preparando para viagens mais longas, seja por aqui mesmo pela Austrália, ou para outros destinos, e a procura de barcos apropriados para esta finalidade é grande. Vejo aqui um bom mercado para nossos barcos de cruzeiro, já que sempre procuramos enfatizar neles estas mesmas características. Quem está familiarizado com nosso site irá notar algumas novidades que irão aparecer nas próximas semanas. Talvez a mais marcante de todas será a inclusão de um novo nome e um novo logotipo que irão acompanhar o nome e o logotipo antigos, isso porque agora oficialmente viramos uma empresa bi-nacional com registro no Brasil e na Austrália. Por uma questão burocrática (isso também existe aqui, só que bem menos do que no Brasil) registramos a empresa australiana com o nome de B & G Yacht Design (B de Barros e G de Gouveia). Só poderíamos registrar como Roberto Barros Yacht Design se o Roberto também estivesse aqui. Desta forma acreditamos que por ser um nome mais internacional irá ajudar a aumentar nossa participação no mercado mundial de projetos de estoque.
Estamos bastante animados e motivados com esta nova fase de nosso trabalho. Mais do que um novo começo, consideramos que o B & G Yacht Design é a continuação de uma obra e um sonho iniciado pelo Cabinho há mais de vinte anos e que nos últimos quinze pude participar e sonhar junto.
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ENTREVISTA PUBLICADA NA REVISTA NÁUTICA DE JUNHO DE 2008 Roberto (Cabinho) e Eileen Barros concederam a entrevista abaixo ao jornalista Otto Aquino da Revista Náutica. Nessa matéria Roberto e Eileen relatam algumas passagens importantes de suas vidas e contam quais são seus planos daqui para a frente. Apesar do tempo ter passado para eles, Eileen e Roberto ainda têm planos para o futuro, entre eles tornar o escritório uma empresa bi-nacional, funcionando com a mesma força na Austrália e no Brasil. Desenvolvimento de novos projetos também estão em seus planos. Cofira abaixo a reportagem completa:
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Safra record de nossos barcos ficando prontos para serem inaugurados Nesta temporada temos boas razões para comemorar. Para brindar o primeiro aniversário desde que estamos operando em Perth, Austrália Ocidental, parece que nossos construtores quiseram nos presentear com um número record de barcos sendo terminados quase que simultaneamente. Um destes é Black Ice, o primeiro Pantanal 25 a navegar, um prematuro nessa lista. No mês de abril ele foi inaugurado em grande estilo e agora em junho deverá participar do Circuito de Ilha Bela na classe RGS. Seu construtor,Jorge Intaschi, conseguiu um patrocínio para financiar os custos desta campanha, e para isso está treinando uma tripulação para tentar fazer bonito na competição, com a intenção de demonstrar o potencial deste barco de camping com quilha retrátil. Dark Ice já provou ser um barco capaz de velejar bem rápido em ventos fracos. No dia do teste inaugural ventava fraco e mesmo assim o barco andou muito bem. (Veja, rolando a página, a reportagem sobre a inauguração do Pantanal 25 Black Ice. O vídeo You-Tube que Jorge filmou na ocasião já tinha contabilizado 2890 visitas em 24 de maio de 2008)
Outro barco que acaba de ir para a água e que deverá estar velejando no fim de junho é também o primeiro de seu desenho a ficar pronto. Ele é o protótipo do projeto Green Flash ORC 33, construído em Joinville, Santa Catarina, por João de Deus Assis. Esse barco é um dos pioneiros desta classe estabelecida pela ORC. No Brasil ele deverá correr na categoria ORC International Class, uma vez que ainda é filho único e deverá ter que esperar um bom tempo antes de poder correr por bico de proa. Ao João de Deus desejamos muito boa sorte, pois esse barco é um dos nossos maiores esforços no segmento de barcos de alta competição, e estamos roendo as unhas para saber como ele irá se sair no calendário do segundo semestre deste ano.
Mais um barco que estamos ansiosos em ver velejando é o Samoa 28 Sirius, construído pelo geólogo Daniel D’Angelo, em Buenos Aires, Argentina. Toda a galera que está construindo Samoas 28, que aliás é bem internacional, já vem acompanhando o site do Daniel na Internet, http://ar.geocities.com/velerosirius, e como ele está na frente de todo mundo, não somos somente nós que estamos super-ligados na inauguração do Sirius. Daniel está particularmente de parabéns, pois ele conseguiu construir seu barco, por sinal muito bem feito, durante suas folgas da plataforma de petróleo onde trabalha na Bacia de Campos. Ele é um bom exemplo para outros construtores amadores, pois o Sirius é o primeiro barco que constrói. Quando o Daniel nos comunicar como foi o lançamento do seu barco, pretendemos fazer uma reportagem de capa nesta coluna, a respeito do acontecimento.
Finalmente lá da distante Coréia recebemos a foto do Multichine 45 construído por nosso cliente T. J. Park, já praticamente pronto para ir para a água, faltando apenas a pintura de acabamento. Esse foi o segundo projeto que vendemos para a Coréia, e pelo que sabemos, o primeiro a ficar pronto. Como os barcos da classe já velejando estão fazendo muito sucesso, acreditamos que Mr. Park vai dar um show de bola no país dele com seu veleiro de projeto “made in Brazil”, pois quando os planos foram adquiridos, ainda trabalhávamos no Rio de Janeiro.
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Entrevista histórica com Cabinho Para comemorar o fato de que finalmente Luis abriu a filial australiana da Roberto Barros Yacht Design, que lá se chamará B & G Yacht Design, de Barros e Gouveia, o blog do Rio Boat Show da Revista Náutica, www.nautica.com.br, resolveu nos dar uma colher de chá com uma materia inflando nosso spinnaker, nos ajudando desta forma a dar uma planadinha. Nossos agradecimentos ao Otto, ao Junior e ao Fernando.
O dia neste sábado amanheceu simplesmente lindo aqui no Rio de Janeiro. Depois de tantos dias cinzas, ver um céu azul sem nenhuma nuvem traz de volta as cores do Rio de Janeiro. E foi nesse clima que peguei carona com Otto Aquino e Fernando Monteiro da revista Náutica até a Gávea, na casa de Roberto e Eileen Barros, o casal Cabinho. A simpatia de Cabinho e Eileen não poderia combinar melhor com o astral do dia. E assisti a uma entrevista histórica, que estará na próxima edição da revista Náutica. Cabinho falou de seus heróis, de sua formação, dos sustos que passou no mar, e também de seus projetos e da tão falada mudança para a Austrália. "Acho que eu nunca contei para ninguém as minhas histórias que contei aqui hoje", disse Cabinho ao final da entrevista. Um ótimo papo para começar o dia.
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Uma nova revolução em propulsão auxiliar para veleiros
Naquela época a máquina a vapor, então uma nova invenção, tendo sido a mola mestra da revolução industrial, ainda não inspirava suficiente confiança aos armadores para que dispensassem a muito menos eficiente e mais trabalhosa tradicional navegação à vela. Seriam necessárias várias décadas mais para que a navegação comercial banisse os veleiros de cena, deixando essa arte na prática exclusivamente para a navegação esportiva de cruzeiro ou regata. No século vinte quando o motor a combustão se tornou corriqueiro em todos os tipos de veículos, não demorou muito para que os porões dos iates de recreio fossem invadidos por esses onerosos e barulhentos vilões. Nas primeiras décadas do século vinte, as popas dos veleiros eram estreitas, as quilhas longas com o leme acoplado aos seus bordos de fuga, e apresentavam uma abertura entre os dois para posicionamento do hélice propulsor. Esses barcos eram lentos e difíceis de construir. Somente com a introdução dos barcos de plástico, a partir da segunda metade do século passado, as quilhas foram separadas dos lemes, aumentando sua eficiência. Mais tarde ocorreu uma nova mudança conceitual que veio melhorar significativamente o desempenho dos veleiros; a adoção de projetos com popas cada vez mais largas, chegando hoje ao extremo de alguns chegarem a ter a boca máxima exatamente ou quase na própria popa. Todavia essa mudança no desenho de veleiros trouxe um problema a ser resolvido. O excesso de flutuação de reserva na região da popa faz a linha central do casco à ré se afastar da água à medida que o barco aderna, diminuindo a eficiência do leme. Para corrigir esse inconveniente, começou-se a especificar dois lemes inclinados bem separados. Assim, com o barco navegando em pé, os dois lemes atuam simultaneamente, melhorando em muito o controle. Com o barco adernado, o leme de barlavento começa a perder eficácia, enquanto o de sotavento, adquirindo uma posição mais próxima da vertical, se torna extremamente eficaz. A configuração com popas largas, bordos de fuga bem planos e dois lemes para segurar o barco no rumo trouxeram um expressivo aumento de velocidade aos veleiros monocasco, principalmente nos ventos folgados, e parece que esse novo conceito em design veio para ficar. Enquanto isso uma nova revolução silenciosa (literalmente) vem acontecendo no que se refere à propulsão auxiliar de veleiros – os motores elétricos para propulsão auxiliar. É surpreendente que uma solução tão óbvia viesse demorar tanto tempo para ser aceita. Dá para imaginar a dificuldade de vendedores de motores a explosão fazerem seus clientes acreditar ser possível substituir as complicadas maquinas de queimarem combustíveis fosseis que levaram centenas de milhões de anos para se acumularem e agora estão se exaurindo em décadas, por motores elétricos com o diâmetro de um pandeiro, que usam energia praticamente não poluente, se auto-abastecem quando o barco está velejando, uma vez que o motor se transforma em gerador, ou quando os veleiros estiverem estacionados, igualmente podem estar acumulando a energia para ser consumida com propulsão, produzida por painéis solares ou geradores eólicos. Isso parece ser bom demais para ser verdade, não é mesmo? Mas isso não é ficção. Esses motores começam a ser instalados em veleiros de produção em série, como é o caso dos renomados catamarãs Lagoon, numa versão híbrida, diesel elétrica, onde um gerador garante o suprimento de energia para os bancos de baterias e desses para os dois propulsores elétricos. Como designers de iates, é agradável poder acompanhar os avanços tecnológicos que acontecem em nosso ramo, e até mesmo contribuir, pelo menos um pouquinho, com novas idéias e experiências próprias. Esse já está sendo o caso com propulsão elétrica auxiliar. Já estamos comprometidos com o projeto de um veleiro de construção composite, com dois lemes e dois motores auxiliares. Ora, esse barco quando estiver navegando com os dois motores funcionando, seus lemes irão ficar extremamente leves, pois o fluxo da água acelerada pelos hélices irá aumentar o efeito de governo em cada leme. Outra vantagem desta configuração será a facilidade de manobra, típica das embarcações com dois motores. Esse tipo de instalação só é viável pelo fato destes motores serem leves e compactos. Quando programas forem desenvolvidos para controlar cada motor com a rotação necessária para manter o barco no rumo, os lemes praticamente não serão solicitados, o que irá representar uma economia de consumo. O potencial de possibilidades da propulsão elétrica auxiliar é muito vasto, uma vez que essa nova técnica está apenas engatinhando. Vários fabricantes começam a divulgar seus novos modelos e a concorrência deverá reduzir custos e aumentar a eficiência de seus produtos no futuro próximo. |
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| A opção pelo alumínio
O casco de alumínio de um Multichine 41 SK mostra sua rigidez Sendo engenheiro metalurgista eu gosto de barcos metálicos, o que é natural. Isso não significa que os outros materiais sejam inapropriados ou inferiores, apenas que o alumínio é meu material de preferência, e o texto a seguir mostra o porquê. O primeiro ponto forte do alumínio é o fato de ele ser um metal, assim como o aço, e às vezes o óbvio precisa ser repetido para que fique evidente. (a palavra alumínio é usada aqui para significar as ligas de alumínio, não necessáriamente o metal puro, que tem muito pouco uso – aço também é uma liga metálica de ferro, não um metal puro). Como metal, o alumínio apresenta todas aquelas propriedades que tornam os metais os materiais preferidos para aplicações estruturais em todo o mundo, pelo menos nas aplicações dentro dos padrões normais, excluindo-se alguns campos especializados, como veículos de competição extremos. Calcular as propriedades estruturais de um componente de alumínio ou mesmo de qualquer metal usual é fácil porque os metais são isotrópicos, ou seja, suas propriedades são constantes e iguais nas várias direções e também homogêneos em massa, ou seja uma porção do material tem as mesmas características de qualquer outra. Também as propriedades das ligas de alumínio usadas em construção naval são estáveis no tempo, ou seja, o material não “envelhece”.
A energia absorvida até a ruptura é proporcional à área sob a curva Outro ponto forte dos metais é que eles podem absorver esforços e se deformar elasticamente, retornando a seu estado natural quando o esforço é removido. E caso o esforço ultrapasse o limite elástico, os metais podem absorver energia deformando-se plasticamente, ou seja, uma deformação permanente é introduzida, mas o material não se fratura repentinamente. A deformação é um aviso e um fator de segurança. Vistos estas características favoráveis dos metais, o alumínio dentre eles tem uma posição de destaque na indústria naval desde os anos 50 do século passado, depois que as ligas da série 5000 ( ligas de alumínio magnésio ) foram sendo desenvolvidas e aprimoradas, devido às suas inigualáveis características para esse uso, que são:
Aliso, transporta 500 passageiros, 148 carros e 112 ônibus a 37 nós Dentre estas, as características mais importantes para nossa análise são as duas primeiras. Calculando-se para que duas estruturas, uma de alumínio e uma de aço, tenham a mesma rigidez, a de alumínio irá pesar apenas 50% da de aço. Ou, em outro modo de encarar, se tivermos dois barcos iguais do mesmo peso, um de alumínio e outro de aço, o de alumínio será extremamente mais forte. Essa vantagem em peso não se limita à comparação com barcos de aço. Para resistências equivalentes, os barcos de alumínio também são mais leves que os de plástico reforçado com fibra de vidro. Até o aparecimento dos compósitos de alta performance, como os laminados reforçados com kevlar ou fibra de carbono, o alumínio dominava a cena também em barcos de competição, como os famosos Pen Duick de Eric Tabarly. Eric Tabarly a bordo de Pen Duick VI Esses materiais modernos são muitas vezes mais caros e exigem técnicas de construção fora da capacidade de pequenos construtores, além de sua durabilidade poder ficar aquém do que se pode conseguir com alumínio. Sua resistência à corrosão marinha ( as ligas das séries 5083, 5086, 5383 são inertes em água salgada ) significa uma vida útil prolongada, com baixos custos de manutenção e um valor de revenda alto para um barco de alumínio. Comparação de peso entre cascos de fibra de vidro e alumínio O custo de produção também fica bastante reduzido pelo fato de o material não requerer revestimento superficial de qualquer tipo, excetuando-se abaixo da linha d´água para efeitos anti-incrustantes. Barcos e estruturas como pontões de marinas e portos construídos em alumínio tem ficado em serviço por várias décadas, algumas vezes sendo substituídos por obsolescência de desenho, continuando perfeitamente íntegros. Dos materiais comumente usados em construção naval hoje, o alumínio é o único que vai manter suas propriedades inalteradas quando exposto à água salgada sem precisar de qualquer barreira. Você poderia fazer um furo num barco de alumínio e deixá-lo dentro da água sem que o material se deteriorasse ( mas o barco afundaria se o furo fosse no fundo, é claro, então nada se ganharia! ).
Um belo barco de alumínio, o Parati I de Amyr Klink O resultado de tudo isso acaba aparecendo em barcos estáveis e rápidos devido ao menor peso de estrutura, com poucas limitações de formato de casco devido ao fato do material ser facilmente trabalhável, fáceis e rápidos de produzir devido à leveza e velocidade de soldagem. O alumínio permite produzir barcos seguros e duráveis, o que todos nós procuramos quando construímos ou compramos um barco. Luis Manuel Pinho é engenheiro metalurgista formado em 1990 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, velejador desde a infância e duas vezes construtor amador de veleiros. Vive a bordo com sua esposa Marli Werner desde 1996, tendo navegado mais de 30000 milhas náuticas principalmente nos Oceanos Pacífico e Atlântico. Luis colabora com o escritório Roberto Barros Yacht design em alguns projetos, produzindo kits CNC para a linha de barcos de metal e fazendo algum trabalho de desenho próprio. |
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| Construindo um dinghy Caravela 1.7
O dinghy Caravela 1.7 foi desenhado para servir de caíque no veleiro de cruzeiro Multichine 28. Como esse veleiro possui um convés corrido na proa, fomos consultados sobre a possibilidade de carregar um caíque sólido ali. Como os planos foram feitos para fazer parte do conjunto de plantas do MC28, achamos boa idéia liberar esse projetinho e oferecê-lo gratuitamente em nosso site para qualquer um que desejar construí-lo.
O dinghy Caravela 1.7 foi feito sob medida para o convés de proa do MC28. Essa acabou sendo uma feliz decisão, ainda que por diferentes razões das que tínhamos imaginado. Muitos amadores que pensam em construir um barco pela primeira vez desejam de antemão ensaiar algo mais fácil, só para ganhar experiência, e nesse aspecto ele é o teste perfeito. Além disso é extremamente versátil, pois é um veleirinho que pode ser propulsionado por motor de popa, ou por remo, além de possuir quatrocentos litros de flutuação positiva, o que o torna insubmergível mesmo que esteja transportando quatro pessoas. Como esse dinghy já está disponível como projeto grátis em nosso site há alguns anos, chegaram a nós várias informações sobre ele, tanto sendo empregado para recreação, quanto como caíque auxiliar, isso nos lugares mais improváveis de imaginar ter um barco de nosso escritório, como na Sibéria ou na Antártica. Os planos estão sendo usados em escolas de construção de embarcações de recreio, ou escolas de vela para jovens carentes, às vezes financiadas por organizações não governamentais, o que nos deixa muito contentes em saber. O folclore a respeito do Caravela 1.7 é extenso. Um dia, estávamos assistindo um vídeo sobre um norueguês que navegava na Antártica em uma manha sem vento, quando o motor de seu veleiro enguiçou. Em poucos minutos lançou o caíque auxiliar de bordo ao mar, que não era outro que o dinghy Caravela 1.7, e saiu remando em direção ao píer de uma base científica levando seu veleiro a reboque. Em outra ocasião, um Caravela 1.7 estava apoiado em posição vertical no convés de proa de um veleiro com seu convés encostado ao mastro e com a adriça da genoa engatada na alça de reboque do caíque. Uma violenta e inesperada rajada fez o Caravela içar vôo, e, descrevendo um grande arco, acabou por aterrissar na cruzeta de um outro veleiro que estava do outro lado do píer, isso a uns cinco metros de altura. Mas as histórias do Caravela 1.7 não terminam por aí. Sabemos de muitas outras, quase dando para escrever um livro...geralmente relacionadas a marinheiros de primeira viagem, tanto em construção amadora, quanto na arte de velejar. Às vezes recebemos e-mails com fotos relatando experiências inesquecíveis, nos contando que construir esse dinghy tenha sido uma decisão importante para eles.
Se você construiu um Caravela 1.7 e tem uma história para contar, mande-nos um email com fotos, pois iremos gostar muito de juntar sua história à nossa coleção. Mais à frente, pretendemos fazer uma matéria sobre a classe. Clique aqui para abrir a página de download do Caravela 1.7 |
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| Singapura, nosso endereço temporário Você que acompanha nossas notícias talvez esteja curioso em saber por que a empresa Roberto Barros Yacht Design, (B & G Yacht Design na Austrália), está operando desde Cingapura, em vez de Perth, agora o endereço definitivo do escritório. Nosso escritório é uma empresa familiar. Os sócios fundadores, Roberto Barros, o Cabinho, e sua esposa inglesa, Eileen, iniciaram o escritório em 1987 na cidade do Rio de Janeiro. Em 1991 sua filha Astrid se juntou ao escritório junto com seu marido, o engenheiro naval Luis Gouveia, onde permaneceram até maio de 2007, quando desejando ampliar os horizontes, decidiram se mudar para Perth, onde criaram verdadeiras raízes e por lá decidiram se estabelecer permanentemente, tendo mesmo comprado uma casa por lá e fundado a B & G Yacht Design (B & G de Barros e Gouveia). A firma original continua registrada no Rio de Janeiro e hoje é um escritório de vendas, ficando a coordenação da produção de novos projetos com Luis, enquanto Eileen e Roberto ficaram no Rio de Janeiro ajudando a tocar a agora filial brasileira da empresa.
Luis, Astrid e os filhos, Christian e Juliana, jantando fora em um restaurante de Cingapura As coisas tomaram um novo rumo em março de 2009, quando Astrid, uma especialista em hidrodinâmica com um doutorado nesse ramo, foi convidada para ser gerente de projeto na construção de uma das primeiras plataformas de perfuração que irão operar no gigantesco campo petrolífero do pré-sal recém descoberto em águas profundas em frente ao Rio de Janeiro. Como hoje em dia se pode operar de qualquer lugar, contanto que se esteja ligado à rede mundial de computadores, a família se mudou de mala e cuia para Cingapura, onde a primeira plataforma estava em construção. Essa plataforma, a Gold Star, agora já está terminada e em novembro deverá partir para o Rio via Cabo da Boa Esperança, com escala em Port Louis, Ilha Maurícius, para abastecimento e troca de tripulação.
A plataforma de perfuração Gold Star está pronta para partir de Cingapura para o Rio de Janeiro Acontece, no entanto, que uma segunda plataforma foi encomendada ao mesmo estaleiro, e Astrid foi convidada a permanecer em seu cargo até a entrega dessa nova obra. A mudança de endereço foi bem recebida pela família, pois Cingapura é um lugar civilizado com uma qualidade de vida, de um modo geral, de dar inveja, e os filhos estão matriculados em escolas australianas, de forma que não houve solução de continuidade no estilo de vida deles. A posição geográfica do novo país também permitiu que nos feriados fizessem um turismo muito exótico ali por perto mesmo, já tendo passado um feriado prolongado em Bali, outro numa praia paradisíaca da Malásia e agora estando no programa uma visita a Borneu.
Astrid, the lady boss, como os engenheiros chineses a chamam, é a de macacão azul. A atividade de yacht design vem sendo exercida por Luis, com eventual ajuda da Astrid, quando ela não está muito cansada, pois afinal ela tem o gosto por projetos de iates em seu DNA. Luis é ajudado também pelo resto da equipe inicial do escritório que permaneceu no Brasil. Sendo um dos mais conhecidos escritórios de yacht design no país, não é de se estranhar que a maioria dos barcos construídos a partir de nossos projetos seja de barcos brasileiros. Mas isso está mudando rápido, uma vez que mais recentemente estejamos com muitos barcos sendo construídos no hemisfério norte e na America Latina. Sentimos uma grande satisfação em constatar que os oceanos não têm fronteiras, e o que realmente conta para a imensa galera da tribo dos navegadores é navegar em barcos robustos e confiáveis, providos de linhas harmoniosas, aquelas que tocam fundo no coração.
O relógio digital no fly-bridge da plataforma contém uma placa comemorativa |
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| Temporadas de Ciclones no Pacífico Sul Furacões, ou ciclones tropicais, acontecem na maior parte dos Oceanos nas regiões tropicais durante o verão, com uma das poucas excessões sendo o Atlântico Sul ( talvez não mais, pois registrou-se uma ocorrência no litoral de Santa Catarina ). Como as áreas de mais interesse para nós em termos de cruzeiro se situam numa faixa de uns 25 graus de latitude para cada lado do equador, bem antes de chegar o verão do hemisfério em que estamos temos que tomar uma decisão de como proceder se estivermos numa área sujeita a tais ciclones, como é o Pacífico Sul.
Durante os anos em que estivemos no Oceano Pacífico com o Green Nomad optamos por várias formas diferentes para lidar com a temporada de furacões, que se chamam de ciclones naquela região. Na primeira temporada seguimos até a Austrália, e fomos para Brisbane, que fica ao Sul da área de ciclones, de modo que nos afastamos da área de perigo. Depois de passar 3 anos trabalhando na Austrália retornamos para as ilhas do Pacífico, desta vez tendo que ir contra os ventos alíseos para velejar para Leste. Com tanta dureza para chegar, decidimos que voltar para o Sul, o que significava Austrália ou Nova Zelândia, não era interessante, e já planejamos que iríamos passar as próximas temporadas de ciclones em torno das áreas afetadas, mas sempre teríamos um plano preparado para a temporada bem em avanço. Basicamente pode-se optar por três tipos de ação evasiva: 1 – Procurar uma região fora dos trópicos, onde ciclones tropicias não ocrorrem. É a opção preferida pela maioria, mas envolve viagens mais longas ao fim da temporada e por regiões de clima mais instável e traiçoeiro. Também siginifica normalmente a volta a um modo de vida urbano, em cidades e marinas ou ancoragens no meio de cidades. 2 – Procurar uma região próxima ao equador, geralmente a menos de 8 graus de latitude N ou S, tanto faz. É talvez a mais segura, mas ainda envolve uma viagem relativamente grande. O retôrno é que se ganha toda uma nova temporada em lugares lindos e pouco afetados pela loucura do mundo moderno (esta última observação vale para o Pacífico e partes do Índico). É nossa opção preferida. 3 – Ficar na região afetada por ciclones, mas num lugar que ofereça abrigos seguros, os chamados “cyclone holes”.
Um mundo só seu nas ancoragens do Pacífico Sul durante a temporada de ciclones! Quando o primeiro verão se aproximou, decidimos que iríamos permanecer na Nova Caledônia ( opção 3 ), que tinha nos encantado tanto que era difícil de deixar.
Para tomar tal decisão era preciso avaliar se haveria lugares seguros para nos protegermos caso um ciclone viesse a atingir a Nova Caledônia, e depois de coletar informações com locais e outros navegadores, concluímos que seria possível ficar ali com uma dose de risco aceitável. Não temos, nem nunca tivemos, seguro do barco, de modo que o que estava em jogo era tudo o que possuíamos em termos materiais, além do risco pessoal. A Nova Caledônia é um território ultramarino da França, e é composta de uma ilha principal, a chamada Grande Terre, e diversas ilhas menores, entre elas a Ile des Pins e as Ilhas Loyauté. A Grande Terre é circundada quase que inteiramente por uma barreira de corais, e no extremo sudoeste da mesma fica a Ile des Pins, onde passamos a maior parte do tempo antes da temporada de ciclones. A Ile des Pins ( chamada Kunie na lingua Kanak, dos habitantes nativos ) é um dos paraísos da terra. É difícil lembrar lugar mais bonito dentre todos os que conhecemos. Por isso era difícil tomar a decisão de deixar esse paraíso e rumar para um ponto mais próximo dos bons abrigos, mas por volta de Novembro já rumamos para cerca da área que tínhamos escolhido.
Vista do topo do mastro em Ile des Pins, Nova Caledônia Entre as diversas opções de abrigo, tínhamos escolhido um sistema de manguezais perto de uma baía chamada Port Laguerre. Port Laguerre fica a 10 milhas náuticas a NW de Nouméa, a capital, que em si já oferece uma boa proteção, mas não suficiente para ciclones, como tão vivamente seria lembrado a todos ainda naquela temporada.
Carta do Sul de Nova Caledônia, mostrando Port Laguerre ( 1 ) e Ile des Pins (2) A distância entre Ile des Pins e Port Laguerre é demasiada para ser percorrida em um único dia já que devido aos inúmeros recifes existentes nesta área é aconselhável só navegar durante o dia, e o caminho marcado em vermelho na carta tem cerca de 70 milhas. Decidimos então que iríamos passar os meses de Dezembro a Maio ancorados entre Nouméa e Baie de Saint Vincent, esta 15 milhas a NW de Port Laguerre.
O porto de Noumea em montagem panorâmica, com a marina de Port Moselle ao centro e a ancoragem à esquerda
Green Nomad, um solitário em Baíe Saint Vincent em Abril de 2003 Como sempre, tínhamos estoque de alimentos a bordo para uns 6 meses, precisando apenas complementar com produtos frescos e peixes, de modo que a maioria do tempo passávamos nas ancoragens num raio de 10 milhas de Port Laguerre, a principal delas a Baíe Papaye, marcada com a âncora na carta abaixo. Dalí podíamos fazer caminhadas maravilhosas nas montanhas, pescar nos recifes na borda da baía, coletar frutas na mata e conchas nas praias, e de noite apreciar um céu estonteante contra as montanhas escarpadas ao fundo.
A ancoragem em Baíe Papaye e o caminho até o abrigo de ciclones
Green Nomad ancorado em Baíe Papaye Usávamos o nosso rádio SSB ligado a um notebook para receber cartas sinóticas e cartas meteorológicas transmitidas pelos serviços de meteorologia da Austrália, Nova Zelândia e Hawai ( USCG ). Entre 1200 e 1400 horas chegava a maioría das cartas de interesse, e era parte da rotina ir recebendo essas cartas enquanto almoçávamos. Desse modo tínhamos cerca de uma semana de aviso prévio para algum ciclone que se aproximasse. No fim de Dezembro decidimos fazer uma verificação a fundo do abrigo, e usando um mapa desenhado à mão que tínhamos copiado, fomos de bote munidos de GPS portátil e uma sonda de prumo (um peso de mergulho amarrado na ponta de um cabo com nós de meio em meio metro) percorrendo o trajeto indicado, anotando profundidades e fazendo waypoints. Isto era necessário porque o canal era muito estreito e, fato incomun nestas paragens, a cor da água não mudava entre o raso e o canal, e o raso era raso mesmo, com cerca de 30 a 40 cm.
Mapa feito à mão mostrando o caminho do abrigo
Veja os baixios na baía de acesso aos mangues! Foto tirada de cima de uma montanha com os óculos de sol polarizados na frente da lente.
Vista do alto com posição do abrigo Como que para nos satisfazer pelo trabalho feito, no dia 28 de Dezembro de 2002 as cartas mostravam o ciclone Zoe, com ventos constantes de 180 nós, passando pela ilha de Tikopia e com a seta indicativa do movimento apontada bem em cima da Nova Caledônia. Passamos o final do ano ancorados dentro da baía de Port Laguerre, monitorando a trajetória de Zoe, com outros barcos de amigos, incluindo o catamaran brasileiro Saravá. Muita festa e apreensão, mas no fim não foi necessário entrar nos manguezais. Em final de Janeiro de 2003 chegou a hora do primeiro teste para valer do abrigo. O ciclone Beni rumava para a Nova Caledônia, e junto com dois barcos de amigos, um Australiano e um Sueco, fomos para dentro dos mangues. Não era uma decisão fácil de tomar, pois devido á baixa profundidade para passar da baía para o canal dos mangues e com o calado de 1.78 m do Green Nomad ( ponto 4 na carta que mostra o caminho do abrigo em vermelho ) era necessário esperar pela maré alta que caísse no meio do dia e assim a decisão de entrar ou não podia ter que ser tomada até 5 ou 6 dias antes da passagem prevista do ciclone, e a manobra de amarração era bastante complicada, sem contar que os mosquitos tornavam tudo ainda mais interessante. Pelo menos não havia crocodilos de água salgada, como nos ciclones que pegamos depois na Austrália, em que eu não sabia se era pior o ciclone nos pegar fora dos mangues ou os crocodilos nos pegarem dentro deles.
Amarrados em companhia de amigos para a passagem do ciclone Beni
Com todos os barcos amarrados, só resta esperar e fazer alguma festa, com os amigos Juergen, do Sea Tramp e Peter e Sandy, a bordo do Otama Song Beni passou a 30 milhas ao Sul de Noumea, e muita chuva com ventos de 30 a 35 nós foi tudo o que sentimos. Mas o treinamento não fora em vão. Em Março o ciclone Érica se formou próximo à costa da Austrália, e começou a ganhar intensidade e se mover num grande arco passando perto das Ilhas Salomão e fazendo uma curva que o apontava bem para Noumea.
A rota do ciclone Érica, que chegou a ter intensidade 5, a máxima, igual ao Katrina que atingiu New Orleans. Como a lei da sorte manda, era um dos raros períodos em que tínhamos decidido dar uma escapadinha de Baíe Papaye, e estávamos em Baíe de Saint Vincent, 15 milhas a sotavento do abrigo, e soprava de 20 a 25 nós. Barco pesado ( 13 toneladas ) e motor pequeno ( 30 HP ), canal estreito e cheio de recifes, foi hora de fechar os ouvidos e motorar com tudo, avançando a 3 nós. Desta vez entramos no abrigo com 5 dias de antecedência, e por incrível que pareça, até a manhã anterior ao dia do ciclone éramos o único barco dentro dos mangues. Chegamos a pensar em desistir e sair do abrigo na mesma maré em que entramos, pois a carta sinótica futura da Nova Zelândia previa Érica perdendo intensidade e mudando de rumo. Mas olhem a foto do satélite, que pegamos 3 anos depois na Austrália. Érica tinha um tamanho assustador, praticamente do tamanho da Grande Terre, que tem 254 milhas de comprimento. A pressão no centro era de 920 Hpa, ventos constantes de 150 nós e rajadas de 190.
Ciclone Érica, um monstro com o olho bem definido. Note a silhueta da Grande Terre a SE do centro do A preparação envolveu amarrar o barco em 10 pontos nos mangues, com cada cabo passando pelo maior número de raízes possível, retirar tudo o que pudesse voar do convés, como genoa, painéis solares, gerador eólico, biruta, luzes do mastro. Na véspera do ciclone estávamos bem instalados e pudemos ajudar amigos que vieram na última hora. Eles como nós tinham o problema do calado, e precisavam esperar as marés. A última foi às 3 da manhã do dia da passagem de Érica, e eu fui de bote para guiar nosso amigo Edi do Joceba para dentro dos mangues. Ele tinha calado de quase 2m, e encalhou bem na entrada do canal!. Ninguém mais ia poder entrar!
Mas na verdade ninguém mais tentou à excessão do catamaran de outro amigo, o Mektoub, de Maho e Fanny, que entrou antes. Uns por impossibilidade, como Jean Michel e Zazá, da Goellete Kyrymba, um grandalhão de aço de 17 metros, na terceira volta ao mundo. Jeanmi e Zazá eram comtemporâneos e amigos de Bernard Moitessier. Outros por incredulidade ou preguiça. A baía fora dos mangues estava com uns 5 barcos ancorados, na esperança que ali já fosse seguro o suficiente. O catamaran Saravá já estava nos mangues, mas no canal principal, pois sua boca impedia que entrasse no canal lateral onde estávamos, mais seguro devido a não ser sujeito a correnteza.
Saravá, que não pode entrar no mangue lateral devido à boca , e Kyrymba, que ficou na boca do manguezal devido ao calado muito grande. Precavidos mas os barcos limitaram suas possibilidades de proteção. Enfim estávamos preparados, tudo amarrado, e só restava esperar e monitorar a situação. A rádio VHF local transmitia boletins regulares com a posição, deslocamento e intensidade do ciclone e também recebíamos mapas pelo fax meteorológico. O barco estava preparado, mas e nós? Sabíamos o que tinha que ser feito e o fizemos, mas àquela hora nem imaginávamos como seria o vento de um ciclone. Já tínhamos visto 50 nós no mar, mas 150, isso escapava ao senso comum. Na madrugada anterior começou a cair uma chuva fina, e esta não parou mais até se tornar chuva pesada, que permaneceu até Erica chegar. Pela radio soubemos que Érica estava agora se movendo a quase 20 nós, o que é bastante rápido para um ciclone daquele tamanho. Depois concluímos que isso foi uma grande ajuda, pois limitou o tempo de permanência dos ventos ciclonicos de alta intensidade em um dado lugar, reduzindo os estragos. Houve muito prejuízo nas marinas de Noumea, mas se o ciclone estivesse se movendo à velocidade habitual de 6 a 10 nós, achamos que pouco teria sobrado da comunidade náutica da Nova Caledônia.
Barco amarrado, mas ainda sem o convés arrumado, faltando remover painéis solares, pás de gerador eólico e itens soltos.
Quem estivesse fora do mangue lateral nem via o Green Nomad. Levando a sério a palavra escondido! O sentido de rotação do ar em torno do centro do ciclone no hemisfério Sul é horário, e como o ciclone se movia para Sudeste, os ventos à frente do mesmo eram de NE, e sua velocidade era decrescida da velocidade de avanço do ciclone. Além disso, as montanhas altas da Grande Terre davam proteção daquele quadrante, de modo que a primeira metade da experiência ainda não ia nos dizer o que é um ciclone. Os ventos subiram de intensidade do setor NE durante toda a manhã, e por volta de 1100 eram bem fortes, estimamos que em mais de 70 nós, mas como o abrigo era digno do nome, ao nível da água nada se passava em nossa volta.
Fotos tiradas antes e durante a passagem do olho do ciclone Érica. Na passagem do olho o tempo e nós ficamos calmos o suficiente para tirar uma foto no timer. Quando o olho do ciclone se aproximou o vento diminuiu, e quando ele passou por nossa posição pude até sair para o convés e verificar a amarração. Estávamos sentados no cockpit esperando a segunda metade da tempestade, imaginando quanto tempo ia levar. O aviso foi um escurecimento geral e na aproximação final um ruído grave, como o de um trem vibrando nos trilhos. Nosso amigo Edi achava que tudo tinha passado e estava no bote indo visitar Maho, e foi pego no pulo, bote virado e tudo, mas estava bem perto do barco. Eu desci a escada e fiquei espreitando pelo dodger, e de repente milhares de folhas foram arrancadas dos mangues ao mesmo tempo. O barulho foi impressionante, e o barco adernou uns 30 graus.
O ponteiro do barômetro passou pelo fundo de escala e só deve ter parado quando bateu no fim do curso! Essa parte durou uma meia hora, com rajadas de intensidade variada. Mas ao contrário dos ventos antes da passagem do ciclone, que foram aumentando gradativamente de 20 até os talvez 70 nós antes da chegada do olho, os ventos abateram com grande velocidade depois da passagem do olho. Nós não temos anemômetro a bordo, mas as medidas tiradas em Nouméa, que fica a 7 milhas dali indicaram 110 nós na rajadas. Assim que os ventos pararam e a chuva diminuiu saímos para o convés, e tudo estava em ordem, só parecendo que um exército de cortadores de grama tinha esvaziado os sacos de lixo em cima de nós.
Passado o ciclone o nível da água subiu bastante. Notem os dois rolos de cabo de 20mm com 100 metros cada. Muito convenientes para situações de amarração exigentes. A primeira coisa que pensamos foi ver como estavam os outros barcos. Pegamos o bote e saímos do braço lateral do mangue. Para resumo da estória, fora Kyrymba, que estava quase dentro dos mangues, no canal de acesso, todos os que resolveram ficar fora foram encontrar outro elemento embaixo da quilha.
De todos os barcos ancorados nenhum ficou na água. Todos estavam em terra, fora um catamaran de regata de uns 28 pés, que se reservou o direito de enfrentar o ciclone com mais estilo e leveza, levantando vôo, mas esquecendo de pousar com o casco para cima. No processo perdeu o mastro. Saravá, que estava no canal principal do mangue, nada sofreu, mas nosso amigo Cacalo disse que as raízes a que estava amarrado foram quebrando uma a uma, e ao fim do ciclone estava preso por apenas um cabo. Ainda ficamos em Port Laguerre 5 dias, arrumando o barco ( marcamos a corrente de ancora de 10 em 10 metros, aproveitando que ela estava fora da água ) e depois ajudando a puxar os barcos encalhados de volta para a água, com a ajuda de Kyrymba, que tinha um motorzão e dos botes de todo mundo. Amarrávamos as adriças dos barcos numa fila de botes, tipo cabo de guerra. A um certo momento Kyrymba dava toda a máquina e os botes puxavam pela ponta do mastro para adernar mais o barco, e assim um a um voltou para a água. Quando retornamos a Nouméa a maioria dos naufrágios já tinha sido retirada da baía, mas ainda assim o que vimos parecia um paliteiro de mastros saindo da água. No caminho, uma visão impressionante. O lado das montanhas que ficava voltado para o Sudoeste, setor dos ventos mais fortes, mostrava todas as folhas de côr marrom, queimadas pelo atrito da água com sal impulsionada pelo vento!
Restos de barcos estavam por todo o lado em Nouméa!
O primeiro e único barco de aço inoxidável que nós vimos quase nem chegou a navegar. Quando fomos á marina de serviços, o que vimos foi impressionante. Dá para imaginar um barco de aço assim?
Sem discriminação de material, Érica atendeu a todos! Ainda passamos outros dois mêses em Nova Caledônia, e em Junho seguimos para a Ilha de Tanna, em Vanuatu. Estávamos aliviados por ter passado bem a primeira temporada. Ou quase, pois no dia 6 de Junho, depois de passarmos uns 2 dias sem olhar os mapas do tempo, resolvemos dar uma espiada e lá estava Gina, ciclone bem formado, bem no norte de Vanuatu e apontado vocês sabem onde, em Tanna. Essa foi de assustar, pois ali não havia abrigo possível, e a nossa velocidade não ia permitir chegar a nenhum lugar com abrigo em segurança, de modo que se Gina não enfraquecesse e insistisse em nos visitar a solução era pôr tudo que se pudesse de âncoras e dar no pé para terra. Mas Gina foi bem educada e enfraqueceu e desviou. Deixou, porém, o recado que início de Junho ainda era cêdo para relaxar.
Rotas dos ciclones da temporada de 2003-2003 no Pacífico Sul No ano seguinte decicimos que não queríamos a companhia de Ginas, Éricas ou seus namorados, e resolvemos passar a temporada em Kiribati, nos atóis do grupo Gilbert, que ficam em torno do equador. Nada de ciclones por lá e uma das experiências de cruzeiro mais recompensadoras que tivemos. Na temporada depois dessa o lugar escolhido foram as Ilhas Salomão, igualmente lindas e que ficam entre 5 e 8 graus de latitude Sul, fora da área de risco também.
Zazen ( BRA), Green Nomad, Nyathi ( USA) e Joceba ( FRA) nas Ilhas Salomão. Manhã depois da festa numa madrugada calma! Com isso ficamos 3 anos sem precisar voltar para os grandes centros e tivemos os melhores momentos de nossas vidas, numa vida totalmente natural e descontraída ( fora as marcas de unha nas molduras, malária etc ). Era hora de voltar para a Astrália e trabalhar de novo, vir ao Brasil para ver a família e estudar novos rumos. Mas como ficamos em Cairns, no Nordeste da Austrália, a 16 graus de latitude Sul, voltamos a ter que conviver com cartas meteorológicas e ciclones. E para não perder a prática, o ciclone Larry, o mais destrutivo da história da Austrália, passou a 30 Milhas ao Sul da nossa posição, desviando na última hora e arrassando uma cidade pequena inteiramente, não deixando nenhuma casa de pé. Tinhamos decidido parar de trabalhar nos três piores meses da temporada e ficar sempre perto dos abrigos, que sondamos do mesmo modo que em Nova Caledônia. Amarrando o barco em Cairns, Austrália. Cada tronco que se mexia me fazia imaginar um crocodilo com a boca aberta!
Green Nomad já quase pronto para o ciclone Larry Dessa vez me lembrei muito de Port Laguerre, onde o único problema era o ciclone, pois nos mêses em que ficamos ancorados no rio Trinity, diversas vêzes vimos crocodilos de água salgada nadando próximo ao barco. Ou seja, na hora de passar os cabos pelas raízes dos mangues, qualquer tronco que se mexesse já me fazia imaginar a bocada do crocodilo. Os locais diziam para chegar fazendo um monte de barulho com o bote, bater com o remo na água etc, para assustar os bichos. Não sei se eles se assustaram, mas eu com certeza... Segundo ciclone categoria 5, muitos cabos para guardar mas nenhum estrago! Luis Manuel Pinho, luisdesenhos@gmail.com, é engenheiro metalurgista e yacht designer com experiência em construção metálica de iates. Com sua esposa, Marli Werner, viajou quase dez anos a bordo de um barco de aço com quilha fixa, o Green Nomad, que ele mesmo construiu na cidade do Rio de Janeiro. Depois de passar por várias experiências meio assustadoras com passagens de furacões por onde estava estacionado, decidiu vender seu barco na Austrália e viajar para o Brasil com a intenção de construir um novo veleiro, desta vez em alumínio e com quilha pivotável. Sua experiência ensinou que um barco que pudesse reduzir seu calado a apenas a profundidade do casco, teria muito mais facilidade de encontrar um lugar para se proteger durante a passagem de um furacão. Sendo um excelente projetista, a B & G Yacht Design (Roberto Barros Yacht Design) convidou-o para fazer parte da equipe, e o primeiro resultado desta parceria é o projeto Kiribati 36, o qual escolheu para ser o seu novo Green Nomad, no momento em fase final de construção em Porto Alegre. Terminada a construção, Luis Manuel e Marli pretendem retornar ao Pacífico Sul com seu novo barco de alumínio, que daqui para frente deverá ser sua casa e escritório virtual de yacht design, em continuação à parceria iniciada com o Kiribati. Um novo veleiro de 28 pés, o Pop-Alu 28, em breve estará reforçando essa nova linha de projetos. |
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Realidade e Fantasia sobre a preparação de um veleiro de cruzeiro oceânico Como profissionais de projeto de iates com dedicação especial aos planos de veleiros para construção particular, recebemos inúmeras consultas de pessoas mais ou menos saturadas com o estado das coisas no mundo atual, nos informando estarem dispostas a obter um veleiro para sair por aí em uma longa viagem. Em princípio temos grande simpatia por este tipo de gente pois afinal basicamente desejamos a mesma coisa, mas na maioria das vezes abre-se um fosso muito grande entre os dois lados quando nosso correspondente começa a tirar os pés do chão informando-nos que deseja um veleiro de tamanho suficiente para acomodar com conforto e segurança ele e sua família, mas que infelizmente não dispõe nem de muitos recursos nem de experiência prévia. Em seguida nos pergunta quanto custa realizar este sonho e se num determinado período seria viável completar seu projeto de vida. Basicamente este questionamento é correto para todo aquele que deseja tomar uma atitude radical à sociedade estabelecida convencional, da qual queiramos ou não todos fazemos parte. Mas será que estas pessoas estão no caminho certo? Vejamos duas possibilidades e dois caminhos bem distintos. Um potencial cruzeirista encontra e acaba adquirindo um veleiro de segunda mão na faixa dos 40 pés por um valor hipotético de 60 mil dólares, barato para um barco deste porte, pagável em 20 prestações de 3000 dollars o que representa toda a sua disponibilidade. Outro velejador inicia a construção particular de um veleiro de 30 pés, cujo preço final ele não tem muita certeza de quanto será, mas sabe que também pode dispor de um fluxo de caixa de aproximadamente três mil dollars mensais. O primeiro personagem ao comprar um barco velho avalia que terá que gastar mais uns 30 mil dollars para deixá-lo em bom estado mas tem que esperar 20 meses somente para poder quitar a aquisição e só então iniciar a obra. E enquanto isto vai se endividando mais ainda com estadia e outras despesas inevitáveis. Em vinte meses o outro barco está pronto para ir para qualquer lugar e seu dono não deve nada a ninguém. Enquanto isto o barco de 40 pés não só foi se estragando como também se tornando ainda mais obsoleto e no final das contas se um dia ficar pronto em condições de sair mundo afora, terá custado provavelmente outros U$60 mil a mais e não os U$30 mil previstos, o que é a regra em todas as reformas. Neste meio tempo o barco menor já terá navegado uma barbaridade e sendo novo em folha terá dado o mínimo de manutenção ao seu proprietário. Por outro lado a grande chance é a de que o proprietário de 40 pés acabe não fazendo cruzeiro em face dos inúmeros problemas que podem surgir durante todo esse tempo, seja com sua embarcação, seja com sua vida pessoal. Os exemplos antagônicos se aplicam a vários tamanhos de barco e a diversos potenciais financeiros, mas como a maior parte das pessoas pertence à categoria do primeiro exemplo, existem muitos sonhadores e somente uns poucos realizando estes sonhos. Em nosso modo de pensar a forma mais segura de sair mar afora é ter o melhor barco possível tanto em qualidade de construção quanto de equipamentos. Se os recursos não forem grandes deve-se reduzir o tamanho do barco mas nunca abaixar o nível de qualidade. Quase todos os cruzeiristas brasileiros mais conhecidos fizeram seus próprios barcos com todo o capricho, ou então os encomendaram a um estaleiro ou os compraram prontos, escolhendo a dedo seu modelo, nunca voando mais alto do que seus recursos lhe permitiram. Muitas vezes recebemos consultas totalmente fantasiosas e as pessoas parecem ficar decepcionadas quando dizemos que não acreditamos muito nos seus planos. Cada um sabe de sua vida, mas na prática constatamos que determinação e bom senso são os fatores mais importantes para transformar um sonho em realidade. De forma alguma queremos sugerir que o barco menor é mais adequado para empreender um longo cruzeiro. Até mesmo compreendemos que quem viaja a bordo do seu veleiro pode precisar de ganhar a vida dentro dele, e isto pode abranger as mais variadas atividades, desde o charter, a mais óbvia, até mesmo trabalho em informática, por exemplo, que hoje em dia pode ser realizado em qualquer lugar. Neste caso o barco maior é sem dúvida mais adequado mas também seu custo operacional é maior. Por ironia geralmente quem menos precisa de trabalhar para ganhar dinheiro na nova vida é quem pode dispor de um veleiro maior. Mas também em nossa opinião o barco menor não é necessariamente menos adequado para um cruzeiro longo, principalmente quanto ao fator segurança. Mas isto já é um outro capítulo. O que deve ser considerado cuidadosamente para reflexão é o fato de alguns conseguirem fazer longos cruzeiros bem sucedidas com seus veleiros e outros não atingirem seus objetivos. As razões para esta diferença crucial são exatamente as que separam a realidade da fantasia. |
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Planos para Construção Amadora Especificamos nossos projetos para seis sistemas construtivos, empregando os materiais mais usados em construção de embarcações. Embora existam muitos outros processos, preferimos nos concentrar naqueles em que o material é de fácil obtenção no Brasil, a construção não é muito complicada e que resultem num produto final de alta qualidade, durável e seguro. Fazemos em seguida um resumo explicativo dos processos que adotamos. Processo Ply-Glass Este é um dos processos mais interessantes para a construção amadora. A qualidade do barco final é insuperável, não há perda de modelos, o sistema é fácil de executar, obtendo-se um bom isolamento térmico e um peso reduzido para a rigidez alcançada. Pode-se dizer que pelo lado menos positivo tenha-se a limitação de não se poder fazer cascos redondos. Os barcos em ply-glass devem ser do tipo facetado, ou seja, em corte transversal o casco não é arredondado, mas sim tem uma forma poligonal em que os cantos são chamados "chines" (pronuncia-se chaines). Para alguns, os barcos desse tipo com um ou mais chines (neste caso chamados de multichines), não são tão bonitos quanto os cascos de formas redondas. Isto é uma questão de gosto, mas alguns barcos multichines, quando bem desenhados e bem construídos podem ficar excepcionalmente atraentes.
A construção em ply-glass, considerando-se a alta qualidade do barco concluído e sua longa durabilidade com mínima manutenção é um dos processos mais interessantes, para quem quer ter a certeza de construir um bom barco. ![]() Casco do Multichine 28 FIU recebendo o revestimento de compensado ![]() Multichine 28 Utopya sendo colocado na água
Construção em Strip-Planking Este é o método mais econômico de construir um casco. Para quem quiser fazer um bom barco, robusto e durável de uma forma rápida e barata este sistema é imbatível. Preparam-se ripas estreitas nas quais são tupiados um cavado e um abaulado como se fossem um macho e fêmea. Estas ripas são os chamados strips; Em seguida prepara-se a quilha de madeira moldada, a roda de proa e o trincaniz (peça de madeira de reforço entre convés e costado) que são fixados sobre cavernas, anteparas e (ou) balizas; Após isso é feito o revestimento com os strips. Estes são pregados e colados um ao outro assim como à estrutura, sendo apenas pregados provisoriamente às balizas, pois estas serão retiradas depois; Finalmente o casco é lixado e impregnado com duas mãos de resina epoxy, por dentro e por fora, para a saturação da superfície da madeira. Algumas pessoas preferem aplicar externamente o epoxy reforçado com uma camada fina de tecido de vidro. Essa camada de tecido fino dá maior proteção no caso do casco raspar numa pedra ou beirada de cais. O processo strip-planking requer que as ripas sejam emendadas em juntas chanfradas para que fiquem com o comprimento necessário. É difícil encontrar madeira com mais de 5 metros de comprimento. O processo requer também bastante cuidado na colagem e na saturação com resina epoxy. Cavernas preparadas para receber o revestimento de strip-planking
![]() Revestimento em strip-planking completo
Laminado Moldado Este é um dos mais belos métodos de construção que existem. Para os apreciadores, esta é a oportunidade de usar a madeira, com um resultado igual ou superior ao plástico reforçado com fibra de vidro. ![]() Casco de um Samoa 29 construído em laminado moldado
Construção em Fibra de Vidro O mais popular processo de construção de embarcações de recreio é sem dúvida o plástico reforçado com fibra de vidro. A maioria dos barcos é feita assim, o que representa um valor de revenda maior do que em outros processos. ![]() Forma do convés de um Samoa 36
Construção em Sanduiche de Balsa ou Espuma de P.V.C. Um barco construido pelo processo de sanduiche tendo como recheio um material (geralmente espuma de P.V.C. ou balsa) e interna ou externamente laminados de plástico reforçado com fibra de vidro ou as chamadas fibras high - tech, tais como fibra de carbono ou Kevlar, tem como resultado o que existe de mais leve, rígido e robusto que se possa fabricar. Construção em Aço ou Alumínio Os barcos de aço vão se tornando os favoritos entre os cruzeiristas de longo curso, principalmente nos países da Europa. ![]() Terminando o convés do Multichine 45 ![]() Casco do Multichine 37 sendo virado ![]() Multichine 45 Scirocco, construído em aço |
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