Clube do Multichine 28
Diário Número 2
Na noite do dia 6 de abril, nosso Multichine 28 Fiu foi colocado na água pelo guindaste do Iate Clube Jardim Guanabara, na Ilha do Governador. Foi um lançamento afobado, já com o expediente encerrado para os marinheiros do clube, que por boa vontade permaneceram no trabalho apenas para nos ajudar.
Havíamos sido convidados pelos organizadores do Rio Boat Show para participarmos do evento como um dos importantes veleiros de cruzeiro nacionais, ao lado do lendário Carapitanga, o trinta pés desenhado por nosso escritório de propriedade do consultor técnico da Revista Náutica Márcio Dottori, que em 1999 fizera a travessia Santos, Cape Town Santos em solitário. Outros barcos de cruzeiro famosos também foram convidados e o Fiu iria ficar lado a lado de ilustres participantes tendo em seu currículo apenas seis milhas náuticas navegadas.
O barco embora inacabado partiu rumo à Marina da Glória lá pelas nove da noite, escoltado pelo Seachegue, um Samoa 29 do amigo Ricardo Marques Carvalho, o maior responsável pelo bem sucedido lançamento do Fiu, graças à sua incansável ajuda nos últimos dias de preparação.
Foi uma forte emoção quando nosso motor Yanmar 18hp. zerinho começou a pulsar firme e silenciosamente após meses de instalado. Senti as pernas fraquejarem ligeiramente quando Ricardo avisou à distância: Agora o barco é todo seu!
Seguimos eu, Eileen ,Astrid minha filha, e o excitadíssimo Christian, nosso neto em direção à Marina. No escuro da noite, ainda sem luzes de navegação nos colocamos na esteira do Seachegue como se ele fosse a mamãe ganso.
Após uma hora de navegada tranqüila Ricardo teve a má sorte de se embrulhar numa longa rede de pesca colocada de uma forma absurda em pleno canal de acesso ao fundo da baía de Guanabara. Graças ao aviso que nos deu manobramos para não cairmos na mesma armadilha. Após um longo tempo de tentativa inútil de se livrar daquela arapuca, o jeito foi pegar uma faca afiada e abrir caminho, sempre com o Fiu na esteira. O resto da viagem foi sem incidentes mas somente após o encerramento do salão naquele dia conseguimos chegar na Marina, onde um" finger" estava reservado para nós. Só então, mais aliviados abrimos o champanhe reservado para aquela ocasião e na maior alegria compartilhamos com os amigos que ainda nos esperavam no píer dos cruzeiristas.
Naquela hora brotou de dentro de nós uma satisfação imensa. Mais de cinco anos de trabalho árduo sem férias nem feriados, sem sobrar dinheiro para qualquer tipo de diversão, sem mesmo até velejar, salvo um convite ou outro de algum amigo inaugurando um novo barco do escritório, agora se transformavam num resultado vitorioso. Ali estava o majestoso Fiu, todo bonito, novinho em folha com seu interior aconchegante pronto para receber a família e os amigos. E assim foi durante todo o tempo que durou o salão náutico. Diariamente recebíamos mais de cem visitas, quase todos querendo conhecer o interior daquele barco tão especial, com um jeitinho diferente de todos os outros.
O que mais ouvíamos então era um elogio à cozinha. As mulheres cujos maridos possuíam veleiros não perdoavam. Você tinha que Ter comprado um barco com esta cozinha e não aquela porcaria que está dentro de nossa cabine! Comentários neste teor ouvíamos aos montes. O camarote de popa também causava profunda impressão, assim como o banheiro, mas nada que se comparasse ao impacto causado pela cozinha. Ao final do salão Náutico a flotilha dos construtores do Multichine 28 tinha passado dos 58 para 61 membros da classe, e muitos outros nos informaram estarem interessados em possuir um destes barcos, inclusive com algumas propostas de compra, é claro que sempre respondidas com um sonoro não.