Clube do Multichine 28

Diário Número 13

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Quase não dá para acreditar. Após longos anos de trabalho finalmente nosso querido Multichine 28 Fiu coeçou a trazer o retorno pôr todo o nosso empenho. Desta vez os valores se inverteram. Foi ele quem trabalhou para nós, proporcionando uma viagem de férias com escalas deliciosas num dos litorais mais bonitos do mundo, entre as cidades do Rio de Janeiro e de Santos. Quem constrói o próprio barco tem que se divertir com este trabalho, pois aquele que apenas desejar encontrar um caminho mais barato para a realização do sonho de ter um veleiro, vai provavelmente se dar mal, pois a grande vantagem do barco feito por nós mesmos é sabermos exatamente qual é o nível de qualidade do serviço executado. Com o Fiu foi assim.
Chegando ao Fiorde de Mamanguá
Ao nos dedicarmos à construção com muito entusiasmo e vontade de fazer bem feito, agora pudemos avaliar a vantagem de ter agido desta forma.No Fiu tudo funciona super legal e além da manutenção normal que qualquer veleiro requer, quase não temos mais o que trabalhar nele. Foi com um pouquinho de emoção e ainda uma pontinha de ansiedade que partimos do nosso finger na Marina da Glória, Eileen e eu, mais nossa filha Astrid, seu marido Luis, o neto Christian, e o amigo Fábio Orsini, detentor do título de campeão mundial da classe Multichine 28, pois a única regata realizada até hoje entre barcos da classe, a Recife Fernando de Noronha do ano 2000, foi vencida por seu Tatuamunha, que acabara de ser lançado ao mar. Como ele me convidou para participar desta divertidíssima regata, foi muito agradável poder retribuir ao convite levando-o conosco nesta viagem. Lá pelas nove da noite de sexta feira 3 de maio partimos para realizar o primeiro teste importante com nosso Multichine e ao mesmo tempo gozar umas pequenas férias após anos consecutivos de trabalho sem descanso. A primeira milha navegada foi vencida à motor, mas já na saída da barra um terral bem fraquinho, permitiu-nos desligar o motor e começar a apreciar a tão sonhada sensação de paz que um veleiro impulsionado pelo vento pode proporcionar Vimos passar uma a uma todas as praias cariocas até que lá pela altura do Recreio dos Bandeirantes o vento foi ficando fraquinho até acabar completamente. A madrugada já ia cedendo lugar para um novo dia quando Christian teve sua primeira emoção forte da viagem. Uma baleia, a primeira de sua vida, surgiu ao nosso lado navegando em direção contrária. Sendo nossos rumos opostos, a tripulação chamada ao convés viu apenas mais uma vez a passageira que avançava para o norte. Deste momento em diante, quase sem vento, utilizamos o motor, para concluir a primeira perna da viagem. A medida que nos aproximávamos da ensea
Edson de Deus e a esposa nos visitam em Sitio Forte
da de Palmas, primeira escala na história de nosso Multichine 28, aumentava nossa sensação de alegria a bordo. A vista daquela enseada de águas verdes com praias de coqueiros e montanhas cobertas de floresta tropical dava para tirar o fôlego. Juntando a isto a emoção de após tantos anos de trabalho duro ver o Fiu chegar ao seu primeiro ancoradouro, dá para imaginar como estávamos emocionados. Christian era o mais excitado e queria ir imediatamente explorar aquele recanto repleto de surpresas. Logo colocamos o caíque na água e em duas rápidas viagens os seis tripulantes já estavam em terra prontos para aproveitar a natureza fantástica da Ilha Grande. Enquanto Fábio acertava o jantar na birosca do centro da enseada, nossa família tomava o caminho da trilha que leva à praia oceânica de Lopes Mendes. No passado já fizera esta mesma trilha, que na época era um estreito caminho para uma só pessoa. Agora ela já é quase uma estrada, e apesar de vermos muitas placas colocadas pelo Ibama, com advertências sobre a preservação do meio ambiente, sentimos que a natureza já está um pouco menos exuberante do que no passado. Chegando a Lopes Mendes, Eileen e eu ficamos sentados na areia assistindo a Astrid romper a rebentação de alto mar enquanto Luis e Christian exploravam os limites da praia.
As Montanhas de Mamanguá
Cansados mas felizes, antes que a noite tomasse conta da trilha , voltamos para Palmas já imaginando um delicioso jantar a beira mar regado a cerveja bem gelada. De fato, ao voltarmos a mesa já estava preparada, e enquanto saboreávamos as merecidas cervejas, pudemos viver uma sensação especial. Quando se sai de uma cidade barulhenta como o Rio de Janeiro e ancora-se numa enseada cercada de florestas onde nem eletricidade é fornecida, ver a noite cair em silêncio quase total apenas entrecortado pelo grito das aves, e o ruído longínquo dos grilos, faz a gente sentir o puro prazer que nos proporciona o retorno às origens. O jantar foi servido a luz de velas, com a mesa fincada na praia e nós sentados de frente para a enseada, vendo os últimos raios de luz irem se dissipando até que uma escuridão quase absoluta apagou completamente o Fiu de nossas vistas. Jantar mais agradável é difícil de imaginar, mas o cruzeiro estava só começando. Agora queríamos voltar para bordo e assistir as estrelas passarem no céu até que o sono nos empurrasse cabine abaixo na direção dos beliches. Este pernoite com seis pessoas a bordo do Fiu uma experiência interessante. Como o Multichine 28 tem teoricamente acomodações para apenas quatro adultos, foi necessário alguma criatividade para acomodar cinco adultos e uma criança. A solução foi a seguinte. Eileen, Astrid e o Christian dormiram na cabine de popa, tirando proveito de sua grande largura, principalmente na cabeceira. Eu e o Luis dormimos na dinete com nossas cabeças na direção de popa e o Fábio usou para si a outra cama de casal, ficando com a cabeça para a proa. De manhã ninguém reclamou de desconforto o que foi uma vitória.. Depois do café da manhã especial preparando com muito carinho por Eileen ajudada pela Astrid, seguimos para a enseada seguinte, a vila do Abraão onde nossa família iria se separar, pois só Eileen e eu estávamos de férias. Lá pelas quatro da tarde a família de nossa filha foi à bordo para pegar suas bagagens pois o Ferry Boat partia às cinco e ninguém podia imaginar perder a única barca para Mangaratiba. Quando a barca partiu utilizamos nossa buzina intensamente e acenamos frenéticamente nossos braços, embora devido a distância não pudéssemos distinguir nossa família. Mais tarde soubemos que eles nem estavam na barca. Uma escuna passára meia hora antes pegando passageiros para Mangaratiba e eles embarcaram nela. O barco ficou um pouco menos alegre por aquela noite e na manhã seguinte partimos para Sítio Forte, uma enseada tão linda quanto Palmas, situada no lado oeste da ilha. Como estávamos fora de temporada, quase não havia outros iates ancorados. Somente dois veleiros estavam próximos, um com a bandeira francesa e o outro o Aleluia, do cruzeirista Edson de Deus. Ele e sua esposa nos receberam em terra, fazendo as honras do lugar como se fossem veteranos moradores locais Recomendado por eles apreciamos um verdadeiro petisco de lulas fritas acompanhado por suco de tangerina. Sítio Forte nos encantou ainda mais do que Palmas. A água estava super limpa o que é sempre uma vantagem e em terra usávamos uma ducha geladinha que desaguava na praia, trazida por uma calha de bambu diretamente da mina encravada no morro. Não fosse nosso tempo meio contado poderíamos ficar ancorados ali mesmo por muito tempo, mas o Fiu ainda tinha que ver muita água passar sobre sua quilha. Na segunda noite recebemos o simpático casal do Aleluia para um jantar a bordo e na manhã seguinte partimos para Bracuhy. Este lugar, nosso velho conhecido desde as calendas do Maitairoa, é uma das marinas mais simpáticas que conheço. Lá fomos muito bem recebidos, tanto por nossos amigos do sindicato Ajuricaba, quanto por Hugo, o gerente da Marina, que nos convidou como visitantes de honra, oferecendo a estadia como cortesia.
Christian testando o caique em palmas
Em Angra reprovisionamos o barco e no resto do tempo fizemos uma forte confraternização com muitos amigos, às vezes a bordo do Fiu, outras em algum apartamento da península. De Bracuhy partimos para Mamanguá o fijord brasileiro,um recanto de uma beleza incrível.Lá as únicas coisas que fizemos foi nadar um pouquinho e apreciar o cenário digno de um filme dos mares do sul. Quando partimos para o Saco da Ribeira, em Ubatuba encontramos uma forte calmaria, o que nos obrigou a usar o motor quase sem trégua. Até então tivéramos dias muito bonitos mas o vento nunca fora lá grande coisa. No entanto nosso valente japonezinho trabalhou muito bem, confinado em sua caixa, todas as vezes que o solicitamos. Escolhemos uma bóia não ocupada dentre uma frota impressionante de veleiros e pelo telefone celular avisamos nosso amigo Conrado Becker de nossa chegada. Conrado é o grande construtor de Multichine 28 atualmente fazendo uma série de cinco unidades da classe, e com uma fila de espera de igual tamanho aguardando a conclusão da primeira leva. Em menos de meia hora Conrado já estava na praia bem em frente ao Fiu, tendo como companhia o dentista Marcos Gil que está concluíndo o seu Multichine 28 com o qual pretende viajar mundo afora. Marcos Gil estava absolutamente ansioso para pisar a bordo. Como trouxera com ele um mini caíque, destes para crianças brincarem em piscina, logo se encarapitou sobre seu brinquedo e remando com com uma pagaia dupla dirigiu-se para o Fiu. Quando tentou se firmar para subir a bordo, como era de se esperar, o caiaque virou, dando-lhe um completo banho. Marcos todo molhado subiu a bordo mas o caiaque, como um cavalinho ensinado, foi fazendo o caminho de volta até encalhar na praia. Logo depois Conrado chegava a bordo trazido pelo nosso caique, bem mais estável e seguro e então teve início uma verdadeira reunião de classe, com quatro membros do clube do Multichine 28 trocando idéias sobre detalhes de projeto, enquanto Eileen oferecia um lanche para os compenetrados Multichinistas. Marcos acima de tudo desejava mostrar sua obra prima e Conrado queria que eu visse sua impressionante serie de Multichines 28 em construção, além dos dois Samoas 33 em final de acabamento. Ao chegarmos em terra Marcos dirigiu-se para o seu carro, um fusquinha caindo aos pedaços, mais antigo do que a Brasília amarela, e sobre ele amarrou o minúsculo caiaque. Eu e Eileen entramos no carro do Conrado enquanto Fábio pegava uma carona com o Marcos. Ao chegar no local da construção Marcos freou o carro e o caiaque seguiu viagem indo aterrissar alguns metros a frente. Entramos no barco do Marcos para constatarmos mais uma vez como é sólido este modelo. O barco apoiado em seu carrinho não tomava conhecimento de nossa presença, mesmo quando íamos até o bico de proa. Com a habilidade peculiar aos dentistas Marcos usou sua criatividade em uma série de soluções originais na construção de armários e gavetas. Acho que ele irá ficar com uma casinha flutuante robusta e segura, e deverá ter um belo retorno por todo o seu empenho. Dali seguimos para o impressionante estaleiro do Conrado, situado num sítio encravado num vale coberto por mata atlântica. Confesso que deu para ficar emocionado ao ver tantos barcos de nosso escritório sendo construídos simultaneamente. No dia seguinte Conrado voltou a bordo para tirar várias dúvidas sobre detalhes do projeto e à noite fomos convidados por ele e pelo nosso cliente de Samoa 33, José Spinelli, para jantar fora e conversar um pouquinho mais sobre nossos barcos. Terminados os objetivos desta escala técnica restava-nos as duas últimas pernas da viagem, Ilha Bela e Santos.
Ficamos ao lado do Noctiluca em Ilha Bela
De Ubatuba a Ilha Bela é bem pertinho e dá para chegar no mesmo dia. Por isso acordamos cedo para botar o pé na estrada. Em boa hora entramos no canal e procuramos uma poita ao lado do Clube Pindá, onde sabíamos que um guardador de barcos chamado Zé Lua alugava poitas para visitantes. De fato ele nos arrumou um lugar mas o preço que cobrou me fez agradecer e ameaçar ir embora. Então ele abriu um sorriso e exclamou. – É só brincadeirinha! Para nossa alegria, ao nosso lado estava o Noctiluca, de Moacyr Cardoso de Mello, um dos primeiros Multichines 28 a ficarem prontos. O barco estava lindo, parecendo novinho em folha o que nos fez sentir força da classe já impressionados que estávamos pela flotilha de Ubatuba. Ilha Bela é um lugar muito bem cuidado com uma natureza comparável a da Ilha Grande e é sempre uma escala agradável. Os dois dias que lá passamos foram dos mais divertidos da viagem. Como o tempo estivera bom por todo o período do nosso cruzeiro, resolvemos partir logo para Santos antes que umafrente fria viesse dificultar o nosso avanço. De fato durante a noite pegamos a primeira frente, e como ela veio fraquinha, na manhã seguinte aproveitamos para fazer este último trecho. Entramos no canal de Santos à noite, preocupado com o tráfego de navios e embarcações de todos os tipos e chegamos à Marina de Serviços Supmar pedindo informação aos barcos que passavam vindo em direção contrária. A próxima frente fria chegou com grande intensidade. Por sorte já nos encontrávamos amarrados no pier flutuante da Marina. Desta forma, por nossa sorte, completamosa viagem de ida sem nunca ter pegado mau temponavegando. Na Supmar desejávamos acima de tudo visitar o veleiro Serenata, um Multichine 34 que está sendo magnificamente construído por José Oscar Bentini para os nossos clientes Katia e Marcelo Brasil. Fábio aproveitou a proximidade de casa para visitar seus pais em Campinas o que deixou o Fiu só para nós dois pela primeira vez na viagem. Nesses dias nossos cicerones foram Márcio Dottori diretor técnico da Revista Náutica e sua namorada Evanir. Eles nos convidaram para um delicioso jantar a bordo de seu famoso veleiro Carapitanga, estacionado na outra Marina de serviços, o Pier 26. No dia seguinte Evanir nos levou para um passeio turístico pelas praias de Guarujá, Santos e São Vicente.
O Fiu em Santos- Marina de serviços Supmar
Quando Fábio retornou de Campinas demos por encerradas nossas férias e nos preparamos para fazer o teste que estava faltando, ou seja, velejar direto de Santos ao Rio para adquirir um pouco mais de experiência em relação ao comportamento do Fiu. Deixamos a Marina na manhã de sábado 25 de maio, com um vento fraco de sudoeste. Quando passávamos pela Moela pelo través o vento já atingia a força de tempestade. O Fiu avançava com uma velocidade incrível com buja e grande até que se fez necessário dar uma forra de rizo. Quando passávamos por Alcatrazes o vento ficou tão forte que abaixamos a buja. Apenas com a vela grande na primeira forra velejávamos a mais de sete nós e no princípio da noite deixávamos a Ponta do Boi para traz. O Fiu continuou voando baixo, mas como o vento diminuiu um pouco, voltamos a içar a buja. Quando amanheceu já estávamos nos aproximando de Joatinga, e o sudoeste então já não soprava mais com a mesma intensidade, vindo em rajadas esporádicas. Quando estávamos na altura de Marambaia, religamos o motor e seguimos assim até nosso píer na Marina da Glória, tendo feito todo o percurso emtrinta e seis horas, um ótimo tempo se consideramos que usamos menos pano do que o barco aceitava, pois Eileen me pediu que fizéssemos a viagem bem tranquila. Quando encostamos em nosso finger, o barco parecia nunca ter saído dali, pois estava nas mesmas condições de quando partíramos. Se já considerava o modelo como um excelente veleiro, agora então é que estou convencido que o Multichine 28 é um campeão do cruzeiro a vela. Em primeiro lugar, o conforto que ele nos proporcionou pode ser comparado ao oferecido por um casco de trinta e cinco pés ou mais. Por outro lado, manobrar o Fiu é mais parecido com o que exige um veleiro de 20 pés. Todos os sistemas de bordo funcionaram perfeitamente e nunca entrou uma gota d’água a bordo, apesar de uma onda traiçoeira ter estourado contra o costado dando um grande banho no Fábio, que nesta horaestava no leme. Finalmente, o melhor de tudo é que graças a estes vinte dias maravilhosos que passamos a bordo do Fiu reconquistei minha tripulante. Agora Eileen está disposta a dar a volta ao mundo com o Fiu. Mas apenas com uma condição. Uma mudança de 180 graus no rumo. Assim sendo, como não houve interesse de qualquer empresa em patrocinar a viagem inicial, não tenho qualquer problema para inverter o itinerário. Em compensação ganhei a tripulante ideal para a viagem. E para a galera do clube do Multichine 28 só posso dizer que embora a aventura só esteja começando já posso afirmar que valeu a pena. Roberto Barros