Diário Número 14
Olá pessoal
No dia 7 de setembro o Fiu foi apanhado em cheio pela tempestade que causou
estragos na região sudeste.
Éramos seis pessoas a bordo, inclusive um casal de americanos amigos
da Astrid que queriam conhecer o paraíso tropical da Ilha Grande.
Estávamos a 11 milhas da enseada de Palmas quando o sudoeste desabou
impiedosamente sobre nós. Apesar de já termos abaixado a buja,
a vela grande estava toda em cima. O barco começou a navegar como se
fosse uma lancha adernando muito pouco e com o leme bastante leve para toda
aquela ventania. Como o vento era fortíssimo, pedi à Astrid e
ao Luis para abaixarem a vela grande e para isso folguei a escota.
A vela começou a panejar com tal força que acabou por arrancar
o traveller de seu suporte. Como o sistema da escota da vela grande possui dois
pontos fixos além do carrinho do traveller, este acidente não
representou maiores problemas para o funcionamento da vela, mas com aquele vento
tão intenso que dava mesmo para utilizar qualquer tipo de vela. Por isso
resolvemos correr com o tempo em árvore seca até a tempestade
amainar. As ondas começarem a crescer e estourar com violência,
às vezes atingindo o Fiu. Foi então que pudemos constatar como
nosso barco é bom de mar. Ele se comportou tão bem que nossos
convidados que descansavam no camarote de popa nem se deram conta de que tínhamos
enfrentado ventos com força de furacão. ( 126km/h segundo o jornal
O Globo )
Quanto ao problema com o traveller, ele foi uma boa lição que
se aplica como uma luva ao tema mais recente do nosso fórum sobre construção
relativo aos custos exagerados dos equipamentos de qualidade consagrada.
Eu namorava um suporte para traveller lindão fabricado pela Harken, com
uma articulação que se adapta a qualquer ângulo de teto
de cabine. Os outros MC28 que já estavam navegando optaram por esse equipamento.
Como estava no final da obra com as finanças arrasadas , trezentos dollars
que custavam o equipamento me pareceram uma fortuna. Então resolvi optar
por uma solução caseira, mais econômica. Fiz uma estrutura
de madeira e compensado naval revestida com fibra de vidro para receber o traveller.
Sobre ela colei uma madeira na qual estava fixado o traveller. Como esta peça
não ficou bem colada, e isto foi uma falha de construção,
o traveller acabou se soltando.
Como estamos sempre projetando, construindo e utilizando nossos barcos, o aprendizado
é constante. Ao contrário do que algumas pessoas dizem, freqüentemente
procuramos encontrar soluções mais econômicas para os itens
que representam custo elevado na construção. Nossa política
é bem lógica. O que representa tecnologia simples para o construtor
particular e que o resultado é garantido, oferecemos a opção
"faça você mesmo". O que representa risco de um mal resultado,
aconselhamos a aquisição do produto específico para a finalidade.
Vou dar dois exemplos. O dinghy Caravela para ser levado no convés do
MV28 e o leme de vento também para este barco que está na fase
final de testes para em seguida estar disponível aos construtores de
MC28. Imaginem quanto isto representa em economia.
Agora, quem quiser colaborar conosco testando por sua conta e risco novas soluções
para o barateamento dos custos da construção de nossos projetos
sempre será bem vindo. Mas para que a contribuição tenha
qualquer valor ela precisa de ser muito bem testada no oceano . Aos navegadores
virtuais eu gostaria de lembrar uma coisa. Quando a gente pega um ventão
como aquele do dia sete de setembro em que a vela grande com a escota presa
parecia mais com um muro de alvenaria do que um pano de dacron mais do que nunca
fica a certeza de nossa política de especificar apenas o que temos grande
confiança ainda é a melhor opção para os nossos
construtores.
Roberto "Cabinho" Barros
Deep water sailor