Diário Número 15
Quem
quiser fazer uma longa viagem com um pequeno veleiro, e desejar aumentar as
chances dela ser bem sucedida, tem que ter paciência e ser meticuloso.
Não é só dinheiro que conta, embora ele seja o fator primordial.
Mas se o dinheiro é curto, as virtudes da paciência e da meticulosidade
vem bem a calhar, pois muitas coisas nos preparativos requerem trabalho e não
custam caro.
Com o veleiro Fiu tem sido assim. Quando o inauguramos em abril do ano 2000,
esperávamos em outubro daquele ano estar com o barco preparado para dar
uma volta ao mundo de oeste para leste, de preferência patrocinada por
alguma empresa.
O dinheiro não só era curto como também o trabalho a realizar
era enorme. Já contamos em outros diários de bordo que nada deu
certo, nem o patrocínio apareceu, nem a viagem saiu dos sonhos. Mas o
trabalho foi sendo realizado e como morávamos à bordo, tudo começou
a tomar seus lugares e a funcionar como um relógio. As aquisições
foram acontecendo na medida do possível e o barco foi ficando muito bem
equipado.
Somente dois anos depois conseguimos realizar um teste razoável com o
Fiu, tendo navegado do Rio a Santos, ida e volta, em vinte dias de férias
memoráveis.
Como o barco se mostrou ser tudo aquilo e até muito mais do que esperávamos,
e todo o trabalho realizado tinha sido bem feito, o progresso continuou cumulativo
e cada vez mais o barco passou a nos inspirar confiança.No dia 7 de setembro
de 2002, numa viagem de recreio à Ilha Grande enfrentamos uma tempestade
com ventos de mais de sessenta nós de velocidade e só tivemos
uma avaria no traveller da vela grande, no mais o barco tendo se comportado
que nem um tanque de guerra. O problema do traveller foi definitivamente resolvido
ao retornarmos à Marina da Glória e o barco continuou a ser preparado
para uma viagem importante.
No
final de janeiro a família velejou para a Ilha Grande numas pequenas
férias que foram uma delícia. Como só tínhamos poucos
dias livres preferimos gastar nosso tempo exclusivamente na enseada de Palmas,
um dos lugares mais bonitos que conheço. Aproveitamos para fazer todas
as trilhas existentes naquela enseada e não paramos de nos divertir.
Armamos a rede no convés de proa sob o pau de spinnaker e fizemos um
jantar ao ar livre à luz de lanterna, usando o teto da cabine como mesa.
Ao som de boa música e saboreando um vinho italiano, tivemos uma noite
inesquecível na pacata enseada. Nestes dias pudemos confirmar mais uma
vez:- O Multichine 28 é um barco fantástico! Quatro pessoas praticamente
desapareceram dentro dele sem nunca termos nos sentido confinados. Tanto o camarote
de popa como a cama de casal de proa aprovaram plenamente e a sala foi intensamente
usada, tudo como se estivéssemos num barco bem maior do que um vinte
e oito pés.
Terminadas
as férias, só nos restava voltar para a luta. Minha filha Astrid
no sexto mês de gravidez e tendo que defender sua tese de doutorado em
hidrodinâmica poucos dias depois, enquanto Luis e eu com uma montanha
de serviços a realizar, todos nos precisávamos voltar no domingo
para que a nossa vida voltasse à rotina na segunda feira seguinte.Acordamos
cedo, e depois de um café da manhã caprixado, levantamos âncora
às oito da manha. Velejamos por umas quatro horas até acabar o
vento. O resto do percurso fizemos à motor. Dez horas depois estávamos
em nosso finger na Marina da Glória. Nossa média de mais de seis
nós a vela e a motor apenas serviu para confirmar mais uma vez a excelente
velocidade do Multichine 28.
De volta à rotina continuamos nos preparando. Compramos um gerador eólico,
um amigo nos presenteou com um possante painel solar, vamos adquirir um piloto
automático e um radar e o barco deverá subir para uma nova pintura
geral. Quando descer novamente ele estará mais bonito e bem equipado
do que nunca e está chegando a hora em que o Fiu se transformará
em Fui!.