Clube do Multichine 28

Diário Número 17

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Fiu

Antes de sair da Marina. A neta Juliana tomando banho na pia da cozinha.

Desta vez foi para valer. O Fiu vinha ameaçando realizar uma travessia de verdade desde que foi inaugurado, em Abril de 2000. Por vários motivos nada do que estava planejado acabou acontecendo. Sem patrocínio, a viagem de volta ao mundo de oeste para leste teve que ser esquecida. Um cruzeiro alternativo até a Europa foi preparado até o último detalhe. Minha esposa Eileen parecia estar bastante animada para realizar mais esta aventura como as muitas outras em que participamos juntos. Na hora H por motivos pessoais e por problemas de pele resolveu desistir. Posso parecer maluco, mas tive a impressão de ouvir os soluços abafados do guerreiro Fiu. Ora valente barquinho, não iremos lhe decepcionar, você terá uma nova chance.
A regata Recife Fernando de Noronha se aproximava. Taí uma bela oportunidade. Só a velejada do Rio a Recife serão 1100 milhas náuticas. Nada mau para um veleiro que o máximo que já percorrera de porto a porto foram as 200 milhas que separam Santos do Rio de Janeiro.
Desta vez, querido MC28, você irá sair da casca do ovo, pode crer.
Acho que não importasse o que dissesse , o Fiu não acreditava mais em seu comandante. Após abastecer o barco para uma longa esticada, saí com um outro membro do clube do MC28 que está concluindo seu barco e queria adquirir experiência para em breve poder comandá-lo.
Na manhã de 9 de agosto as duas famílias se reuniram no finger da Marina em uma calorosa despedida. Lágrimas dos olhos, beijos, nada faltou para dar emoção à partida. Achando que eslava na hora, liguei o motor e tirei o Fiu de sua vaga em uma nova tentativa de dar-lhe a oportunidade que tão silenciosamente implorava.
Era uma manhã borrascosa, com uma ressaca incrível causada por uma frente fria que passara pelo Rio de Janeiro na véspera. Um forte vento de leste criava carneirinhos dentro da baía de Guanabara. Nossa primeira missão era completar o tanque de diesel antes de rumarmos para a entrada da barra.
Na entrada da Marina da Glória existe um posto de abastecimento voltado para mar aberto que em dias de ressaca se torna praticamente inoperante devido ao rebojo violento que se forma em seu redor. Não querendo perder tempo de procurar outro posto rumei para a chata e me preparei para uma atracagem difícil devido à ressaca. Calculei para encostar lateralmente quando uma grande vaga nos jogou para o lado frontal do posto, e apesar de engrenar uma enérgica marcha a ré, uma pequena colisão foi inevitável. Uma nova onda já nos jogava contra umas sinistras pedras a poucos metros de distância. Aí o Fiu pôde mostrar um pouquinho de todas as suas astúcias. Engrenando a vante ele logo retomou o controle de leme, e praticamente pivotando sobre seu eixo saíamos daquela enrascada para tentarmos atracar por uma segunda vez.
Novamente a onda nos jogou na direção das pedras, mas agora mais prevenido não deixei a proa tocar na chata. A terceira tentativa já contei com a onda nos arremessando para o lado e consegui ficar a contrabordo com a face certa do posto. Mas não adiantou. O impacto contra o posto foi tão violento que o frentista nos aconselhou a ir embora. Restava-nos o posto do Iate Clube do Rio de Janeiro e para lá seguimos. O trecho que nos separava, usualmente um espelho, estava tão encrespado que parecia estarmos em alto mar. Nossas famílias nos observavam um tanto apreensivos após terem assistido as peripécias ocorridas no posto da Marina.
De repente observo uma espessa fumaça branca saindo pela descarga do motor. Cortei imediatamente antes que o alarme de temperatura disparasse, e fomos os dois para a proa jogar a âncora. Meu tripulante gentilmente ofereceu-se para mergulhar e verificar se a entrada d'água estava obstruída, pois naquela ressaca a poluição na superfície da água estava indescritível. Apesar de estarmos na enseada de Botafogo o barco balançava violentamente. Amarrado e munido de máscara e respirador, meu tripulante após alguns mergulhos descobriu a entrada d'água do motor e a causa de nosso problema. Partículas de isopor tinham obstruído o flange de entrada. Com uma chave de parafuso removeu os resíduos e voltou para bordo tilintando de frio naquela tarde tempestuosa de agosto. Mesmo com toda a poluição da baía, preferiu se enxugar e vestir uma roupa quente sem tirar a água suja e salgada do corpo.
Recolher a âncora foi tranquilo e dali seguimos rumo a bomba do Iate Clube. Lá encontramos uma situação quase tão ruim quanto a da primeira bomba. Apesar dos conselhos do operador para que não abastecêssemos, resolvemos arriscar e após uma complicada manobra estávamos amarrados ao cais. As pancadas que dávamos contra ele eram terríveis e nossas defensas pareciam simples brinquedos. Abastecemos sem perda de tempo e saímos logo em seguida. A próxima dificuldade foi jogar dinheiro do abastecimento. Enrolamos dentro de um saco o valor arredondado e passamos paralelo ao cais para arremessar ao frentista. Preocupado que o dinheiro caísse no mar meu tripulante só arremessou na terceira tentativa, quando passamos tão colados ao cais que pensei que íamos colidir novamente.
Agora, no entanto apesar dos nervos terem sido postos a prova, estávamos prontos para zarpar.
Seguimos à motor em direção à entrada da barra sentindo o vento cada vez mais forte e o mar mais agitado. Vencida a fortaleza da Laje subi a vela grande e preparei a buja para ser içada. Em pouco tempo estávamos com os panos em cima e o barco adernava com gosto. Antes que escurecesse dei uma forra de rizo na vela grande e o barco ficou um pouco mais comportado.
Com o barco adernando uns vinte graus naquele forte vento de leste em um mar desencontrado, logo meu companheiro começou a passar mal. Ele chegara de uma longa viagem internacional e mal tivera tempo de se recuperar da noite mal dormida. Como eu estava me sentindo bem disposto prolonguei meu quarto ao leme para deixá-lo recuperar um pouco.
O barco havia permanecido estacionado na marina por mais de um mês, e, na saída quando liguei o motor, o grafite do selo mecânico estava colado ao cilindro de aço inoxidável que roda com o eixo. Ao romper este contato, selos mecanicos deixam entrar água por algum tempo até que o grafite se alise novamente. Esta informação consta do manual de instalação e não tem nada grave. Mas não foi sem apreensão que constatamos que tinha bastante água sob o piso do paineiro do banheiro. Primeiro o meu tripulante imaginou que estávamos fazendo água pela privada. Fechei o registro de entrada e de saída da descarga e provei que este não era o caso. Em seguida fechei o registro de entrada d'água do motor e examinei o selo mecânico que não deixava pingar uma gota d'água sequer.
O próximo passo foi secar o banheiro quando antes pude verificar que a água vinha do compartimento do motor. A bomba automática ligava por alguns segundos e em seguida parava, toda a vez que a água passava pelo acionador automático. Mais tarde, raciocinando com calma, descobri que aquela água era a mesma, que por falta de uma válvula de retenção na linha, subia até o flange de saída e em seguida retomava para o ponto de captação. Como nenhuma água entrou mais no barco considerei este problema superado.
Mesmo com todo o vento que soprava, o piloto automático comportava-se muito bem, o que era super bem-vindo. Quando amanheceu já havíamos deixado quase cem milhas para trás. Neste ponto da viagem aconteceu uma grande transformação.
Você acredita que a apenas algumas dezenas de quilômetros de sua casa possa existir m lugar onde não existe poluição, nem crime, nem desigualdade sociais e onde a natureza é tão pura como nos primórdios da vida e onde as pessoas que lá habitam são a nossa imagem no espelho? Não acredita? Pois olha, este lugar existe. É a região pelágica. Lá o céu é diferente, trazendo constantemente cúmulos de pouca altura em tufos que estão sempre avançando com o vento. O mar tem uma coloração azul marinho tão intensa que parece ter sido colorido com anilina. Lá a vida selvagem não é perseguida pelo homem e dele não parece ter medo. A forte frente fria que soprara dois dias antes trouxera um ar polar tão frio que me surpreendi vendo albatrozes voando ao nosso redor. Uma baleia apareceu ao nosso lado fazendo-me meditar pôr que outros cruzeiristas não frequentam este lugar tão maravilhoso. Talvez ainda permaneça no subconsciente de muitos o mito do monstro marinho ou do precipício no oceano para além do horizonte visível.
Como já estava bastante cansado chamei meu tripulante para fazer guarda enquanto tentaria dormir um pouco.
Pensei que tudo iria bem daí em diante, mas não foi bem assim. Meu companheiro não melhorou e por isso resolvemos retornar. Acho que ouvi o Fiu proferindo um comentário rude em português, sua primeira língua, embora agora já esteja aprendendo outros idiomas, como inglês, espanhol, e até mesmo grego, do qual já sabe dizer pelo menos a palavra Kalimera, que quer dizer bom dia. Mas o Fiu é um companheiro eficiente. Contanto que não o tratemos muito mal ele sempre cumpre nossas ordens, e lá viemos nós de volta a uma velocidade incrível de mais de oito nós medida pelo G.P.S. Em trinta e três horas navegáramos 200 milhas sendo a metade contravento, mais de que excelente para um barquinho de cruzeiro. Atracamos mais uma vez em nosso finger, coisa que só esperava repetir dois meses depois, mas desta vez parece que pude observar um sorriso maroto na proa do Fiu.
Na manhã seguinte , ao aparecer no escritório, as pessoas pareciam estar vendo um fantasma. Mas a verdade era inexorável, mais uma partida abortada e o Fiu não chegou a lugar nenhum.
No entanto uma decisão estava tomada em minha cabeça. Iria partir de novo, nem que fosse sozinho. Aliás isto estava longe de ser necessário. Rafael, o estudante de engenharia naval que faz estágio em nosso escritório, um exímio velejador de Hobbie Cat 16, estava doido para ir comigo até Recife e isto era mais do que suficiente.
Comprei e instalei uma válvula de retenção para a bomba automática do compartimento do motor, voltei ao supermercado para adquirir frutas e legumes e logo o barco estava pronto para partir de novo. Nesse meio tempo, Erik o filho de meu amigo Roberto Ceppas que fizera lado a lado o Makai, barco gêmeo do Fiu, ofereceu-se para ir também.
Tripulação formada, partimos novamente às nove da matina do dia 26 de agosto , exatamente uma semana após a primeira tentativa.
As condições de tempo pareciam uma fotocópia da primeira largada. Na véspera uma forte frente fria passara pelo Rio de Janeiro e durante a noite aconteceu um dilúvio juntamente com fortes rajadas de vento. A manhã era cinza, ainda com chuva, mas o vento já rondara de sudoeste para sueste. Conseguimos passar entre as ilhas do Pai e da Mãe com a ajuda do motor, mas dali em diante já tínhamos o caminho livre. Avançávamos paralelos ao litoral com o Fiu fazendo excelente singradura. Quando anoiteceu já passáramos por Saquarema. O Farol de Cabo Frio nos guiava de perto. Nossa proa apontava para o canto de Maçambaba mas não desejava cambar pois a corrente era bem favorável. Quando nos aproximamos de Cabo Frio Eolo ouviu nossas preces e rondou o vento um pouquinho mais para o sul deixando-nos passar a uma milha por fora do focinho do cabo sem precisar dar uma cambada sequer. Pela segunda vez em uma semana passávamos por aquele meridiano, mas desta vez com sinal verde para seguir em frente. Ficamos abismados com a velocidade em que navegávamos. Em pleno contravento o G.P.S. chegava a indicar nove nós, uma performance difícil até para um Copa América atingir no contravento. Com certeza navegávamos em um rio correndo para leste. Abrindo os panos em pouco tempo deixávamos o Cabo São Tomé para trás, mas infelizmente o vento perdeu força e ficou bem de cara obrigando-nos a bordejar pela primeira vez na viagem. Em pouco tempo ficamos encalmados num lugar bastante incomodo, com grande tráfego de navios, supply-boats que se dirigiam para os campos de petróleo e traineiras de pesca. Helicópteros passavam sobre nós um após outro. O clarão das plataformas a boreste e as luzes dos navios nos faziam ficar de olho vivo. O jeito foi ligar o motor e seguir em frente. Umas duas horas depois de passar pelo Cabo de São Tomé, o Cabo Horn do Estado do Rio de Janeiro deparamo-nos com duas traineiras navegando por dentro em rumo paralelo ao nosso. Estava de quarto e decidi alterar o rumo para passar bem por fora delas. Parecia que estava tudo bem até que de repente uma delas mudou noventa graus de rumo e veio em nossa direção. Acelerei um pouco mais tentando ultrapassá-la pela proa mas o timoneiro deles ia alterando o rumo para nos interceptar. Acelerei ao máximo e chamei o Erik para uma conferência. Aquela traineira tinha que estar com más intenções. Como Erik tinha acabado de dormir, não ouviu meu chamado. Tentei de novo gritando mais alto e nada do Erik me ouvir. A traineira já estava a uns cinquenta metros da gente. Como não podia largar o leme dei um super berro e então apareceu a cabeça assustada do meu amigo saindo pela gaiuta.

- O que houve, algum problema? Perguntou atônito.
- Olha aí, aqueles caras estão com más intenções.
- Talvez tenhamos que aproveitar nossa maior mobilidade e entrar no costado deles. Nossa ferragem de âncora com 8 mm de espessura talvez possa causar algum estrago nestes filhos da mãe.
Fiu e Tatuamunha. Dois Multichines 28 lado a lado.

Aí já estávamos a uns vinte metros um do outro. Antes de qualquer atitude radical mudei o rumo mais uma vez tentando escapar deles. Nossas velocidades eram parecidas de modo que a situação permaneceu inalterada por alguns instantes. Como tinha que fazer alguma coisa mudei noventa graus de rumo e eles seguiram o seu. Crise contornada pudemos respirar aliviados. Hoje, com a cabeça fria, acho que apenas queriam nos enxotar de alguma rede estendida. De qualquer forma foi um belo susto. Pouco depois o leste se firmou permitindo que avançássemos para o norte em grande velocidade. Ao sul de Abrolhos encontramos várias baleias e alguns navios. Havíamos passado por uma plataforma de petróleo tão longe da costa que quase nãos acreditamos ser de prospecção de petróleo. Quando nossa vida estava começando a ficar ótima, uma frente fria de grande intensidade nos atingiu em cheio. Abaixamos a vela grande e corremos com o tempo a nove nós em média somente com a buja. Foram umas seis horas tão duras que não podíamos usar o piloto automático. Aí é que pudemos avaliar como o Antônio Helmans, como foi batizado nosso escravo cinzento, nos proporcionava uma boa vida. Quarto de leme com vento, chuva e mar agitado é dose para elefante.
Ao amanhecer o vento estava um pouco mais ameno e de direção sudoeste. Içamos a vela grande rizado na primeira forra e em vinte e quatro horas ultrapassávamos a latitude de Salvador.
Nessa altura do campeonato a vida a bordo ficou mais ou menos. Boa música, banhos na plataforma de popa, comida não lá grande coisa pois eu era o cozinheiro e ficar apreciando o Antônio Helmans escorregando na maionese era tudo o que pedíamos a Deus. Só faltou um douradinho para fazermos um sashimi. Aproveitamos a ocasião e colocamos um CD de forró para dar um clima de estarmos entrando no nordeste.
A grande surpresa foi a segunda frente fria que nos atingiu mais ou menos na latitude de Sergipe. O sudoeste forte obrigou-nos a correr novamente só de buja por várias horas, outra vez não podendo arriscar deixar o pepino para o Antônio. Amanheceu já no estado de Pernambuco. O G.P.S. indicava nossa chegada em Recife as seis da tarde o que era o pior possível. Embora o vento já não estivesse mais ameaçador continuamos só de buja para pisar no freio. Mas a velocidade se mantinha de cinco nós para cima. O jeito foi abaixar a buja e correr em árvore seca. Mas quem disse que o Fiu entendeu a nossa jogada. Ele queria mesmo era chegar antes que alguém mudasse de idéia e quisesse voltar dali. Sem vela nenhuma o danadinho ia avançando a três nós de modo que acabamos chegando às nove da noite, após nove dias e meio de viagem. Nada mal para um 28 pés percorrer as mil e cem milhas que separam o Rio de Recife. Na verdade navegamos uma distância maior do que isso e muitas vezes puxando o freio.
Entramos no porto assim que o dia clareou e rumamos para o Cabanga Iate Clube não sem antes dar duas encalhadinhas, pois a maré estava muito baixa. Lá chegando, sentimo-nos como quem chega na festa antes da dona da casa ter arrumado a sala. Mas logo o Fiu se entendeu com seu irmão gêmeo, o Tatuamunha, e agora os dois Multichines 28 estão lado a lado, trocando experiências e contando vantagens um para o outro.
Da minha parte tenho que agradecer aos excelentes tripulantes Erik e Rafael, ao Antônio Helmans e principalmente ao grande Fiu, que afinal de contas foi quem nos trouxe sãos e salvos até aqui.


Roberto Barros yacht Design