Clube do Multichine 28

Diário Número 18

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Multichine 28 Fiu na Ilha de Fernando de Noronha.
O Multichine 28 Fiu saíra do Rio de Janeiro numa viagem sem escalas até a cidade de Recife com o propósito de participar da Regata Recife - Fernando de Noronha. O grande objetivo do teste seria aferir sua performance comparando- a com a excelente atuação de outro MC28, o Tatuamunha, que na regata de 1999 fez o percurso de 300 milhas em 48 horas. Como o MC28 é um barco absolutamente de cruzeiro, esta excelente singradura era somente um bônus extra para um barco de seu porte com todo o conforto e robustez que lhe são característicos.
Como o Fiu nunca entrara em regatas anteriormente, ele não possuía qualquer tipo de certificado de medição. Por esse motivo resolvi medi-lo numa regra simplificada muito popular hoje em dia, a R.G.S. Feita a medição, para meu horror, verifiquei que para a regra ele é visto como uma super máquina de regata, e apesar de estarmos inscritos na classe E, o valor do rating correspondia aos veleiros da classe C. Mas isto não tinha grande importância.
O primeiro Chopp gelado depois da regata, é para não ser esquecido.
O que desejávamos saber era em que tempo real cruzaríamos a linha da chegada, levando-se em conta que éramos um dos menores barcos e um dos dois únicos de seu porte que tinham vindo de tão longe para participar da regata. O outro era o Mente Sã um catamarã de 28 pés que também fica estacionado na Marina da Glória, Rio de Janeiro. Como chegamos com muita antecedência e os dois tripulantes que ajudaram a levar o barco até Recife retornaram para seus afazeres, tive bastante tempo para preparar o barco e ainda curtir a atmosfera de festa que precede esta regata, a mais popular do país. Mais próximo da partida chegaram os dois novos tripulantes, Luis Cláudio da Silva, um cliente nosso que na década passada construíra um Samoa 30 na cidade de Melbourne, Austrália, e Eduardo Santana, um engenheiro naval que no tempo de estudante estagiou em nosso escritório.
A comissão de regata estabeleceu que todos os barcos, na véspera da regata, deveriam passar pelo Ponto Zero , a área central da cidade de Recife, uma praça em pleno porto, para que o público pudesse conhecer a flotilha que no dia seguinte iria partir para Fernando de Noronha. Quando saímos de nossa vaga em direção ao porto, antes de deixar a piscina do clube, um cabo de âncora de uma lancha enrolou no hélice do Fiu e grimpou o motor.
Roberto Barros e amigos apreciando este maravilhoso cenário.
Graças a chegada providencial do meu amigo Breno Faria Lima, dono do MC28 Utopya, um mergulhador avisado por ele veio nos ajudar a sair daquela enrascada. Felizmente não houve prejuízo para o motor e saímos da piscina sem outros problemas. Aborrecido com o incidente, resolvi não passar pelo Ponto Zero para o desfile festivo e por isso , mais tarde, seríamos multados em trinta minutos no tempo real da regata, numa criação da comissão de regata, tempo real corrigido. Ancoramos em pleno canal e passamos uma noite agradável, com o barco filando o vento, e consequentemente muito mais fresquinho do que na vaga ocupada no Cabanga, ouvindo às bandas de frevo e o fogetório imprescindível nas festas nordestinas.
Na manhã seguinte preparamo-nos para a largada, sentindo-nos como se o Fiu fosse um pônei, cercado por dezenas de velozes cavalos árabes. A partida das classes D e E seria às 12:00 horas, e uma hora antes já estávamos com a vela grande em cima fazendo zig-zags entre barcos de todas as classes. Quando já havíamos tomado uma posição para a largada, um veleiro de mais de cinqüenta pés se interpôs ao nosso caminho e tivemos que fazer uma volta de 360 graus para evitar uma colisão. Ao ouvirmos o tiro de partida, éramos o último barco das nossas classes. Comentei com meus tripulantes que ainda faltavam trezentas milhas e que aquela saída pouco brilhante não tinha a menor importância.
Ao nos livrarmos do barco de aço procurei o lado de barlavento da flotilha, bem próximo ao quebra-mar e que teoricamente traria uma sombra para nossas velas. Qual não foi nosso espanto quando nos primeiros mil metros já passáramos uns dez barcos à nossa frente. Quando saímos do porto ainda restavam uns cinco nos mostrando suas popas. Nas duas milhas seguintes passamos mais três adversários e apenas dois deles se distanciaram de nós por serem sem dúvida mais velozes.
Eduardo santana, descendo a duna que separa esta pequena lagoa do mar.

Quando as classe maiores partiram, os mais velozes avançavam sobre nós como uma manada de búfalos e se distanciaram à nossa frente. Por outro lado os barcos de nossa classe foram ficando para trás assim como os da classe imediatamente acima da nossa. Ouvíamos pelo VHF as posições dos nossos concorrentes diretos e cada vez ficávamos mais animados. Apesar da disposição da tripulação em se empenhar ao máximo, o valente Fiu praticamente não nos pedia qualquer esforço extra. Ele avançava como um maluquinho, gostando demais quando o vento aumentava. Nestas horas ouvíamos pelo VHF os problemas dos outros, tais como lemes quebrados em quatro participantes, mastreações danificadas em vários outros e outras avarias. No Fiu parecia que estávamos num passeio. Às vezes a velocidade ultrapassava os oito nós mas o barco com um vento de 28 nós pouco adernava. Nossa vida a bordo era revezarmo-nos no leme, dormir quatro horas a cada duas de quarto e comer sanduíches, bombons e tomar sucos de frutas. Uma vez navegamos cercados por centenas de golfinhos que faziam exibição de saltos sincronizados juntinho ao nosso costado. Às dez horas e cinquenta e um minutos do segundo dia cruzamos a linha de chegada, tendo sido o qüinquagésimo sétimo barco a fazer isso num total de 102 inscritos.
Fernado de Noronha, uma paisagem inesquecivel
Com a meia hora de penalidade que nos impuseram, passamos para um tempo real corrigido, uma invenção deles, para quarenta e sete horas e vinte e um minutos. Tínhamos chegado mais de vinte minutos na frente do segundo barco de nossa classe a cruzar a linha, o Velamar 29 Marujo, um veleiro tipicamente regateiro que nunca poderia imaginar chegar atrás de nós e o terceiro barco da classe a cruzar a linha , um Delta 26, chegou algumas horas atrás de nós. Dos barcos da classe imediatamente acima da nossa, a RGS. somente um chegou à nossa frente. A única expressão que me lembrei, foi dizer à moda nordestina - eta barquinho arretado.
Estava terminado o desafio. O Fiu agora era o recordista da classe MC28 tendo batido o record anterior com uma folga de uma hora e nove minutos. Restava-nos comemorar com um chope gelado no primeiro bar que encontrassemos, nosso primeiro desejo a ser realizado ao descermos na ilha.
Na festa da entrega de prêmios pedi à comissão de regatas que me desse uma declaração de que o Fiu fizera o percurso em

quarenta e seis horas e cinquenta e um minutos, e este documento para mim é mais importante do que o troféu que recebemos como terceiros colocados no tempo corrigido na classe E. Afinal uma média de velocidade de 6.45 nós por trezentas milhas é uma prova de que o Multichine 28 além de ser um super barco de cruzeiro também veleja bem para caramba.
Depois de três dias paradisíacos estava na hora voltar para casa. Nossos tripulantes participaram da velejada de volta até Recife, a qual fizemos em cinquenta e duas horas, na maior moleza, e de lá seguiram de volta para os seus afazeres.
Conhecendo agora o Fiu como a um irmão, resolvi realizar o último teste importante para a galera do clube dos construtores do Multichine 28. Fazer a volta de Recife ao Rio de Janeiro em solitário. Mas este relato é o próximo diário de bordo.

Fiu e Sabaderar, dois dos seis barcos de nossos projetos que participaram da Regata.
Momento mágico quando a ilha surge de dentro da névoa.
Praia do Sancho.
Praia do Cachorro.
Fernando de Noronha, um paraíso tropical.
Happy Hour no Museu dos tubarões. Canja do sul africano do veleiro Dragonfly.


Roberto Barros yacht Design