Clube do Multichine 28

Diário Número 19

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Um peixe voador vai ser preparado para o café da manhã.
O mais importante teste da viagem a Fernando de Noronha foi a volta em solitário de Recife ao Rio de Janeiro. O MC28 ainda não havia sido testado em viagens muito longas até que realizássemos a travessia do Rio de Janeiro a Recife. A regata para Fernando de Noronha já havia sido feita pelo Utopya e pelo Tatuamunha, e estes dois barcos já tinham navegado de Recife até Camamu, ida e volta, mas um trecho mais prolongado de oceano ainda estava para ser testado. A travessia de 1100 milhas do Rio ao Recife completada em nove dias e meio foi uma surpresa agradável, tanto pelo desempenho quanto pelo conforto que o Fiu proporcionou aos três tripulantes durante todo o percurso. Agora o que ia ser testado era se ele levaria com facilidade apenas um tripulante por aquele mesmo percurso no sentido inverso. Para os construtores de barcos da classe, mesmo que não desejem realizar uma longa navegação solitária, o grau de capacidade do barco navegar com tripulação reduzida é muito importante de ser conhecido. Pensando em tudo isso decidi fazer a experiência. Como tempo é que não faltava, escrevi um diário contando a viagem em detalhes. O relato a seguir é um condensado deste diário.
Primeiro dia - Deixei o Cabanga Iate Clube às 08:30 do dia 29 de setembro para tentar realizar uma das mais interessantes aventuras de minha vida. Velejar em solitário com o meu Multichine 28 Fiu, da cidade de Recife até o Rio de Janeiro, num percurso de mais de 1100 milhas náuticas de pleno oceano. Na saída do porto icei a vela grande a a buja e senti a primeira emoção forte de ver o barco velejar a mais de seis nós com somente eu como tripulante. Ainda um pouco receoso do que estava fazendo, resolvi rizar a vela mestra apesar do vento fraco. De saída não encontrei tráfego, o que me tranqüilizou bastante naquela primeira tarde.
Ao anoitecer começaram a aparecer inúmeros barcos de pesca. Como fui ficando cansado, teria que tentar dormir pela primeira vez. Como o Fiu até então sempre navegara muito bem monitorado, precisava quebrar um tabu comigo mesmo. Armei o despertador para me acordar em vinte minutos e ensaiei o primeiro cochilo. Quando acordei tive que me livrar de alguns pesqueiros e voltei para dormir de novo. Na segunda tentativa armei o despertador para meia hora. Nesta segunda vez também acordei sem ouvir um estampido de uma colisão, e daí em diante comecei a ganhar confiança.
Segundo dia - Fizemos 96 milhas nas primeiras 24 horas. Poderia ter feito muito mais não fosse o excesso de cautela. No primeiro dia num processo de desintoxicação antecipada, só comi frutas, o que não deu trabalho e ainda evitou que perdesse algumas por apodrecimento. Minha primeira refeição quente foi um fracasso. O prato era atum com espinafre refogado com tomate e cebola. Comi apenas porque se jogasse fora teria que cozinhar de novo. O pior é que sobrou para o jantar.
Neste segundo dia experimentei algumas sensações estranhas. Parecia que havia pessoas a bordo. Quando estava dormindo, achava que alguém estava no cockpit e vice versa. Quando o despertador tocava sempre acordava interrompendo sonhos deliciosos em alguns deles até me sentia levitando. Era um estado letárgico em que o subconsciente aflorava de uma forma agradável, o que ajudava a me deixar tranqüilo. As vezes imaginava que o piloto automático me avisaria se uma embarcação viesse em rumo de colisão. O Fiu ia arando o mar com uma determinação invejável, e meus problemas eram quase inexistentes. Neste segundo dia senti-me adaptado à condição de navegador solitário. Dali para frente minha auto confiança já tinha voltado ao normal.
O piloto automático é o mais importante tripulante a bordo. Ele conduziu o barco por mais de três mil milhas sem reclamar. Note a capa de acetato que protegeu o equipamento da umidade.

Terceiro dia - Já navegávamos com todo o pano mesmo quando o vento aumentava. Começaram a aparecer navios, um deles só detectei quando já estava pelo través. Se viesse pela proa, já era.
O café da manhã foi um autêntico porridge britânico, com frutas secas, pão, manteiga e queijo. Nada má a vida de navegador solitário. Tivemos uma pequena avaria com a capa da vela grande. As talas que lhe dão rigidez furaram suas bolsas e começaram a sair o que me obrigou a retirá-la da sua posição e guardá-la na cabine. Ficamos sem Lazy Jacks o que significava que eu teria que ser menos preguiçoso sem o indolente Jack para ajudar.
Quarto dia - Já deixáramos 400 milhas para trás. Minha leitura a bordo não era das mais sugestivas para um navegador solitário - A verdadeira história de Robinson Crusoe, a saga do marinheiro escocês Alexander Selkirk, que passou quatro anos e meio abandonado na ilha oceânica de Juan Fernandes, seiscentas milhas ao largo do litoral chileno. Sentia-me totalmente adaptado à minha vida solitária. O barco navegara sem criar problemas, considerava-me bem protegido quando sentava no cockpit, uma das boas coisas que o Fiu oferece, e acima de tudo estava gostando demais da experiência. O bom tempo e o vento de leste contribuíam bastante para esse socego.
Quinto dia - O vento diminuiu bastante. Quase calmaria. Isto devia significar mudanças. Um pequeno imprevisto foi constatar que quando o gerador eólico estava rodando não conseguia ouvir o radinho de ondas curtas pois o dínamo causava uma forte interferência. O segundo livro que peguei para ler era menos animador ainda - Resgate no Pacífico - se tivesse que passar por tudo aquilo sozinho estaria em maus lençóis.
No fim da tarde topamos com uma frente fria que nos obrigou a velejar contra o vento pela primeira vez na viagem. Depois de uma hora o vento rondou para sueste acompanhado de um dilúvio. Não tive outra alternativa senão colocar o impermeável e levar o barco na mão até as coisas se estabilizarem um pouco mais. Cruzamos então com o segundo navio da viagem. Não estivesse no leme as coisas poderiam ter sido mais complicadas. Rizei a grande na primeira forra e abaixei a vela de proa esperando o vento abrandar. A esta altura estava fazendo as manobras necessárias com uma rapidez incrível e era capaz de sentir uma comunicação quase telepática com o Fiu, como se ele fosse um ser animado.
O problema que enfrentei a seguir foi um tráfego intenso de navios. Perguntei a um deles se nos captava na tela do radar, o que foiconfirmado. Creio que o mastro avantajado mais o pórtico de popa contribuíam para isso.
Sexto dia - Netuno nos mandou um presente. Um rechonchudo peixe voador, devidamente consumido com batatas coradas e cebola refogada. Frito na manteiga e com pimenta para realçar o gosto, estava delicioso.
O tempo mudou bastante. O mar ficou cinzento, o vento fortíssimo e o piloto automático tinha dificuldades de manter o rumo. Era uma nova frente fria que nos atingiu. O vento chegou a um ponto que não deixou mais o piloto levar o barco. Abaixei as velas e entrei em capa pôr algumas horas. Desta forma pude descansar um pouco.
Sétimo dia - Faltavam umas 300 milhas para voltar para casa. O vento voltou para nordeste e não tivemos tráfego à noite. Maravilha. Arrisquei um pouco e em vista do sossego da noite, regulei o despertador para me chamar a cada hora redonda. O medo ia diminuindo e a gente foi ficando abusada. O Interior do barco estava absolutamente arrumado e tudo funcionava perfeitamente a bordo. De uma certa forma vou sentir falta desta vida quando chegar. Já me acostumei com os ruídos de bordo. O melhor deles é o doce chiado da água passando pelo casco. O pior é o silvo incansável da sogra, o gerador eólico que quando o vento se firma parece uma cascavel enfurecida.
Voltando de Recife, as plataformas estavam no caminho.

Um ou outro ruído sincopado com o balanço do barco faziam parte do cotidiano, e já me acostumara com isso. Por outro lado sintia muitas saudades da família, em especial de minha netinha que não via há dois meses e da minha esposa Eileen. Se ela pudesse estar comigo, talvez nem quisesse estar de volta.
Oitavo dia - À noite tivemos um mau tempo que não me deixou dormir. O sudoeste mais forte da viagem. Para complicar ainda mais as coisas o tráfego de navios era intenso. Resumo da ópera: praticamente passei a noite em claro. De dia o vento diminuiu e rondou para nordeste. Hora de aproveitar. À tarde passamos por inúmeras plataformas de petróleo que continuaram desfilando noite adentro.
Nono dia - Deixamos a bacia de Campos para trás. Agora velejamos rumo oeste, direto para casa. Amanhecemos próximos a Cabo Frio. Tiramos alguns finos de traineiras rebocando rede, mas agora já sentia-me como um autêntico navegador solitário e estas dificuldades pouco me assustaram.
Último dia - Ao chegar em Cabo Frio liguei o motor e deixei o barco avançar com motor e velas a toda a velocidade. Nesta altura não iria mais dormir até chegar. Avançávamos a sete nós passando pelo Cabo como um foguete. Quando estávamos em Saquarema a corrente inverteu e a velocidade caiu bastante. Mas ali já estava em nosso quintal. Se viéramos bem até esse ponto, o resto era questão de paciência apenas.
Às 20:30 do dia 8 de outubro entramos na barra, fazendo os mesmos nove dias e meio da ida, só que sem ajuda de tripulantes. Era o teste que faltava. Mais uma vez o Fiu mostrou- se um barco excepcional, capaz de andar bem numa regata oceânica, levar seus tripulantes com conforto e segurança e voltar pra casa trazendo consigo apenas seu dono, sempre funcionando como um reloginho. Creio que os nossos amigos que estão construindo ou já nevegam com seus MC28 irão ficar contentes com esse relato. Para todos desejo a mesma boa sorte que até aqui o Fiu nos proporcionou.
Algumas informações adicionais:
A mesa do Fiu preparada para o Happy Hour.

1 - O mais importante equipamento a bordo foi o piloto automático. Um Autohelm 2000, ele foi capaz de levar o barco em praticamente todas as condições de mar exceto quando o vento ultrapassava os 40 nós.
2 - Outro fator relevante foi o uso da luz de navegação no topo do mastro durante todas as noites. Sem ela acesa, as chances de uma colisão com um navio aumentariam de uma forma assustadora.
3 - Com o piloto e a luz ligada, exceto se o vento não estivesse perfeito para o gerador, perdíamos voltagem no sistema elétrico. Isto impediu que ligasse o radar na maior parte do tempo, o que foi uma pena. Ao ligar o motor em Cabo Frio, coloquei o radar funcionando com a função de guarda e toda vez que uma embarcação entrava na faixa selecionada soava um alarme que me facilitava o monitoramento de uma forma incrível.
4 - Todos os outros sistemas de bordo funcionaram perfeitamente. Em três mil milhas navegadas consumimos 60 litros de óleo diesel. Cheguei de volta ao Rio com os tanques d'água praticamente cheios, embora só tivesse abastecido de água antes da partida de Recife para Fernando de Noronha. Outro ponto em que nossa classe é campeã.
5 - O conforto da cabine é proverbial, e sozinho, parecia que estava num apartamento.
6 - Os tanques com grande capacidade alem de oferecerem uma autonomia fora do comum, ainda ajudam na estabilidade , o que somado a uma área vélica moderada, torna o MC 28 um barco com uma estabilidade excepcional, o que o torna um veleiro bem confortável pôr esse motivo. Isto foi muito importante na regata, pois enquanto todo mundo precisava reduzir área vélica, o Fiu evoluía que nem um foguete com todo o pano. Na viagem em solitário, esta virtude foi muito apreciada, pois as manobras eram bem fáceis de serem realizadas com o barco sempre pouco adernado.
Agora espero que outros membros da comunidade dos construtores de MC 28 realizem seus próprios testes e estaremos prontos para divulgá-los e desta forma irmos contribuindo para conhecer cada vez melhor este fantástico veleiro.


Roberto Barros yacht Design