Clube do Multichine 28

Diário Número 20

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

        Era lá pelos idos da década de setenta, mais precisamente 1978. Astrid, ainda uma garotinha, me pediu para que a levasse no laser de meu amigo Bento Ribeiro Dantas até aquele barco novinho em folha que havíamos desenhado e que o Bento construíra no quintal de sua casa, em Búzios.
Samoa 29 Taai-Fung II

Tratava-se do reluzente Brenda, o primeiro Samoa 29 a navegar, o barco que me deixou mais orgulhoso até aquele dia. Apesar da maior parte do trabalho ter sido feita pôr mím, Astrid já me ajudava com gosto e Eileen colaborava como podia sempre dando sugestões inteligentes de como melhorar o arranjo interno, principalmente no setor da cozinha, sua especialidade.
O Brenda estava ancorado a uns cem metros da praia, e minha emoção era tão forte de vê-lo flutuando, que não fosse o laser estar disponível, teria ido a nado para bordo, apenas para sentir a sensação de subir no maior barco que até então saíra de nossa prancheta. A felicidade do Bento com seu novo brinquedo deixava minha alma leve. Naquela noite de sábado foi difícil dormir tamanha a ansiedade pela velejada que daríamos no dia seguinte.
Búzios é um recanto de ventos fortes e ondas curtas e todos estávamos apreensivos se aquele casco tão promissor iria corresponder às fortes expectativas de todos nós. Mas o melhor ainda estava por vir. Logo que saímos do remanso do ancoradouro o Samoa 29 mostrava que vencia as ondas como um golfinho e que aquele mar duro de ondas cavadas pouco significava para ele. A boa fama do modelo logo se espalhou, graças ao seu bom desempenho, tanto nas raias das regatas da época como nas travessias entre Búzios e o Rio de Janeiro.
Samoa 29 Taranis

Não foi por acaso que aquele desenho se tornou uma das classes mais bem sucedidas da história da vela brasileira com quase uma centena de unidades construídas, no Brasil e até no exterior. O resultado deste sucesso pode ser medido pelos tantos veleiros famosos como o Maracatu, o Áquila, e o Taai-Fung, que subiram a costa brasileira, o Hipocampus que partiu de Salvador para uma volta ao mundo e o mais famoso de todos, o Jornal que realizou a primeira volta ao mundo de um veleiro projetado no Brasil, e todos os outros que por onde navegam mostram todas as suas qualidades. Não é com menos orgulho que vejo agora em 2004 dois dos mais ilustres representantes da flotilha dos Samoa 29, o Maracatú de Mara Blumer e Hélio Viana e o Jornal dos nossos herois Wilmar e Gina serem convidados como veleiros de cruzeiro V.I.P. para a festa do Rio Boat Show.
O tempo passou muito rápido. Astrid tornou-se uma engenheira naval e casou-se com um colega de faculdade, Luis Gouveia e viemos trabalhar juntos, como aliás já fazíamos há tanto tempo.
Estávamos então em 1992, tempos difíceis de triste memória, quando a Dona Zélia proibia os brasileiros de usarem seu próprio dinheiro.
O escritório Roberto Barros Yacht Design que experimentara sucessos importantes com vários projetos, tais como o Samoa 35, o Multichine 37, o Paratii do Amyr Klink desenhado em parceria com Gabriel Dias, e o legendário Cabo Horn 35, entre outros, agora precisava de um verdadeiro milagre que trouxesse de volta o entusiasmo das pessoas para construírem seus barcos de cruzeiro em meio a tamanha crise econômica.
Foi em 1989, durante à viagem do Maitairoa, um dos meus mais queridos veleiros, até as Ilhas Falklands, que troquei idéias com meu amigo e tripulante Roberto Alan Fuchs, sobre este barco milagroso. Ele deveria ter a popa plana e vertical para cortar custos, o convés deveria ser do tipo "flush deck", o mais simples de ser construído, e só deveria ter uma pequena cabine toda enjanelada a ré do mastro, num visual que naquela data ainda era moderníssimo.
Samoa 29 Maracatu
Aquelas idéias embrionárias transformaram-se em um rascunho e em 1992 foi transformado em projeto de estoque pela Astrid e pelo Luis Gouveia, com minha participação direta, o maior fenômeno da história de nosso escritório, o Multichine 28. Não fosse o estrondoso sucesso daquele projeto, talvez não tivéssemos sobrevivido a dura crise econômica pela qual passava o país. Desta vez vale um agradecimento ao nosso amigo Manolo, que ao inaugurar o primeiro barco da classe, o Sabadear, me entregou uma chave do barco para mostra-lo a possíveis interessados. Era então quase infalível. Cada pessoa que eu levava a bordo adquiria o projeto sonhado com possuir um veleiro como aquele. Dois deles eram eu mesmo, ( que coincidência, heim!) e um amigo, Roberto Ceppas. Decidimos que construiríamos juntos dois MC28 absolutamente idênticos sem que se soubesse quem ficaria com qual barco até o final da obra. Estes barcos são o Makai e o Fiu, duas referências na classe pelo cuidado empregado na construção.
Em 2000 quando o Fiu foi inaugurado após cinco anos de trabalho árduo, o Rio Boat Show daquele ano convidou-nos para participar do píer dos cruzeiristas famosos, não pelo que já tivesse navegado, que então eram rigorosamente sete milhas, mas pelo ambicioso plano meu e da Eileen de navegarmos com ele numa volta ao mundo de oeste para leste, façanha então realizada por apenas um brasileiro, Amyr Klink, a bordo de seu valente Paratii.
Pensava então que seria fácil obter o patrocínio necessário para custear a viagem, o que infelizmente não aconteceu. Algumas empresas nos ofereceram excelentes descontos nos equipamentos que utilizamos, como a Nautos, com as ferragens, a Farol com o mastreação e a Radiomar com os aparelhos eletrônicos, ente outros, e apesar da grande ajuda de amigos como Alexandre Haddad com seu programa sobre náutica, Mar Brasil, numa TV a cabos, nenhum financiamento conseguimos para realizar a viagem.
O tempo continuou passando rápido como um raio. Eileen e eu começamos a sentir o peso da idade. O excesso de exposição ao sol em todos estes anos de aventuras no mar acabaram com a pele dela e eu perdi um pouco da energia que nos ajudou a atingir a Polinésia Francesa tendo saído do Rio de Janeiro a bordo de um veleiro de 7,50 m de comprimento, desprovido de motor e estreito como uma faca. Em maio de 2003 nos preparamos para uma viagem à Europa com o Fiu, mas tivemos que desistir por causa dos problemas de pele de minha esposa.
Multichine 28 Fiu em Fernando de Noronha
Para não perder os preparativos da planejada viagem à Europa, levei o Fiu até o Nordeste para participar da Regata de Fernando de Noronha. Nesta regata meu barco mostrou quanto é veloz, tendo feito o percurso de 300 milhas em 46 horas e 51 minutos, o que significou 154 milhas por dia em média, nada mal para um autêntico barco de cruzeiro. De volta a Recife decidi realizar mais um teste que iria demonstrar como o MC28 é um barco capaz de surpreender muita gente. Velejei em solit ário até o Rio de Janeiro, numa viagem de 1200 milhas sem escala, passando por fora das plataformas de Campos. Esta foi uma experiência inédita para mim, pois nunca fizera antes uma longa travessia velejando sem tripulação. Senti um imenso orgulho do meu veleiro, que me trouxe com a maior facilidade em nove dias e meio, o mesmo tempo que levei na ida, com mais dois tripulantes a bordo. Fiquei feliz quando meu amigo, o jornalista Márcio Dottori, responsável técnico pela revista Náutica, uma das mais importantes revistas especializadas no país, convidou o Fiu para participar do grupo de cruzeiristas convidados pelo Rio Boat Show. Aliás o próprio Márcio será um ilustre participante deste seleto grupo de cruzeiristas brasileiros, com o seu Carapitanga, o Aladim 30 desenhado por nosso escritório e com o qual realizou a proeza de navegar em solitário de Santos ida e volta à África do Sul, viagem esta descrita no livro Aventuras no Atlântico Sul, um dos clássicos de aventuras náuticas realizadas por brasileiros.
Com um número tão expressivo de nossos projetos participando desta festa, considero um prêmio ver nossos veleiros resultarem em barcos de cruzeiro tão bem sucedidos e isto ser reconhecido pelo pessoal que organiza o Rio Boat Show. Apesar dos anos, Eileen e eu ainda temos nossos sonhos secretos, e o Fiu é a nossa esperança.
A todos os nossos amigos do clube do Multichine 28 e dos clubes das outras de nossas classes, desejamos que seus barcos lhes proporcionem tantas alegrias quanto o nosso Fiu tem nos proporcionado e que outros de nossos desenhos venham a ser os convidados de futuros salões náuticos.


Roberto Barros yacht Design