Clube do Multichine 28

Diário Número 22

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Cabinho e Eileen em Recife

            Pôr quase um mês e meio o MC28 Fiu voltou a navegar, tendo percorrido cerca de três mil milhas quase que exclusivamente em solitário. Esta foi a última prova antes de voltar a me envolver em mais uma revisão dos roteiros de construção, mostrando alguma coisa que ainda precise ser aperfeiçoada.
Acho que deve ser reconfortante para nossos construtores saber que além de projetarmos nossas embarcações, nos envolvemos com o processo de construí-las tanto quanto possível e em todas as oportunidades que dispomos, às navegamos intensamente. É como no velho ditado chinês: - o que leio, esqueço, o que vejo, aprendo e o que faço, sei.
Este ano resolvi repetir a experiência de 2003, inscrevendo o Fiu na regata Recife-Fernando de Noronha, desta vez reservando o lugar de tripulante para minha esposa Eileen, aproveitando para comemorar nossos quarenta anos de aventuras, relembrando a travessia que realizamos em 1964, indo do Rio de Janeiro a Santos e voltando, a bordo de um veleiro de 16 pés de comprimento, assim como a primeira viagem de um barco de cruzeiro de bandeira brasileira até o Pacífico Sul, isto lá pelos idos de 1967, a bordo do Sea Bird, aventura estas narradas no livro "Do Rio à Polinésia".
Pelo fato de Eileen ter sérios problemas de pele, causados pôr excesso de exposição ao sol em todos os nossos cruzeiros anteriores, além de já estar cansada de tantas aventuras marítimas, combinamos que eu levaria o Fiu em solitário até Recife, onde ela me encontraria para seguir viagem até Noronha, e depois voltarmos juntos.
De fato, Eileen veio me encontrar em Recife, onde passamos momentos deliciosos, relembrando nossa épica travessia de Cabo Frio até lá, realizada 37 anos antes. Esses dias maravilhosos, no entanto, não puderam ser prolongados, pois ao sairmos na regata, os problemas de pele e a falta de entusiasmo pôr competição fizeram que decidíssemos desistir da regata já na primeira noite e voltássemos para Recife. Curiosamente, livres de pressão típica das competições, vivemos momentos inesquecíveis, com muitas reminiscências de outras velejadas. A única razão para lamentar foi o fato de que as duras condições desta Refeno 2004 seriam ideais para o Fiu mostrar suas qualidades, assim como fizera em 2003, quando completou o percurso em 46 horas e 51 minutos, sem nunca ter precisado rizar a vela mestra, nem substituir a genoa leve, tendo sido o fita azul em sua classe e o segundo barco a cruzar a linha de chegada na classe imediatamente acima. Passamos mais uns dias agradáveis em Recife, e então Eileen achou mais prudente não retornar comigo para poupar sua pele. E assim repeti a viagem solo de 2003, voltando ao Rio desta vez em onze dias e meio, dois a mais que no ano passado e um a mais do que na ida, porém desta vez tendo que enfrentar três dias de depressão fortíssima, que me obrigou a capear pôr 48 horas sem trégua. O teste valeu para mostrar como é robusto e marinheiro o MC28, tendo retornado inteirinho ao seu finger na Marina da Glória, sem o menor problema.
Como todos os sistemas de bordo funcionaram perfeitamente, mesmo levando em conta que o Fiu já tem umas 6 mil milhas navegadas, e quase três anos de vida a bordo agora fica mais fácil analisar o trabalho realizado, e poder passar para outros construtores mais dicas de detalhes da fabricação.
Quanto ao querido Fiu, mesmo que ele não realizasse mais cruzeiro algum, que até fosse vendido, ele já teria dado um retorno fantástico pelo trabalho de projetá-lo e construí-lo. Como Eileen e eu começamos a sentir o peso da idade, ficamos felizes pelos bons momentos que o Fiu nos proporcionou. No entanto nossos amigos não deverão ficar espantados se os antigos sonhos de aventuras retornarem mais uma vez.


Roberto Barros yacht Design