Clube do Multichine 28

Diário Número 23

DIÁRIO DE BORDO DO FIU

Em 1998, em parceria com uma editora, relançamos o livro "Do Rio à Polinésia" que fora um grande sucesso de vendas durante a década de oitenta. Na época estava sendo concluído o Multichine 28 Fiu, que construímos com a intenção de retornar ao Pacífico Sul numa viagem de recordações. Por vários motivos essa viagem não pôde ser realizada quando da inauguração do barco e o trabalho no escritório Roberto Barros Yacht Design acabou por roubar o tempo que seria destinado a este cruzeiro. Com o passar dos anos fomos aproveitando do jeito que foi possível nosso veleiro, e no momento ele já está com seis mil milhas navegadas, nos proporcionando momentos inesquecíveis.
Finalmente, após sete anos de espera, parece que está surgindo uma nova oportunidade para que essa sonhada viagem se realize, e, para ajudar na moral, estamos publicando o prefácio da edição de 1998 em nosso site.
Aos que desejarem adquirir o livro na edição 1998, pedimos que entrem em contato com o nosso escritório, e combinaremos a transação.

PREFÁCIO

É como se tivesse saído da cabine para o cockpit e num relance pudesse vislumbrar toda a paisagem que foi deixada para trás. Com ela viriam as recordações dos bons e maus momentos, as lembranças dos mistérios desvendados para si mesmo, a sensação de uma etapa vencida. É assim que sentimos passadas quase três décadas dos acontecimentos.
Eram os anos 60 da juventude rebelde, cujo maior anseio era desvencilhar-se de um Vietnã em cada esquina. Éramos uma geração de easy riders e nem tínhamos plena consciência disso. As ditaduras financiadas pela horrenda Guerra Fria impunham seus padrões de conduta e submissão. Os jovens contestavam com a contracultura, pregando paz, amor e liberdade.
Era uma época em que os problemas da Terra ainda não eram avassaladores e, se os poderosos não fossem tão mesquinhos, teriam sido facilmente minorados, pois havia recursos até para se chegar à lua.
Muitos índios da Amazônia ainda podiam se esquivar do irmãozinho branco que desejava seus rios, suas terras, suas mulheres. Ainda não haviam sucumbido à tutela da FUNAI, muito menos à proteção do Sting.
Europeus desiludidos podiam encontrar ilhas no Pacífico onde ninguém iria importuná-los. O litoral do Brasil era tão inexplorado pelos cruzeiristas nacionais e estrangeiros que a chegada de um veleiro era considerado um feito heróico.
Nós dois, jovens e inconformados, não queríamos de forma nenhuma aceitar o estabelecimento. Não podíamos estar felizes onde não se respirava liberdade. Não dava para escolher um dos lados da sujeira. E como estávamos certos! Parece que estávamos sós ao discernir que as duas bandas da laranja estavam bichadas.
Ame-o ou deixe-o? Vamos deixá-lo, é claro. A família? Ela é grande. Vai pensar que estamos loucos. Quem sabe se alguns nos invejam?
O futuro? Ora, se tudo continuar por esse caminho, só poderá ser pior. Por que não ir agora? Esperar o que? Ficar rico para depois querer encontrar a simplicidade? Não faz sentido.
Caetano explodia com "Sem lenço e sem documento". Nós escrevíamos uma carta para o terrível Travancas, na época diretor da Receita Federal, informando que iríamos viajar para o exterior, mas que nossa intenção era trabalhar pelo caminho, prometendo-lhe que não levaríamos nem uns mísero dollarzinhos que poderiam ser melhor destinados às obras faraônicas. Cézar, o pai do Bonzão, um amigo nosso, que era alto funcionário da Receita Federal, ajudou-nos entregando pessoalmente nossa carta ao senhor do direito de ir e vir de todos os brasileiros.
A Bossa Nova se consagrava. Iríamos ouvi-la no Calypso Steel Band, nas boates, nas rádios de todos os lugares. Na aldeia Ipanema todos se conheciam. Tom, Vinícius, Carlos Lira, Menescal eram quase nossos vizinhos. Melhor no entanto era ouvi-los pelas bandas de tambores, nos lugares mais longínquos. Partimos, afinal. Nossa meta era a liberdade... E acabamos encontrando quase aquilo mesmo que esperávamos. É verdade que sempre havia os donos do lugar. Canal Zone, Mururoa... Mas sobrava espaço. Parecia até que ninguém se importava que você estivesse ali, contanto que não arranjasse muita confusão. As pessoas eram quase sempre gentis e prestativas.
Nunca nos sentíamos solitários, mesmo quando estávamos na imensidão do Pacífico. Compartilhávamos o mesmo espaço com milhões de amigos de outras espécies. Às vezes os comíamos, mas em compensação não foi nem uma nem duas vezes que constatamos seus olhares mal-intencionados em nossa direção. Era a regra do jogo imposta pela FIFA de todos os esportes, a mãe natureza.
Estávamos lá porque queríamos, e estávamos felizes. Os sonhos dos mares do sul. Canções dolentes, águas azul-turquesa, praias de coqueiros, o banho despido na cachoeira de águas cristalinas no meio da floresta tropical. Tudo fazia sentido. Encontrávamos o nosso paraíso íntimo.
Outra vez os donos das nossas mentes. Licença para trabalhar, licença para ficar, o jeitinho brasileiro. A filha, nossa consciência, nossos pais, fim de linha, o Travancas vencera. Não havia mais Beatles, nem hippies, nem como dizia Gil, a lua para os poetas e namorados.
Outros iriam seguir nossos mesmos rumos. O Samba, o Vagau, alguns mais. Para Wallis, o descobridor do Taiti, provavelmente o capitão Cook que lá chegou pouco depois já não encontrou o mesmo paraíso. Agora o jeito é abrir a gaiuta de proa e olhar para a frente. O barco já não é mais novo mais ainda navega. O que mudou foi o equipamento. Em vez do velho sextante de verniê, agora é um GPS. O balde de zinco foi substituído por uma privada de bomba. Mas o conteúdo é o mesmo.
Os amigos? Estes já serão outros, com certeza. A Madeleine, é bom nem procurá-la. Vai ser uma pena. Naquela época não havia câmera digital de vídeo para documentar. Não vai dar para acreditar.
Mas restam as ilhas que não conhecemos. São 300 mil só no Pacífico. Se fossem só umas sete ou oito, já quebraria um galho.
O que está faltando então? Voltar depressa, é claro, enquanto é tempo.


Roberto Barros yacht Design