Em 2003 fizemos amizade com um casal que veio da África do Sul
a bordo de um veleiro de 34 pés, de projeto europeu e construído
pelo dono em Cape Town.
Rudi e Janine eram velejadores experientes, principalmente ele que
já fizera a travessia de Cape Town para o Brasil, ida e volta
com esse mesmo barco, o Amadeus.
Desta vez eles ficaram os seus meses permitidos em nosso país
e em novembro de 2003 partiram para Punta del Leste, antes que o visto
do barco vencesse. Ao sul de Florianópolis pegaram uma tempestade
terrível, como eles nunca tinham visto antes. Durante esse mau
tempo uma onda gigante estourou contra a popa do Amadeus levando o
radar embora, assim como o leme de vento, além de uma quantidade
enorme de água ter entrado no barco, arrasando com a instalação
elétrica de bordo.
Sem instrumentos e sem meios de conduzir o barco automaticamente, às
duras penas conseguiram atingir Piriápolis onde entraram no
porto com a ajuda de um reboque oferecido por uma lancha da Guarda
Costeira Uruguaia. Durante esta mesma tempestade, um barco francês
que estava próximo deles ao largo de Santa Catarina capotou
com um casal a bordo. Um outro barco com bandeira americana também
sofreu sérias avarias e por esse motivo escreveu um longo artigo
na revista americana Cruising World de março de 2005 com o título: “O
Atlântico Sul não é mais o mesmo”.
Quatro meses depois desta tempestade fora dos padrões para aquela época
do ano, aconteceu o primeiro furacão que se tem registro na
costa brasileira, o malfadado Catarina, também citado no artigo.
Nossos amigos sul africanos colocaram o Amadeus em seco em Piriápolis
e retornaram à África para resolver problemas pessoais.
Um ano depois Rudi sozinho, pois com o susto da última travessia
Janine resolveu pendurar as chuteiras, retornou ao Uruguai para consertar
o barco e prepará-lo para a viagem de volta.
No final de março de 2005 o barco estava pronto para reiniciar
viagem e Rudi recebeu um novo tripulante para ajudá-lo, um experiente
velejador sul africano, veterano de várias travessias da América
do Sul para a África.
Muito atrasados na estação, eles finalmente partiram
na primeira semana de abril. Para não enfrentar mal tempo excessivo,
fizeram uma viagem mais cautelosa, mantendo-se acima de 35o de latitude
sul, usando uma rota mais próxima da alta estacionária
do Atlântico Sul, que teoricamente deveria proporciona-lhes ciclones
extra tropicais menos frequentes e com pressões atmosféricos
não tão baixas, como na rota mais ao sul, a aconselhada
durante o verão.
Apesar desta precaução, no Dia 14 de abril foram atingidos
por uma depressão violentíssima, com ventos médios
de sessenta nós, criando um mar sem padrão definido,
obrigando-os a entrar em capa.
Cinquenta horas após o início da depressão, os
dois amigos estavam trancados na cabine quando uma onda enorme estourou
pela proa fazendo um grande estrondo. Rudi avisou o amigo que o barco
iria capotar. Mas ainda não foi daquela vez que isso aconteceu.
A onda seguinte estourou pelo través fazendo o barco rolar como
um lápis de lado descendo por uma superfície inclinada,
repousando finalmente com a cabine voltada para baixo.
Com a água entrando por vários pontos do convés
nosso amigo e seu tripulante encontraram-se pisando no teto da cabine,
vendo o barco afundar-se inexoravelmente.
Para tentar alguma coisa, os dois se moveram juntos para o lado oposto
de onde as ondas assolavam o casco, desta forma ajudando o Amadeus
a retornar a sua posição normal.
De fato, numa das ondas subsequentes, o barco virou novamente de convés
para cima, apenas para que constatassem que a onda varrera tudo que
existia sobre a superestrutura, tipo mastreação, dodger,
radar, antenas e tudo o mais.
Com o barco cheio d’água, leme quebrado e um caos estabelecido
abordo, após tentarem esgotar o porão, o que não
era possível, pois a água continuava entrando sem saberem
de onde, decidiram fazer uma mastreação de fortuna que
infelizmente não deu certo pois o leme estava quebrado.
Sem meios de pedirem socorro a longa distância, pois, sem antena
e com baterias alagadas, não podiam utilizar o rádio
SSB, ficaram derivando fechados na cabine fria, úmida e inabitável.
Finalmente apareceu um barco de pesca no horizonte, o qual chamaram
por meio de um VHF portátil que escapara ileso da capotagem.
Este no entanto foi embora sem prestar qualquer socorro.
Quando já estavam quase desesperados surgiu um navio que ouviu
o pedido de may-day e veio prestar-lhes socorro.
Pelo costado do navio estenderam uma escada de malha para que os dois
se içassem. Quando chegou à metade da escalada, o tripulante
perdeu as forças e caiu no mar, felizmente não se esmagando
entre uma embarcação e outra. Com auxílio de um
cabo jogado pelos marinheiros, o tripulante conseguiu subir a bordo
seguido por Rudi, chegando ambos ao convés são e salvos.
O barco teve que ser abandonado e, se não afundou, está a
deriva pelo Oceano Austral. Por esse motivo um amigo nosso, John Matheson,
que também conheceu o Amadeus, descobriu um aviso rádio
emitido pela Diretoria de Portos e Costas avisando sobre a presença
do iate Amadeus à deriva no Atlântico Sul.
Pouco depois recebemos uma longa carta da Janine relatando em detalhes
o ocorrido cujo resumo é este newsletter.
Como nos dedicamos a desenvolver projetos de veleiros de regata e de
cruzeiro oceânico, sempre nos interessamos por esses relatos
dos quais é sempre possível extrairmos importante ensinamentos.
Pelas experiências que tenho acumulado com meu barco anterior,
o Maitairoa e mais recentemente com o Multichine 28 Fiu, fica a certeza
de que nunca um barco é bem preparado o suficiente para lidar
com todas as variáveis que o mar tem para nos oferecer.