Clube do Multichine 28 | Primeira Página
por Vera Galvão
Vou contar mais um passeio super interessante, na Ilha Grande, na baía de Angra
dos Reis ( RJ), que foi uma surpresa total. Idéia de Manolo, um velejador apaixonado,
que me fala sempre sobre o mar. Chegamos na marina, em Brachuy, lá pelas 11horas
da noite, e um clima especial já estava no ar. Duas cervejas, algumas piadas
e boas gargalhadas.
Finalmente conheci o Sabadear, um veleiro de 28pés, arrojado, ventilado e simpático.
Nele tudo se encaixa com harmonia: a sua sala, os dois sofás-cama, a cozinha
que deixa qualquer pessoa à vontade pela sua funcionalidade e praticidade, um
banheiro de ótimo tamanho e ainda com um grande espelho, e um quarto, que, sem
dúvida, corresponde à visão romântica de um berço, pois com o balanço do mar
ninguém no mundo resiste a dormir o sono dos justos, como pude testar depois.
Com o bom humor em alta, partimos com as estrelas do céu mar a fora até a Ilha
de Itanhangá. Uma ótima parada protegida para se dormir uma noite tranqüila
No dia seguinte comecei a entender o espírito da coisa. Falando pouco, para
não interferir na cena, pude observar o mar, o barco, e o velejador conversando
em silêncio. Se ajustando, se respeitando, fazendo pactos. O mar, soberano,
ordenando o tempo todo. Manolo e Sabadear pacientes com o pouco vento, se preparavam
e esperavam....
A recompensa a tanta espera, sem reclamação, chega com um vento perfeito, que
vai entrando devagarinho e vai crescendo até 11 ou 12nós. Olhar o prazer de
Manolo e Sabadear faz a gente compreender o porque desse casamento tão feliz.
O mar é assim e Angra proporciona sempre um renovado espetáculo com as suas
cores, com as suas ilhas, praias e baías. É o paraíso!
Chegamos à Ilha Grande. Ancoramos em Sítio Forte.
Eu, que vinha observando apenas Sabadear, passei a observar um universo completo
de velejadores. Eram 47 veleiros de todos os tamanhos e tipos, reunidos na mesma
praia.
Sítio Forte tem todos os ingredientes para um fim-de-semana perfeito e mais.
É uma praia protegida, tem água doce à vontade, um bom bar, com boa estrutura,
e é também um bom point de encontro dos velejadores de todos os lugares do país.
Cada velejador conta uma história diferente. Mas, a primeira vez ninguém esquece.
Nos depoimentos notei que a febre de correr o mundo em um veleiro é um ponto
comum entre o grupo. Essa animação toda é posta à prova na hora da primeira
viagem. É igual à primeira ópera: ou se ama para sempre ou se odeia, e nunca
mais. Ouvi que o mar pode ser bem cruel quando cresce , aniquilando sonhos de
anos em apenas uma pequena viagem. Quando se "amarela", não tem jeito, nunca
mais.
Sítio Forte conseguiu reunir muitas histórias, inclusive a das pessoas que não
se adaptaram a morar em terra firme, como Marçal e Eneida.Cecon, após terem
viajado o mundo durante seis anos, no veleiro Rapunzel. A escolha pela vida
no mar tomou conta de tal forma que a solução foi permanecer no barco durante
todos os dias.
Saber mais como é o estilo de vida dessas pessoas do mar, como elas pensam,
como vivem o cotidiano tornou-se muito interessante. Manolo me apresentou a
uma pequena biblioteca a bordo. Comecei pelo livro que Eneida publicou, um achado
de simplicidade. A Arte de cozinhar é o resultado do trabalho de seleção do
que foi positivo dentro do Rapunzel. Toda a organização de um barco em termos
de cozinha, como arrumar a despensa e receitas de todos os tipos. As inúmeras
receitas de pratos salgados, doces, pães, sopas, etc são de extrema facilidade
de confecção, o que me fizeram crer que até eu seria capaz de fazer.
Têm livros orientando tudo: primeiros socorros, como reparar os barco, os melhores
roteiros e até mesmo, acredite, como fazer nós, o que aprendi logo de início
pelo menos quatro diferentes para emendar e amarrar cabos. Escritores, com depoimentos
de pequenas e grandes viagens, relatando o que dá certo e o que dá errado dão
o tom de qualquer biblioteca dos veleiros. A bibliografia é realmente farta.
O trabalho dentro de um barco é duro; problemas existem, mas nem maiores nem
menores do que os de uma casa comum. Economiza-se água, a energia é bem racionalizada.
Não se esbanja nem se desperdiça nada onde o espaço e a distância atuam de forma
definitiva, diariamente, sobre os tripulantes.
Em tudo nota-se o peso da responsabilidade de cada um dos participantes. Outro
veleiro que nos recebeu muito bem foi o Bicho Vermelho. O casal Bob e Isabel
estão em uma fase preparatória para viajar com destino a Salvador. No momento,
ela mora no Bicho Vermelho, administrando-o como se fosse uma casa tradicional:
lava, arruma , cozinha para se adaptar completamente, além de estudar para fazer
a prova de Capitão. Tudo é sistematizado para funcionar de forma otimizada.
Não ouvi ninguém reclamar de absolutamente nada, pelo contrário.
Qual é a motivação para essa opção ?
Na mesma praia em que estávamos se encontrava outro belíssimo veleiro de 45pés,
o Scirocco. Estavam lá há 15 dias, quando os planos iniciais eram de já estar
em Fernando de Noronha, mas, como as três pessoas a bordo estavam curtindo e
com vontade de conhecer mais ainda a região, a decisão tomada foi a de permanecer
quanto mais desse vontade e depois seguir viagem .
Esse é mais um lado bom da história. A parada da viagem, o conhecer os lugares,
as pessoas, novas cozinhas, novos costumes, nadar, mergulhar para ver os corais,
os peixes, curtir a praia, conversar com os amigos novos e reencontrar-se com
os antigos. Tudo é muito bom.
A liberdade foi sempre o espírito pelo qual se pautaram todos os momentos das
conversas. O prazer dos encontros, a conversa na "casa do vizinho", a forma
responsável de cada um trabalhar e a felicidade autêntica de se festejar faz
muito bem . Foi muito bom ver pessoas desconhecidas se entendendo tão bem.
O mar tem uma personalidade própria, assim como esses velejadores. E não sei
bem se é a aventura que move essas pessoas, acho até que não. A impressão é
que realmente é a liberdade que conta. Rompem-se as amarras com a vida permanentemente
urbana, com o excesso de necessidade de consumo e ainda a coisa do espaço delimitado
no dia-a-dia. É certamente uma amarra que se solta.
Não há necessidade de se traduzir os mistérios daquelas pessoas. Acabei descobrindo,
com todos eles, mais uma coisa boa sobre a liberdade: o importante nem é tanto
aonde ir e, sim, ir aonde for.