Planos para
Construção Amadora
Processos de Construção
Especificamos nossos projetos para seis sistemas construtivos, empregando os
materiais mais usados em construção de embarcações. Embora existam muitos outros
processos, preferimos nos concentrar naqueles em que o material é de fácil obtenção
no Brasil, a construção não é muito complicada e que resultem num produto final
de alta qualidade, durável e seguro. Fazemos em seguida um resumo explicativo
dos processos que adotamos.
Processo Ply-Glass
Este é um dos processos mais interessantes para a construção amadora. A qualidade
do barco final é insuperável, não há perda de modelos, o sistema é fácil de executar,
obtendo-se um bom isolamento térmico e um peso reduzido para a rigidez alcançada.
Pode-se dizer que pelo lado menos positivo tenha-se a limitação de não se poder
fazer cascos redondos. Os barcos em ply-glass devem ser do tipo facetado, ou seja,
em corte transversal o casco não é arredondado, mas sim tem uma forma poligonal
em que os cantos são chamados "chines" (pronuncia-se chaines). Para alguns, os
barcos desse tipo com um ou mais chines (neste caso chamados de multichines),
não são tão bonitos quanto os cascos de formas redondas. Isto é uma questão de
gosto, mas alguns barcos multichines, quando bem desenhados e bem construídos
podem ficar excepcionalmente atraentes.
Além do controvertido fator estético, a construção em ply-glass apresenta uma
dificuldade de ordem prática. O barco é construído em madeira compensada e depois
revestido com resina reforçada com fibra de vidro. Este revestimento é fácil de
ser aplicado e dá um resultado excelente como material de reforço e isolamento.
O problema é lixar a superfície externa uma vez que a fibra de vidro é muito dura
e o pó da lixagem ao entrar nos poros da pele costuma causar coceiras.
Esse inconveniente é inevitável e, quem quiser ter um bom barco com um bom acabamento
deve estar preparado para alguns dias de sacrifício, e superar esta etapa.
O processo se resume no seguinte:
Após a fabricação em bancada da estrutura transversal, ou seja, cavernas e anteparas,
estas são fixadas em pé sobre uma base (picadeiro) e unidas por peças de madeira
longitudinais (quilha, chines, etc.) Sobre esta estrutura é pregado e colado com
epoxy compensado naval relativamente fino, o que representa um trabalho bem fácil
de ser executado. Uma vez todo coberto o casco com compensado, são aplicadas várias
camadas de fibra de vidro saturadas com resina (poliester ou epoxy). Uma vez curada
a resina é então feita aquela lixagem externa para que o casco possa ser pintado.
Para o convés repete-se a operação, sobrepondo por uns 50 mm à laminação do costado.
Internamente o compensado e toda a estrutura devem ser saturados com duas mãos
de resina epoxy para impermeabilização, garantindo desta forma uma imensa durabilidade.
A madeira saturada com epoxy se petrifica em sua superfície, eliminando a possibilidade
de instalação de fungos. Um bom exemplo da excepcional qualidade do processo é
o veleiro Multichine 23 de nome "Caso Sério". Construído em 1980 e muito bem usado
durante todos estes anos ainda hoje está em estado de novo, sem uma gota d'água
sob os paineiros e quando se faz um furo para a instalação de algum equipamento
novo ainda se sente o aroma da madeira virgem. A maioria dos barcos de série de
fibra de vidro de mesma idade já está em mal estado, enquanto que o "Caso Sério"
parece um barco novo. O próximo barco de Roberto Barros com o qual ele e sua esposa
Eileen pretendem viajar para o Pacífico Sul é construído por esse processo. O
objetivo da escolha foi construir um barco para uso intensivo praticamente isento
de manutenção e capaz de durar algumas dezenas de anos sem envelhecer. Existem
algumas falácias insistentemente repetidas que precisam ser desmistificadas.
- A madeira tem que respirar, logo não se deve saturar
o interior do barco para evitar apodrecimento. Conceito totalmente errado.
A madeira não respira. O que respira e precisa de umidade para se proliferar
é o fungo que se aloja nela. A saturação com resina epoxy impede o apodrecimento
e torna a madeira um dos materiais mais duráveis que se possa utilizar na
construção de embarcações.
- Não se deve encapsular madeira com fibra de vidro
pois não há aderência entre os dois materiais. Conceito parcialmente errado.
A madeira maciça absorve vapor d'água quando a umidade relativa do ar está
alta e perde vapor d'água em dias secos aumentando e diminuindo suas dimensões
transversais neste processo. Longitudinalmente quase não há variações de dimensionamento.
Quando a madeira é totalmente encapsulada ela não troca mais umidade com a
atmosfera e consequentemente mantém estabilidade dimensional. Compensado naval,
por sua construção com fibras perpendiculares é dimensionalmente estável e
pode ser revestido com fibra de vidro com segurança. O processo ply-glass
pressupõe que a espessura da fibra de vidro seja em torno de um terço da do
compensado, se a resina utilizada for poliester para a saturação da fibra
de vidro. No caso de resina epoxy a laminação poderia ser mais fina, todavia
nos barcos de ply-glass a fibra de vidro tem função estrutural e não pode
ser diminuída excessivamente. O processo ply-glass pressupõe obrigatoriamente
a saturação interna do barco com duas mãos de resina epoxy.
A construção em ply-glass, considerando-se a alta qualidade do barco concluído
e sua longa durabilidade com mínima manutenção é um dos processos mais interessantes,
para quem quer ter a certeza de construir um bom barco.
Casco do Multichine 28 FIU recebendo o revestimento de compensado
Multichine 28 Utopya sendo colocado na água
Construção em
Strip-Planking
Este é o método mais econômico de construir um casco. Para quem quiser fazer um
bom barco, robusto e durável de uma forma rápida e barata este sistema é imbatível.
O processo consiste no seguinte:
- Fabricam-se seções com a forma do casco (balizas
quando temporárias, cavernas e anteparas quando permanentes);
- Preparam-se ripas estreitas nas quais são tupiados
um cavado e um abaulado como se fossem um macho e fêmea. Estas ripas são os
chamados strips;
- Em seguida prepara-se a quilha de madeira moldada,
a roda de proa e o trincaniz (peça de madeira de reforço entre convés e costado)
que são fixados sobre cavernas, anteparas e (ou) balizas;
- Após isso é feito o revestimento com os strips.
Estes são pregados e colados um ao outro assim como à estrutura, sendo apenas
pregados provisoriamente às balizas, pois estas serão retiradas depois;
- Finalmente o casco é lixado e impregnado com duas
mãos de resina epoxy, por dentro e por fora, para a saturação da superfície
da madeira. Algumas pessoas preferem aplicar externamente o epoxy reforçado
com uma camada fina de tecido de vidro. Essa camada de tecido fino dá maior
proteção no caso do casco raspar numa pedra ou beirada de cais.
O processo strip-planking requer que as ripas sejam emendadas em juntas chanfradas
para que fiquem com o comprimento necessário. É difícil encontrar madeira com
mais de 5 metros de comprimento. O processo requer também bastante cuidado na
colagem e na saturação com resina epoxy.
Tomados estes cuidado o casco de strip-plank está pronto para a pintura e uma
longa vida praticamente sem manutenção.
Em cascos de strip-plank a melhor solução para o convés é o sistema ply-glass
explicado anteriormente.
Cavernas preparadas para receber o revestimento de strip-planking
Revestimento em strip-planking completo
Laminado Moldado
Este é um dos mais belos métodos de construção que existem. Para os apreciadores,
esta é a oportunidade de usar a madeira, com um resultado igual ou superior
ao plástico reforçado com fibra de vidro.
Este processo tem duas variantes: ou lamina-se o casco sobre uma estrutura longitudinal
ou sobre um engradado, com a forma interna do casco, ficando a estrutura para
ser colocada após a viragem do casco.
Pelo segundo sistema, costuma-se eliminar a estrutura longitudinal, compensando-a
por um aumento da espessura do casco, permitindo um acabamento liso internamente,
que pode ficar muito bonito, sobretudo se for envernizado.
O processo resume-se em colar várias camadas (geralmente quatro) de tabuinhas
finas, cada camada numa direção, fazendo-se com isso, um verdadeiro compensado
naval com a forma do casco. Terminado o trabalho, impregnam-se as superfícies
interna e externa com epoxy, podendo como no caso do strip-plank colocar-se
um tecido fino externamente para reforçar a resina epoxy.
Barcos de laminado moldado podem ter o convés feito em ply-glass ou igualmente
em laminado moldado.
O sistema de laminado saturado com epoxy (West) é internacionalmente consagrado
e produz cascos leves e muito resistentes. Sua realização não é particularmente
difícil, no entanto é mais demorada do que no sistema de strip-planking e o
custo e mais alto, devido ao maior consumo de cola e maior perda no aproveitamento
da madeira.
O processo é indicado para barcos mais sofisticados de alta qualidade de marcenaria.

Casco de um Samoa 29 construído
em laminado moldado
Construção em Fibra de Vidro
O mais popular processo de construção de embarcações de recreio é sem dúvida
o plástico reforçado com fibra de vidro. A maioria dos barcos é feita assim,
o que representa um valor de revenda maior do que em outros processos.
As vantagens dos barcos de fibra de vidro são por demais conhecidas para repetirmos
aqui, mas para a construção particular deparamo-nos com uma dificuldade. As
fábricas de embarcações constróem um modelo que é uma réplica do barco a ser
fabricado. Desse modelo é tirada uma forma que permite a produção de uma série
de barcos iguais ao modelo.
vO custo para a fabricação da fôrma sendo alto, não fica econômico construi-la
para a produção de uma só unidade.
A construção amadora geralmente é realizada sobre um modelo, mais ou menos precário,
para ser destruído, e o casco daí produzido é então lixado por fora, com a dificuldade
já mencionada de lixar fibra de vidro.
Tirando esse trabalho, um pouco cansativo, tudo o mais é compensador. Tem-se
um casco até mais bem feito do que os de fábrica, pois a laminação sobre um
molde macho facilita o trabalho, e, neste caso com uma proteção externa de base
epoxy, está muito mais protegido de osmose (penetração de água através da resina)
do que o barco de série.
Nossos planos para construção em fibra de vidro especificam uma laminação bem
mais robusta do que é comum encontrar nos barcos de série, o que proporciona
ao nosso cliente um casco mais forte e durável do que o seu equivalente comercial
por um custo de material apenas ligeiramente maior, mas com a vantagem da segurança
extra.
Para o convés dos nossos barcos de fibra. especificamos o sistema de ply-glass,
que, além de acrescentar rigidez, permite integrar casco à parte externa do
convés, tudo com o mesmo material.

Forma do convés de um Samoa 36
Construção em Sanduiche de
Balsa ou Espuma de P.V.C.
Um barco construido pelo processo de sanduiche tendo como recheio um material
(geralmente espuma de P.V.C. ou balsa) e interna ou externamente laminados de
plástico reforçado com fibra de vidro ou as chamadas fibras high - tech, tais
como fibra de carbono ou Kevlar, tem como resultado o que existe de mais leve,
rígido e robusto que se possa fabricar.
Para os barcos de competição o método de construção em sanduiche é imbatível,
e praticamente todos os barcos recentes bem sucedidos são fabricados desta forma.
Para cruzeiro o sistema também é altamente recomendado pois produz barcos muito
fortes sem ficarem pesados. Além disso o material é um bom isolante acústico e
térmico.
Cuidados especiais devem ser tomados durante a construção para que haja ótima
aderência entre as camadas interna e externa e o miolo de sanduiche. A construção
em sanduiche é mais recomendada para estaleiros profissionais.
Construção em Aço ou Alumínio
Os barcos de aço vão se tornando os favoritos entre os cruzeiristas de longo
curso, principalmente nos países da Europa.
As razões para isso são muitas. O barco de aço é muito mais forte do que os
outros. O material é barato e fácil de encontrar. Se o casco é do tipo Multichine,
a construção não é muito difícil e, em caso de avaria, em qualquer lugar do
mundo, por mais remoto que seja, não é difícil encontrar equipamento e material
para o conserto. A corrosão, que pode pesar no lado negativo, com o advento
das proteções epoxy passou a representar um fator sob controle.
Sendo assim, é uma pena que no Brasil só agora comece a haver uma consciência
sobre as vantagens do barco de aço.
Nossa firma como pioneira em desenhos de barco de aço no país juntou uma vasta
experiência e mesmo desenvolveu alguns processos para facilitar a construção
e a manutenção posterior. Também procuramos com o desenho de barcos modernos
e velozes terminar de uma vez por todas com o tabu de que barcos construídos
com esse material são lentos por serem muito pesados.
Nosso projeto mais conhecido neste material, o Multichine 37, com dezenas de
unidades velejando apresentam uma performance que em nada fica a dever aos barcos
de série equivalentes.
Recentemente introduzimos uma nova linha de projetos para construção em aço
que, por sua boa performance e seu grande conforto já está se tornando famosa.
Especificamos nossos barcos metálicos para serem construídos também em alumínio.
Este material é interessante por ser mais leve e menos corrosivo. Por outro
lado é muito mais caro e mais difícil de ser soldado. Todavia havendo recursos,
é uma ótima opção construtiva. O veleiro Paratii, do navegador Amyr Klink, coprojetado
por nosso escritório, foi construído com esse material.

Terminando o convés do Multichine 45
Casco do Multichine 37 sendo virado
Multichine 45 Scirocco, construído em aço
Roberto Barros Yacht Design