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Como profissionais de projeto de iates com dedicação especial aos planos de
veleiros para construção particular, recebemos inúmeras consultas de pessoas
mais ou menos saturadas com o estado das coisas no mundo atual, nos informando
estarem dispostas a obter um veleiro para sair por aí em uma longa viagem.
Geralmente nos contam seus problemas, suas desilusões e a vontade de fazer
alguma coisa que justifique um pouco mais sua existência.
Em princípio temos grande simpatia por este tipo de gente pois afinal basicamente
desejamos a mesma coisa, mas na maioria das vezes abre-se um fosso muito grande
entre os dois lados quando nosso correspondente começa a tirar os pés do chão
informando-nos que deseja um veleiro de tamanho suficiente para acomodar com
conforto e segurança ele e sua família, mas que infelizmente não dispõe nem
de muitos recursos nem de experiência prévia. Em seguida nos pergunta quanto
custa realizar este sonho e se num determinado período seria viável completar
seu projeto de vida.
Basicamente este questionamento é correto para todo aquele que deseja tomar
uma atitude radical à sociedade estabelecida convencional, da qual queiramos
ou não todos fazemos parte. Mas será que estas pessoas estão no caminho certo?
Vejamos duas possibilidades e dois caminhos bem distintos. Um potencial cruzeirista
encontra e acaba adquirindo um veleiro de segunda mão na faixa dos 40 pés
por um valor hipotético de 60 mil dólares, barato para um barco deste porte,
pagável em 20 prestações de 3000 dollars o que representa toda a sua disponibilidade.
Outro velejador inicia a construção particular de um veleiro de 30 pés, cujo
preço final ele não tem muita certeza de quanto será, mas sabe que também
pode dispor de um fluxo de caixa de aproximadamente três mil dollars mensais.
O primeiro personagem ao comprar um barco velho avalia que terá que gastar
mais uns 30 mil dollars para deixá-lo em bom estado mas tem que esperar 20
meses somente para poder quitar a aquisição e só então iniciar a obra. E enquanto
isto vai se endividando mais ainda com estadia e outras despesas inevitáveis.
Em vinte meses o outro barco está pronto para ir para qualquer lugar e seu
dono não deve nada a ninguém. Enquanto isto o barco de 40 pés não só foi se
estragando como também se tornando ainda mais obsoleto e no final das contas
se um dia ficar pronto em condições de sair mundo afora, terá custado provavelmente
outros U$60 mil a mais e não os U$30 mil previstos, o que é a regra em todas
as reformas. Neste meio tempo o barco menor já terá navegado uma barbaridade
e sendo novo em folha terá dado o mínimo de manutenção ao seu proprietário.
Por outro lado a grande chance é a de que o proprietário de 40 pés acabe não
fazendo cruzeiro em face dos inúmeros problemas que podem surgir durante todo
esse tempo, seja com sua embarcação, seja com sua vida pessoal.
Os exemplos antagônicos se aplicam a vários tamanhos de barco e a diversos
potenciais financeiros, mas como a maior parte das pessoas pertence à categoria
do primeiro exemplo, existem muitos sonhadores e somente uns poucos realizando
estes sonhos.
Em nosso modo de pensar a forma mais segura de sair mar afora é ter o melhor
barco possível tanto em qualidade de construção quanto de equipamentos. Se
os recursos não forem grandes deve-se reduzir o tamanho do barco mas nunca
abaixar o nível de qualidade. Quase todos os cruzeiristas brasileiros mais
conhecidos fizeram seus próprios barcos com todo o capricho, ou então os encomendaram
a um estaleiro ou os compraram prontos, escolhendo a dedo seu modelo, nunca
voando mais alto do que seus recursos lhe permitiram.
Muitas vezes recebemos consultas totalmente fantasiosas e as pessoas parecem
ficar decepcionadas quando dizemos que não acreditamos muito nos seus planos.
Cada um sabe de sua vida, mas na prática constatamos que determinação e bom
senso são os fatores mais importantes para transformar um sonho em realidade.
De forma alguma queremos sugerir que o barco menor é mais adequado para empreender
um longo cruzeiro. Até mesmo compreendemos que quem viaja a bordo do seu veleiro
pode precisar de ganhar a vida dentro dele, e isto pode abranger as mais variadas
atividades, desde o charter, a mais óbvia, até mesmo trabalho em informática,
por exemplo, que hoje em dia pode ser realizado em qualquer lugar. Neste caso
o barco maior é sem dúvida mais adequado mas também seu custo operacional
é maior. Por ironia geralmente quem menos precisa de trabalhar para ganhar
dinheiro na nova vida é quem pode dispor de um veleiro maior. Mas também em
nossa opinião o barco menor não é necessariamente menos adequado para um cruzeiro
longo, principalmente quanto ao fator segurança. Mas isto já é um outro capítulo.
O que deve ser considerado cuidadosamente para reflexão é o fato de alguns
conseguirem fazer longos cruzeiros bem sucedidas com seus veleiros e outros
não atingirem seus objetivos. As razões para esta diferença crucial são exatamente
as que separam a realidade da fantasia.