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Taai-Fung II | Maracatu

Diário do Maracatu - parte 12

Alo pacientes leitores deste diario, saimos do ar (mas nao do mar) por algum tempo mas agora estamos de volta. Fomos convidados pelo Jadir do Normandie, aquele da "casa de campo" do MaraCatu (ver diario 4) para ajuda-lo a levar a escuna Valtur Bahia, um tradicional saveiro baiano de 72 pes, de Salvador para a Sicilia na Italia. Apos dois minutos e meio de reflexao (como e' bom ser dono do nosso tempo) resolvemos aceitar o convite e participar da aventura, que prometemos contar depois. Mas agora vamos comecar de onde paramos, a festa de Sao Joao no rio Paraguacu.

O Paraguacu nasce na Chapada Diamantina no municipio de Barra da Estiva, corta o Reconcavo e 550 Km depois desemboca na baia de Todos os Santos formando o vale de mesmo nome. Originalmente era habitado pelos indios tupinanbas que depois de muita briga foram expulsos pelos portugueses que sabiamente escolheram a regiao para o plantio de cana de acucar. Logo perceberam que o rio fazia a ligacao entre o Reconcavo e o Sertao, facilitando o escoamento das riquezas produzidas e o comercio trouxe o rapido progresso para toda a regiao.

Velejando com 10 nos de vento favoravel, muito sol e mar calmo pela baia de Todos os Santos seguiamos para a foz do rio e observavamos que muitos barcos faziam o mesmo, pois no dia seguinte, 23 de junho, era vespera do dia de Sao Joao e ninguem queria perder a tradicional festa na cidade de Maragojipe, 12 milhas rio acima.

Logo na primeira curva do rio, ficamos lado a lado do veleiro alemao Jambo e seguimos juntos observando a beleza dos manguesais, nascentes d'agua, edificacoes seculares como igrejas, fortes, engenhos e vilas existentes em seu curso e cruzando com os tradicionais saveiros de carga que levam principalmente farinha de mandioca e carne de fumeiro (porco defumado) e velejam de forma elegante.

Chegamos ao entardecer e depois de tres tentativas, finalmente conseguimos fazer a ancora unhar direito, pois a correnteza e' forte e o fundo e' duro. Decidimos explorar a cidade no dia seguinte, permanecendo a bordo curtindo os forros, xotes e baioes cantados por Gil no Cd da trilha do filme Eu, Tu, Eles.

Amanheceu com muito vento e chuva e nao conseguimos nem botar a cara no cockpit. No final da tarde, numa rapida estiada vestimos roupa de tempo e desembarcamos, deixando o bote amarrado no pier de cimento com uma ancora pela popa.

A famosa festa foi uma decepcao. Tinhamos feito apenas um lanche na hora do almoco para curtir as deliciosas comidas a base de milho, tradicao da epoca de Sao Joao, acompanhadas de um bom quentao. Nao conseguimos comer nem milho cozido e quentao ninguem sabia o que e'. Apos encher a barriga com uma pizza tipo "pizza de padaria", aguardamos umas duas horas pelo conjunto que animaria a festa com musica ao vivo. Outra decepcao, em vez do tradicional forro', ouvimos Axe' Music. Frustados, decidimos voltar para o barco.

Quando chegamos no pier, percebemos que estava acontecendo alguma coisa, pois tinha uma rodinha de pessoas dando pitaco em pelo menos tres linguas diferentes. Uns franceses tinham deixado o bote ao lado do nosso com o cabo de amarracao muito curto. Eles nao sabiam que a mare' por aqui varia perto de 2 metros e quando ela vazou, o bote deles ficou pendurado e subiu por cima do nosso. Ja' tinha um cara dentro d'agua lutando contra a correnteza e tentando tirar o motor de popa deles que estava dentro da Unidade Movel. Ele conseguiu realizar a tarefa mas virou nosso bote com motor e tudo. Felizmente o valente Suzuki nao bebeu agua e pegou de primeira.

Apesar do recem inaugurado balizamento do rio ate' Cachoeira, fomos conhece-la espremidos num taxi lotacao seguindo 22 km rio acima. A cidade teve uma importancia muito grande, pois era ali o porto na epoca do escoamento das riquezas e alem do comercio teve uma participacao politica de peso na epoca da independencia do Brasil e acabou conhecida como "Cidade Heroica". Quiteria, a mulher soldado, e Ana Nery, a enfermeira do Brasil, sao filhas de Cachoeira. Recebeu visitas ilustres como D.Pedro, o I e o II, Princesa Isabel e o Conde D'eu. Foi sede do Governo da Bahia por duas vezes: uma no inicio das lutas pela independencia (1822) e outra durante a Revolta da Sabinada (1837). Isto trouxe para a cidade valores notaveis nas artes, arquitetura civil e religiosa, monumentos impregnados de historia. Hoje ainda retrata esse passado dinamico e desde 1971 e' "Cidade Monumento Historico". A ponte D.Pedro, uma imponente estrutura metalica importada da Inglaterra a liga a Sao Felix, na outra margem. Rio acima fica a represa Pedra do Cavalo, construida para regular a vazao das aguas, evitando inundacoes em todo o vale na epoca das chuvas.

Passeamos bastante pela cidade ate' que bateu a fome em Mara e a sede de cerveja em Helio. Escolhemos um pequeno restaurante com cara de ter uma boa comida caseira. Acertamos em cheio! Experimentamos um prato tipico preparado com folhas de mandioca, carne de boi e porco, chamado manicoba. Este prato leva tres dias para ser feito pois a folha da mandioca e' muito toxica.

O papo rolou solto durante o almoco com o casal Ed e Graca, proprietarios do restaurante, e um amigo que morava ao lado, num autentico sobrado. Ele fez questao de nos levar para conhecer o sobrado, a familia e uma reliquia que sua tia cuida a mais de 40 anos: a imagem de uma santa que so' sai de casa no dia da procissao, retornando logo apos para seu recanto. Graca nos convenceu a ficar na cidade ate' o final da tarde para assistirmos ao desfile em comemoracao a emancipacao da cidade. Valeu a pena. Grupos de estudantes fantasiados retratando parte da historia do Brasil e da cidade desfilavam ao som de duas fanfarras.

De volta a Maragojipe fomos explora-la, acompanhados de Bernard e Monica do Jambo e do Joao e Bardu do Justa Causa. O nome Maragojipe grafado como Marau-Gy-Pe seria rio dos Marahu ou rio dos maracujas, Marag-Jyp seria rio de mosquitos. A cidade fundada em 1556 tambem e' historica e possui um dos mais importantes manguesais do Estado, mas hoje esta' esquecida e parou no tempo. Acumula um grande numero de aposentados, pois os jovens saem para estudar fora. Conversando com os locais eles a definem como a cidade do "ja' teve", ou seja, ja' teve capitania dos portos, ja' teve ferryboat para Salvador, ja' teve varias olarias, ja' teve fabrica de charutos Suerdieck e outras coisas mais. Hoje vive mais do folclore e festas religiosas. A famosa regata Aratu-Maragojipe coincide com a festa do padroeiro, Sao Bartolomeu, festejado durante todo o mes de agost

o.

Apos as festas de Sao Joao, resolvemos descer lentamente o Rio Paraguacu, explorando suas curvas e seus encantos. Mas disso falaremos depois. Atendendo a sugestao de alguns atentos leitores, daqui pra frente diminuiremos o tamanho e aumentaremos o numero de vezes que mandaremos nosso diario.

Curiosidade do mes: as Kombis de lotacao que no Rio sao chamadas de vans, ou peruas em Sao Paulo, aqui em Salvador tem o pomposo nome de "Subsistema Especial de Transporte Complementar".

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Diário do Maracatu - parte 11

A velejada entre Ilheus e Salvador prometia ser boa. Saimos pela manha com vento sul de 15 nos e ondas entre 1,5 e 2 metros, tambem de sul. So' com a genoa faziamos uma media de 6 nos. Ivan no Taai-Fung, com Tarcisio e Mariana de tripulantes nos acompanhavam. Na altura de Itacare', 30 milhas ao norte, o vento foi rondando para nordeste e diminuindo ate' calmaria total com o mar tambem baixando ate' parecer um lago. Conclusao, chegamos no Centro Nautico da Bahia as 5 horas da matina do dia 27 de maio, motorando. Apos uma media com pao com mortadela numa padaria na parte alta da cidade e um breve cochilo, Joao do Yahgan, Egle e os tres patetas (Ze' Feliciano, Roberto e Manolo) chegam com malas e bagagens para nos encontrar e explorar a cidade. Passamos dois dias curtindo Salvador com eles. Os tres patetas ainda foram ate' Itaparica no Taai-Fung.

Deixamos os barcos no Aratu Iate Clube, preparamos mochilas e tenis de caminhada e pegamos o onibus para a Chapada Diamantina. A Susy do Samba que era a mais animada para a excursao acabou nao aparecendo (as mas linguas dizem que foi o namorado dela que nao deixou).

A Chapada fica a 400 km de Salvador, bem no meio do sertao baiano. Este pedaco magico da Bahia possui belas formacoes geologicas que foram esculpidas ao longo de muito tempo pelo vento e pelas aguas, formando grutas, cachoeiras, morros e paredoes de formas e cores variadas que ate' parecem ter sido moldadas pelas maos de um artesao gigante. Um rico manancial de aguas cristalinas nasce na Chapada, formado principalmente pelos rio Paraguacu, que desemboca na Baia de Todos os Santos e rio de Contas que desemboca em Itacare'.

A poetica cidade de Lencois se descortina em um dos contrafortes da Serra do Singora', as margens do rio Lencois. A vila formou-se la' pelos idos de 1845 numa epoca em que a regiao prometia ser o Eldorado. Tombada pelo patrimonio historico, e' considerada a capital do diamante e uma das maiores referencias entre as cidades baianas ligadas ao garimpo. Seus casaroes testemunham uma epoca de prosperidade. Um deles foi usado como sub-consulado frances, onde a aristocracia local negociava seus diamantes diretamente com a Europa. Foi ai' que o onibus nos deixou as 5:30 da manha, depois de 6 horas numa estrada cheia de catabiu (como o nordestino chama buraco na estrada). Ouvimos algumas reclamacoes do Ze' que diz ter passado a noite sem dormir, deixamos as mochilas numa pousada e fomos ver a cidade acordar.

Na primeira manha, contratamos um guia local e fomos conhecer as redondezas. O passeio comecou com uma caminhada de 3 km ate' o Ribeirao do Meio. La' mergulhamos em sua agua cor de coca-cola, curtimos os desenhos que uma espuma branca forma na superficie e escorregamos no grande lajedo. Na volta, atravessamos a cidade e seguimos para o outro lado mais 3 km chegando ate' a Cachoeirinha. Mais um bom banho, agora em agua cristalina. Na volta passamos pelo Salao das Areias Coloridas e o Serrano. Roberto descobriu as maravilhas de uma camara digital, comprou um monte de disquetes e registrava tudo que passava na sua frente: gente, pedra, lagartixa, macaco. No final da tarde, depois de uma noite mal dormida no onibus e de ter caminhado uns 14 km, estavamos cansados e famintos. O almoco ajantarado nos deu forcas para curtir a cidade a noite, ajudados e' claro por uns Capetas (leia formula desta bebida energetica na parte 2 do diario).

O segundo dia foi light. Alugamos uma van e saimos logo cedo para cumprir um longo roteiro. Comecamos pela Gruta da Lapa Doce, onde caminhamos 800 dos 3000 metros que a formam, apreciando as formacoes de estalactites e estalagmites. No meio do caminho escutamos o silencio e vimos a escuridao total. Lembramos muito do Neto, primo da Mara e geologo da USP, que sempre nos falava destas cavernas. Com ele teriamos conhecido os outros 2200 metros desta gruta, fechados a visitacao. Relaxamos um pouco na sombra de um majestoso umbuzeiro com 280 anos e seguimos para a Gruta da Pratinha onde nos sentimos no Caribe. Uma agua cristalina de tom azul turquesa sai da gruta formando um lago com fundo de areia branca. Impossivel nao dar um mergulho. Aguardamos a hora certa e fomos ate' a Gruta Azul, onde entre junho e julho, um raio de sol ilumina a agua que como o nome diz e' azul. Seguimos para o Rio Mucugezinho, que forma diversas cachoeiras e pocos e chegamos ao maior deles, o Poco do Diabo, que e' ideal para a pratica de rapel. No final do dia, escalamos o Morro do Pai Inacio. Conta a lenda que um escravo fugindo de seus perseguidores saltou daqui usando um guarda-chuva como para-quedas (dizem tambem que depois ele voltou e fugiu com a mulher do coronel que o perseguia). Do alto deste mirante natural, tem-se uma visao de 360 graus da regiao e curtimos dai o por do sol. Sabe aquela expressao "se sentir nas nuvens"? Deve ter sido criada aqui.

O terceiro dia, tambem terceiro dia de junho, amanheceu chuvoso. Aproveitamos para perambular pela cidade, mudando de lugar a cada estiagem ou caminhando de marquise em marquise. A noite comemoramos um ano de vida a bordo no MaraCatu. Parabens pra'gente! Como o Ricardinho costuma dizer: Oh vidinha mais ou menos...

O trecho que melhor resume o espetaculo da Chapada Diamantina e' a trilha que vai do Vale do Capao, no povoado de Caete-Acu' ate' a cidade de Andarai'. Sao 60 km de paisagens deslumbrantes formada por vales, capoes (pequenos tufos de matas que normalmente aparecem entre os paredoes e ao redor da umidade dos riachos e cachoeiras), canions, paredoes coloridos e amplos campos a altitudes que ultrapassam os mil metros. Como a unica forma de ver isto tudo e' caminhando ou de helicoptero, contratamos um guia e uma mula para as bagagens e fizemos esta caminhada em 3 dias.

O caminho de Lencois ate' Caete-Acu' foi feito numa camionete JPX tracado (carro tracado e' com tracao nas 4 rodas). Victor, proprietario, guia, motorista e ex-skipper da escuna Smuggler em Angra dos Reis, ao descobrir que eramos velejadores resolveu passar o dia conosco, seguindo por caminhos alternativos e mostrando paisagens pouco visitadas. Passamos pela Cachoeira do Pai Inacio, na casa da Dona Afro que faz um delicioso doce de leite e experimentamos um pastel feito com a parte da jaca que fica entre os gomos, chamada por la' de palmito de jaca. Joao passou o dia dizendo que estava doente. No inicio achamos que era golpe para ir no banco da frente do JPX, unico com estofamento, ja' que os outros dois eram de madeira e muito duros, montados lateralmente na cacamba. A noite ficamos na aconchegante Pousada Candomba'.

Acordamos bem cedo, tomamos um farto cafe' da manha e nos despedimos do Joao que resolveu nao enfrentar os 60 km a pe'. Parece que estava mesmo doente, ou amarelou. Estavamos preocupados com o Ze'. Sera' que o velho ia aguentar a caminhada? Na verdade achamos que todos se perguntavam intimamente se iriam aguentar. Mas como disse o poeta, uma jornada de mil quilometros comeca com um passo.

O primeiro dia e' o mais puxado de todos. Fizemos 28 Km, incluindo ai um monte de subidas. A caminhada comeca tranquila pelo Vale do Capao ate' o inicio da serra. Uma subida de duas horas nos leva aos Gerais do Vieira a mais de mil metros de altitude. No topo recuperamos o folego na nascente do Rio Preto com uma vista panoramica do Vale. Ai a coisa melhora e atravessamos o plato que se estende por mais de 10 km, margeado por grandes rochedos de paredoes coloridos. Uma descida de 4 km com muita lama marca o fim dos Gerais e o inicio das reclamacoes do Roberto que nao gosta de andar na lama. Chegamos a uma antiga vila abandonada de onde so' restou uma igrejinha, conhecida como Ruinha. A partir dai mais uma hora e tal de subida ingreme rumo ao Vale do Paty, um extenso canion de rochas recortadas pelas aguas dos rios Paty e Cachoeirao. Do alto desta subida o ponto culminante da trilha em materia de beleza da paisagem. Ja' no fim da tarde chegamos a casa do Seu Wilson, um colono que recebe os peregrinos para pernoite incluindo uma super refeicao preparada por sua esposa Dona Maria e um bom banho gelado (Helio em vez de banho prefere uma cervejinha gelada na agua do riacho).

O segundo dia e' tranquilo. Uma caminhada de 10 km morro abaixo onde todo santo ajuda e o diabo empurra. No caminho passamos por um casebre conhecido como Prefeitura, erguido na primeira metade do seculo para servir de alojamento aos mercadores que comercializavam produtos entre Lencois e Andarai'. Hoje serve de alojamento para os caminhantes. O pernoite foi numa comunidade alternativa, que nao foi informada de nossa chegada. Estavamos famintos e nao tinha comida. Ainda bem que o Victor tinha dado a dica para levarmos uns pacotes de macarrao "para uma emergencia". Acendemos o fogao a lenha, reunimos os legumes existentes na comunidade e Egle, Manolo e Mara preparam um macarrao a la' sopa de legumes, que encheu a barriga dos caminhantes e dos bichos grilo da comunidade.

O terceiro e ultimo dia de caminhada comeca com uma bela subida, conhecida como Ladeira do Imperio, ja na serra do Roncador. Uma subida puxada que ziguezagueia entre pedras. Ze' Feliciano chega ao topo todo serelepe, mostrando a todos que apesar da enorme barriga ainda tem folego. A parte final, embaixo de uma chuva fina, e' uma grande descida cheia de pedras soltas, com vista do Vale do Paraguacu e seus pantanos (conhecido como mini-pantanal). A chegada em Andarai e' comemorada com muita cerveja, caipirinha e um bom descanso na piscina da Pousada Ecologica, as margens do rio Paraguacu. A noite, no jantar provamos o tucunare', peixe de agua doce muito apreciado na regiao.

A volta para Lencois foi feita de kombi. No caminho visitamos o Poco Encantado com sua agua cristalina, 50 metros de profundidade e que fica dentro de uma imensa gruta de pedras brancas. Um raio de sol, que por conta das nuvens de chuva nao apareceu, tinge suas aguas de azul turquesa. Passamos tambem em Xique-Xique do Igatu, uma cidade fantasma do seculo passado, toda erguida com pedras. Ainda nesta noite pegamos o onibus para Salvador e enfrentamos os 400 km de buracos novamente.

Recomendamos a Chapada Diamantina para todos, pois e' inesquecivel. A melhor epoca para visita-la e' de abril a julho e na baixa temporada (abril a meados de junho) o custo e' razoavel. Senao vejamos (precos em R$ por pessoa):

- Onibus Salvador-Lencois 21,00
- Pousada em Lencois a partir de 8,00 ao dia incluindo farto cafe' da manha. A maior parte das pousadas cobra 12,50
- Refeicao a peso em Lencois 8,00 o kg (existem bons PF's por 3,50)
- Guia para passeios locais 5,00 ao dia
- Passeio de van com 10 horas de duracao, lanche e guia 15,00
- Entrada na Gruta da Lapa Doce 3,00 e na Pratinha 5,00
- Caminhada Caete-Acu/Andarai' 220,00, incluindo translado de Lencois ao Vale do Capao, 4 pernoites, todas as refeicoes, guia, mula e seu condutor, translado Andarai-Lencois com visita ao Poco Encantado e Xique-Xique do Igatu, num total de 5 dias.

E ja' que estamos falando de numeros, pra quem gosta, aqui vao as estatisticas de um ano de vida bem vivida a bordo.

Navegamos 3.200 milhas (5.920 Km) das quais apenas 210 milhas em condicoes ruins, o que nao chega a 7%. Ancoramos em 42 locais e visitamos outros 32. A pior ancoragem foi em Baia Formosa na Paraiba e a melhor, por ser um arquipelago a 70 Km da costa baiana, foi em Abrolhos. A barra mais simples de negociar foi a de Cabo Frio e a mais dificil, exceto Comandatuba que nao conseguimos, foi a Barra de Sao Miguel nas Alagoas. A melhor velejada foi Maceio/Recife, a pior foi Ilheus/Camamu. O recorde de 161 milhas em 24 horas foi de Maceio para Salvador.

Navegamos 607 Hrs (media de 5.3 nos, ou a passo de cagado de uns 10 Km/h. Parece pouco, mas para um barco com 7 metros de linha d'agua e' um bom desempenho), sendo 350 Hrs (57%) a vela e 257 Hrs com vela e motor. Como navegamos o equivalente a 25 dias, confirmamos a estatistica de que mais de 90% do tempo se fica parado.

Queimamos 471 litros de diesel. Alem das 257 Hrs motorando, usamos 107 Hrs para carga das baterias (uma hora a cada tres dias). O consumo se mantem em 1.3 litros de diesel/hora. Queimamos tambem 12 bujoes de gas de cozinha (de 2Kg) e Helio e convidados consumiram **** latas de cerveja (Hi, estourou o contador de latinhas).

No MaraCatu substituimos a mangueira de alimentacao de diesel, a ponteira do pau de spinaker, a alca do burro na retranca e a chave comutadora das baterias; reparamos a bomba de pressurizacao; trocamos a bateria do motor; costuramos o carrinho da esteira e do top da vela mestra; trocamos o cabo do enrrolador da genoa e mandamos o bote de inflar para reparos na fabrica em Sao Paulo. Muito pouco para as milhas navegadas.

Mara se curou do braco destroncado em Vitoria e ate' melhorou da enxaqueca. Helio acostumou-se a lambreta com pimenta e nao teve mais infeccao intestinal, so' umas gripesinhas. O Ministerio da Saude avisa: vida com pouco estresse e' bom pra saude!

Helio, alem das compras do primeiro semestre substituiu a sandalia de uso diario e investiu em novo equipamento fotografico (nao computado nas despesas mensais). Mara, alem dos 2 vestidinhos, 2 camisetinhas e da saidinha de praia do primeiro semestre, comprou uma sandalhinha e mais 3 vestidinhos. Dos iates clubes e marinas que paramos, pagamos estadia em Vitoria, Ilheus e Salvador (media de R$ 50,00/mes).

O gasto medio mensal de US$ 800,00 esta' exatamente dentro do planejado. O que mais pesa no orcamento e' alimentacao (25%) e bar/restaurante (19%). As maiores despesas alem destas sao com cerveja R$ 150, cigarro R$ 140, manutencao do barco R$ 100 e material fotografico R$ 60.

Desde que saimos do Rio recebemos muitas mensagens de apoio e carinho dos amigos. Muitos confessam estar com inveja, cobica?, do nosso jeito de viver a vida. Nossa lista contem mais de 80 enderecos. Aqueles que nunca se manisfestaram, deem um alo dizendo se querem continuar recebendo nosso diario. Queremos tambem atualizar nossa lista, ja' que endereco na internet e' tao volatil quanto dinheiro no bolso de marujo vagabundo perambulando pela costa deste Brasilsao.

Bom, chega de numeros. Depois de um bom descanso e um fim de semana tranquilo no Aratu Iate Clube, nos despedimos dos tres patetas que voltaram para o Rio acompanhados do Ivan, Egle e Joao. Abastecemos o MaraCatu e fomos explorar o Rio Paraguacu, agora desde sua foz ate' a cidade de Maragogipe onde dizem ter uma festa de Sao Joao muito da boa, mas este sera' o proximo capitulo.

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DIÁRIO DE BORDO DO TAAI-FUNG II

(Número 27)

Sexta-feira 26.05.00 a Terça-feira 30.05.00. De novo em Salvador . Nossos planos de Cruzeiro são alterados.

 

A viagem de Ilhéus a Salvador com o Taai-Fung II tripulado por seu capitão e pelos novatos cruzeiristas Tarcísio e Mariana teve um pouco de tudo, o que no final foi bom para a estréia do casal nas viagens em mar aberto.

Logo ao deixarmos Ilhéus o mar estava um pouco agitado e o tempo instável com pancadas de chuva mas tínhamos um vento razoável de sueste, o que permitiu que velejássemos durante umas quatro horas. Nesse período Tarcísio e Mariana se revezaram entusiasmadamente no leme, demonstrando ambos boas qualidades náuticas.

À medida em que o dia avançava o vento foi enfraquecendo e rondando para leste e depois para leste/nordeste o que nos obrigou a ligar o motor para podermos cumprir nosso plano de estarmos em Salvador na manhã do dia seguinte. Com o motor ligado ninguém achou interessante permanecer guarnecendo o leme e o piloto automático foi chamado ao dever.

À noite o mar foi acalmando e o vento desaparecendo, obrigando-nos a prosseguir com o motor ligado. Os turnos de vigia foram organizados em duas turmas : uma constituída pelo capitão e a outra pela dupla Tarcísio-Mariana.

O nascer do dia nos encontrou na entrada da baía de Todos os Santos, sempre uma bela visão quando se chega pelo mar. Vencidas as correntezas e turbulências características da entrada da barra quando a maré está vazando, atracamos o barco no pier do Centro Náutico da Bahia, excelentemente localizado, bem em frente ao Mercado Modelo e ao Elevador Lacerda. O Maracatu que nos acompanhou nessa viagem, com Mara e Helio a bordo, acabara de chegar. Arrumamos o barco, tomamos um bom banho, dormimos um pouco e depois ficamos pelo pier, socializando com barcos vizinhos já conhecidos ou tratando conhecer novos camaradas, uma das atividades mais caras aos que estão em cruzeiro.

Aproximadamente às 10:00h chegaram, vindos do Iate Clube Aratu, onde estavam albergados no Yahgan, João Carlos (capitão do Yahgan) , Egle (que viera de ônibus desde Ilhéus no dia anterior) e o grupo recém chegado do Rio e carinhosamente alcunhado de "os três patetas" : José Feliciano, Manolo e Roberto Schurr, velhos amigos e velejadores.

 

O motivo da vinda dos três patetas era participarem de alguns dias de vagabundagem náutica em Salvador e, em seguida, acompanharem Ivan, Egle, Helio, Mara e João em uma sonhada e planejada caminhada pelas trilhas da Chapada Diamantina.

Para completar a festa, nesse mesmo fim de semana do dia 27.05.00, estava em Salvador para ministrar um curso de ergonomia a Maria Egle, irmã mais nova de Egle Maria.

 

Esse incrível exército de Branca Leone vagou pelos dias e noites de Salvador durante todo o fim de semana. Muita caminhada a pé, subidas e descidas no Elevador Lacerda, passeios pelo Pelourinho, acarajés, carurus, escondidinhos, arrumadinhos e demais quitutes regionais. No domingo à tarde Tarcísio e Mariana pegaram o ônibus de volta a Ilhéus onde teriam que retomar suas atividades profissionais rotineiras. Foram definitivamente inoculados pelo vírus do cruzeiro a vela.

Na Segunda-feira, dia 29.05.00, o Taai-Fung II com Ivan, Egle e os três patetas a bordo partiu para um brevíssimo cruzeiro à ilha de Itaparica com o duplo objetivo de proporcionarmos aos amigos uma bela velejada pela Baía de Todos os Santos e de lhes mostrar a histórica e bucólica Vila de Itaparica. O dia estava magnífico e velejamos durante toda a tarde sob um céu perfeito e uma brisa agradável, lançando âncora em frente à tranqüila vila no início da noite. Fomos à terra para tomarmos um refrescante banho no chuveiro público alimentado por água mineral que, dizem, tem propriedades rejuvenescedoras. Aproveitamos para jantarmos uma boa comida bahiana à base de frutos do mar em um dos diversos bares situados na orla noroeste da ilha.

Na terça-feira, com a luz do dia, visitamos a vila, seus lugares históricos e suas praias. À tarde partimos para o Aratu Iate Clube, contra um ventinho enjoado de sueste (enjoado porque contra a direção que tínhamos que tomar) a fim de nos reunirmos aos demais participantes da excursão à Chapada Diamantina.

Ao cair da noite pegamos uma poita em frente à sede do clube, na tranqüila Baía de Aratu e, para variar, fomos vagabundear e bater papo com outros desocupados na varanda do clube, aproveitando para comer uns frutos do mar, contar casos, tomar umas cervejas e nos prepararmos psicológicamente para a caminhada na Chapada Diamantina, nosso próximo programa.

Alteração nos planos de Cruzeiro.

O leitor mais preceptivo pode ter notado, ao longo dos diários que precederam ao presente, que havia sempre uma inquietude em Egle a respeito do cumprimento de nosso plano original de fazer um Cruzeiro de longa duração, implicando em nosso afastamento do país, das atividades profissionais e da família por um tempo considerável.

Entusiasmada desde o primeiro momento com a idéia de construirmos nosso barco e de o usarmos posteriormente para uma grande aventura, ela começou há algum tempo a perceber que o plano teria, como tudo na vida, seu lado negativo. Deixar o convívio do filho antes disso se tornar inevitável pelo curso normal dos acontecimentos, aceitar uma incerteza quanto ao futuro profissional quando estava se desempenhando tão bem nessa importante área e, além disso, enfrentar as eventuais agruras e riscos das longas travessias oceânicas, tudo isso foi se tornando uma carga grande demais para ser compensada pelas vantagens da vida livre (mas incerta) do cruzeirista de longo curso.

Assisti à sua luta para superar essas facetas negativas do cruzeiro e para cumprir nosso plano original. Sou testemunha de que tentou com todas as suas forças todos os caminhos que pudessem resultar numa mudança em sua avaliação. Para isso tomou decisões difíceis como pedir demissão de uma boa posição profissional com excelente possibilidade de progresso, desmontar a casa onde moramos por quase 20 anos e ajudar nosso filho Pedro, com 18 anos e recém ingressado na faculdade a fazer sua mudança e adaptação para a casa de sua avó. Incentivei essas ações por achar que havia uma real possibilidade de que, ao iniciar a vida no mar, a experiência poderia trazer novas informações e, eventualmente, resultar em uma avaliação mais positiva sobre as mudanças. De qualquer modo, achava que não deveríamos alterar nossos planos antes de termos ao menos vivenciado, por um período, a nova rotina.

A experiência de alguns meses provou que ainda não existiam condições para que ela seguisse com o plano original do cruzeiro e fosse feliz. Discutimos exaustivamente o assunto e senti sempre nela um sentimento de culpa com relação a uma ser o motivo de uma alteração em nosso planejamento inicial.

Quando ficou claro para mim que ela não poderia se sentir completamente feliz se insistíssemos na continuação do cruzeiro longo, propus que interrompêssemos a aventura e que retomássemos nossa vida, de toda maneira agradável, até que novas circunstâncias nos levassem a continuar essa ou, quem sabe, a partirmos para outras aventuras.

Fiz ver a ela que o cruzeiro, ou qualquer outro projeto de vida de média ou longa duração, sem a sua presença, não teria interesse para mim.

Assim, desde essa ocasião, decidimos modificar nossos planos como segue:

Faço questão de dar todos esses detalhes sobre os rumos de nossas vidas e de nossos planos futuros para vocês que acompanharam desde o início essa aventura, porque a reação positiva e o apoio que recebi quando anunciei minha aposentadoria da CSN para iniciar o cruzeiro me emocionaram profundamente. Senti, sinceramente, que a aventura passou a ser um pouco de cada um daqueles que a acompanharam, torcendo por nós.

Para vocês afirmo hoje, com toda a honestidade, que a mudança nos planos da viagem não diminuíram em nada o prazer de tê-los desenvolvido e executado durante esses 14 meses decorridos desde minha partida do Rio em Agosto de 1999 (estou escrevendo em novembro, os relatos estão um pouco atrasados como sempre).

Quando o cruzeiro terminar, em Março de 2001, o Taai-Fung II terá percorrido cerca de 3 000 milhas náuticas, visitado quase todos os portos interessantes entre Rio de Janeiro e Natal, além dos arquipélagos de Abrolhos e Fernando de Noronha. Posso garantir, sem medo de errar e sem falsa modéstia, que um dos principais objetivos da viagem foi alcançado: sinto-me uma pessoa melhor e acho que posso dizer o mesmo da Egle. As situações que vivemos, as pessoas que encontramos, os lugares que visitamos, as maravilhas naturais que testemunhamos e até os desconfortos pelos quais passamos e as dificuldades que enfrentamos e superamos, tudo isso ficará indelevelmente marcado nossa memória e será certamente uma fonte constante de satisfação.

A aventura não terminou (nem a do presente cruzeiro nem as que certamente ainda iremos imaginar e executar). Na verdade, para quem assim o quiser, ela nunca termina, apenas é constantemente reinventada.

Ao escrever essas palavras não pude deixar de me lembrar dos versos de Fernando Pessoa que usei quando anunciei inicialmente que iríamos partir em um cruzeiro longo no Taai-Fung II, uma questão que sempre nos devemos colocar e para a qual o poeta achou uma resposta magnífica : "... valeu a pena ? Tudo vale a pena se a alma não é pequena".

Continuarei a enviar os Diários do Taai-Fung II, com as notícias da viagem, até que ele retorne a seu porto de origem em Bracuí.

Até a próxima amigos !

(Número 26)

Quarta-feira 03.05.00 a sexta-feira 26.05.00. Ilhéus e arredores.


O mês de maio em Salvador já dá início ao período que os baianos chamam de "inverno", o que quer dizer que a temperatura permanece alta mas chove com maior freqüência. Na manhã da quarta-feira 03.05.00, ao preparar o Taai-Fung II para navegar até Ilhéus, percebi que o tempo estava instável, com algumas nuvens pesadas se formando na boca da baía de Todos os Santos e o vento soprando em rajadas irregulares. Conhecendo a aversão de Egle por velejadas com o barco muito adernado, subi a vela grande com a área reduzida ao segundo rizo, o que permitiria enfrentarmos confortávelmente qualquer rajada mais forte (a genoa, vela da proa, pode ter sua área rapidamente ajustada por um mecanismo enrolador, operável do cock-pit).


A cautela foi providencial pois assim que alcançamos a boca da barra o vento aumentou e uma chuva torrencial começou a cair, reduzindo a visibilidade a uns 30 metros. Egle sugeriu que voltássemos mas consegui convencê-la a prosseguir, não sem muito trabalho, com o argumento de que aquilo era o efeito de um cumulus nimbus e logo passaria. Cerca de quinze minutos depois a chuva diminuiu bastante, bem como o vento que agora se firmou em uns 12 nós, soprando de este-sueste. O mar estava um pouco agitado, com ondas de 1,5 m. Nessas condições nossa viagem até Ilhéus duraria umas 24 horas, em um contravento mais ou menos folgado, significando que provavelmente teríamos um pouco de balanço e borrifos ocasionais no convés.


Egle, que continuava não gostando das perspectivas da viagem, sugeriu, depois de algumas horas, que a interrompêssemos, entrando em Morro de São Paulo ou na baía de Camamu. Argumentei que as condições para irmos diretamente a Ilhéus não estavam tão más e acabei vencendo, mas não convencendo, minha imediata. Fiz o que achava mais adequado mas, mais uma vez, fui classificado (injustamente, a meu ver) de capitão teimoso e inflexível.


As condições de vento e de mar atrasaram um pouco nossa viagem mas, depois de 26 horas de navegação, chegamos a nosso destino. Chamamos o Iate Clube de Ilhéus pelo rádio e fomos, como de hábito, muitíssimo bem recebidos. O Iate Clube tem uma sede social muito bem construída, destacando-se, além das instalações para apoio náutico, um deck , situado a uns 5 metros sobre o nível do oceano, contendo o conjunto de piscinas e o restaurante. Ali, pelas condições de mar (há pouco abrigo para ventos de nordeste), não existem vagas para as embarcações junto ao cais. Os barcos, em sua maioria, ficam amarrados em poitas espalhadas na frente do clube. O clube mantém um serviço de bote a motor para o transporte entre as poitas e o cais de desembarque, funcionando 24 horas por dia.


O Taai-Fung II chegou sozinho a Ilhéus. O Yahgan havia permanecido em Salvador, com seu capitão ainda no Rio, e o Maracatu que havia ido a Porto Seguro e Cabrália para a comemoração dos 500 anos do descobrimento, tinha planos para passar por Comandatuba antes de se encontrar conosco em Ilhéus.


Depois de arrumarmos o barco e nos apresentarmos à secretaria do clube, tomamos um bom banho nos chuveiros da piscina e fomos comemorar mais essa etapa da viagem com uma boa cerveja gelada, olhando o mar e curtindo as cores de mais um entardecer magnífico. Enquanto estávamos naquela contemplação percebemos no horizonte a chegada de um veleiro parecido com o Maracatu. Depois de mais um quarto de hora pudemos confirmar a presença de Helio e Mara no convés e vimos também mais uma vela chegando (era o Mantra, de nosso amigo Helinho que estava fazendo um levantamento visando escrever um roteiro náutico para o Nordeste). Descemos as escadas até o cais do clube para darmos as boas-vindas aos amigos e ficamos sabendo que o Maracatu e o Mantra desistiram de entrar na barra de Comandatuba depois que viram a dificuldade que a grande lancha do hotel, mandada para mostrar-lhes o caminho, teve para ser controlada na arrebentação ali existente.


Conhecer Ilhéus depois de ter lido os romances de Jorge Amado, provavelmente seu filho mais ilustre, é certamente muito mais interessante. O centro da cidade e o porto antigo, situado no rio logo depois de uma barra bastante rasa e perigosa, estão repletos das cenas de Gabriela, Cravo e Canela. Ao passearmos por ali, nossa imaginação vai reproduzindo as passagens do livro, quase nos deixando vivenciar a história. O porto antigo onde havia constantes encalhes de navios na barra do rio, a fabulosa riqueza trazida pelo ciclo do cacau, a fachada do cabaré Bataclan, hoje uma ruína em fase de restauração, o prédio onde funcionava o bar Vesúvio do imigrante Nacib e onde Gabriela encantava os clientes com sua beleza, simplicidade e sensualidade , tudo nos lembra aquela época, magistralmente retratada por Amado.


O centro de Ilhéus fica a uns 3 km do clube náutico, podendo ser alcançado por uma avenída ao longo da praia ou por um caminho paralelo ao primeiro, por onde trafegam os ônibus. Durante as três semanas em que estivemos em Ilhéus percorremos a pé esse caminho até o centro pelo menos uma vez por dia, o que nos supria do exercício necessário à manutenção de nossa forma física.


Há cerca de dez anos uma praga conhecida pelo nome de "vassoura de bruxa" começou a atacar os cacaueiros do sul da Bahia e, a exemplo do que ocorreu em outras áreas cacaueiras do mundo, vem devastando as plantações, tornando antieconômica a atividade que um dia sustentou um estilo de vida de fausto e desperdício. É impressionante, hoje, vermos a enorme quantidade de hotéis e pousadas existentes em Ilhéus, uma grande maioria das quais sendo antigas residências de donos de lavouras de cacau que agora, na condição de "novos pobres", tentam obter uma forma alternativa de sustento.


Para combater a avalanche de empobrecimento causada pela falência da atividade cacaueira, o governo local trata de investir em turi