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CABO
HORN 35 MKII
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BOAS NOTÍCIAS
Como acontece com todas as pessoas, quando recebemos notícias
boas, o incentivo que isso nos trás nos faz desejar
fazer cada vez melhor nosso trabalho. Foi exatamente isso
o que aconteceu essa semana, quando recebemos um e-mail de
nosso cliente australiano do novíssimo projeto Pantanal
25. Suas gentis palavras nos deixaram contentes por sabermos
que quando vendemos um projeto para fora, existe sempre uma
expectativa por parte do comprador quanto à qualidade
do material que irá receber. Todavia, para nossa satisfação,
suas palavras foram essas:
Recebi as plantas na segunda feira, tendo sido a entrega ultra-rápida,
menos que cinco dias. Aprovo as pequenas mudanças nos
desenhos e os melhoramentos. Não sou um expert em projetar
barcos, no entanto tenho muita experiência em manusear
desenhos arquitetônicos em minha oficina de marcenaria.
Por isso aprecio o enorme esforço que sua equipe realizou
para aclarar dúvidas com chamadas de desenho muito
bem detalhadas.
Um sincero obrigado pelo esplêndido livro que vocês
incluíram. (Mandamos para ele de presente um livro
turístico sobre o Pantanal.) Devo admitir que não
sabia o significado do nome Pantanal antes de fazer uma busca
no Google. Depois de ler o livro fiquei muito impressionado
com a beleza da região. Já está escolhido
o nome do barco. Irá se chamar "Jaburu".
Ele vem a calhar por duas razões: Primeiro por ser
o símbolo do Pantanal e em segundo lugar por existir
na Austrália um primo próximo desta ave chamado
"Jabiru". Eu acho que Jaburu é um nome bem
condizente. Saudações.
Nessa mesma última semana de julho vendemos um projeto
do Multichine 26C para Istambul, sendo a primeira vez que
fazíamos negócio com a Turquia. Nosso cliente
nos mandou em anexo uma reportagem publicada na principal
revista de iatismo daquele país. Ele nos informou que
constavam da matéria grandes elogios ao nosso modelo
Multichine 28. Na prática vamos ter que confiar na
palavra dele, uma vez que tudo que pudemos verificar no artigo
foi a palavra Multichine 28 repetida várias vezes.
A melhor constatação, no entanto, foi verificar
que atingíramos o número expressivo de trinta
paises com os quais já fizemos algum negócio.
Só para nos deixar com a cabeça um pouco inchada,
segue a lista destes paises:
Américas: Canadá, Estados Unidos, México,
Santa Lúcia, Venezuela, Peru, Brasil, Paraguai, Uruguai,
Argentina e Chile.
Europa: Inglaterra, Finlândia, Alemanha, Bielo Rússia,
Rússia, Holanda, França, Portugal, Espanha,
Ilhas Canárias, Itália, Grécia, Croácia,
Sérvia e Turquia.
Ásia: Coréia e Malásia.
Oceania: Austrália e Nova Zelândia
Desde que escrevemos esta notícia
já temos dois paises para acrescentar: Suiça
e Emirados Árabes Unidos.
Outro motivo que nos deixa orgulhosos é a confiança
que conquistamos entre os cruzeiristas brasileiros. Tanto
quanto sabemos, nenhum veleiro brasileiro deu a volta ao mundo
com um barco de projeto nacional que não tenha sido
projetado por nós, enquanto já temos quatro
barcos cujos comandantes escolheram nossos modelos para realizarem
esse feito. Também no Cruzeiro da Costa Leste que recém
partiu da cidade do Rio de Janeiro, identificamos seis barcos
nossos. São eles:
Kapiao, Samoa 27 de Inácio Doria Pupo.
Aya, Cabo Horn 40 de Thadeu Rache Corseuil.
Pélagos, Multichine 36 de Artur Barrio.
Serenata, Multichine 36 de Marcelo Brasil
Taai-Fung II, Samoa 29 de Ivan Perdigão.
Gênesis, Samoa 29 de Victor Risi.
Alguns desses barcos são veteranos da regata Recife-Fernando
De Noronha, inclusive tendo sido campeões em suas classes,
como foi o caso do Kapiao e do Aya. Como todos estão
subindo a costa para participar desta regata, aproveitamos
para desejá-los muito boa sorte.
Para ilustrar nosso estado de espírito cem por cento
sonhador, mostramos a foto que mais nos emociona: O Cabo Horn
35 Utopia de Marcos Cianfflone durante a sua volta ao mundo
ancorado em uma paradisíaca ilha, quando de sua passagem
pelo Pacífico Sul.
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VOLTA AO MUNDO COM CABO HORN 35 UTOPIA
Cabo Horn 35 Utopia está de volta de sua fantástica
volta ao mundo e Marco Cianflonne nos cede estas fotos de sua
viagem para nos deixar com água na boca.
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CABO HORN 35 UTOPIA COMPLETA VOLTA AO MUNDO
Quando levantei âncora na baia do tarafal, na ilha santiago,
em cabo verde, no dia 08/10/05, com destino a F. Noronha, eu
não fazia a menor idéia do que me esperava.
Os 3 primeiros dias de viagem, ainda dentro da zona dos alíseos,
foram tranquilos, mas antes do esperado, ainda na latitude 10°n,
entrei na zona de convergência intertropical. São
dias chuvosos que se alternam com dias bons, mas sempre com
aguaceiros pesados.
Na noite do dia 11/10, um desses aguaceiros me pegou de cochilo.
Ventos com mais de 50 nós. O utopia com a vela grande
no terceiro rizo e a genoa meio aberta, entra no vento com violência.
Na tentativa de aliviar a carga na velas, tento arribar no timão,
o cabo de aço da transmissão não aguenta
e se parte. Não tenho escolha. Solto a escota da genoa
e tento enrolar o mais rápido possível, mas os
rasgos são inevitáveis.
Tudo passa em 15 minutos. Fico à deriva até amanhecer
descansando. Ligo o motor com o piloto automático e começo
a seguir. Corto um pedaço de cabo de aço de uma
adriça qualquer e instá-lo na transmissão.
Perfeito. A genoa rasgada desce e sobe a genoa ii, vela de stay
novinha. A viagem continua, mais motorando que velejando, sempre
dentro da zona de convergência.
Dia 17/10. Às 18:20, na posição n 01°21´
w 28° 53´, a 17 milhas nne dos penedos de são
pedro e são paulo e 375 milhas a nne de F. Noronha, acontece
o inesperado.
O utopia começa a levar golpes por baixo. A água
é turbulenta ao redor. Já sei o que é,
só não quero acreditar.
A primeira baleia, entre 5 e 6 metros, emerge no lado de boreste,
mas não é ela. A segunda baleia, do mesmo tamanho,
que está sob o casco, emerge da popa, praticamente não
se afasta, gira o corpo 180° e vem para mais um choque,
e simplesmente entra com o focinho no hélice, que está
girando a 2000 rpm. O veleiro estremece de novo, o motor trava
e els recua um pouco assustada, com um corte enorme na face,
e vai se afastando, e o utopia também.
Abro as tampas dos porões em busca de vazamentos. Com
excessão do eixo travado, tudo parece ok, mas sem chance
de fazer uma avaliação da real situação
do casco abaixo da linha d´água, mando mensagem
ao meu irmão dado.
Ele então contacta a marinha do brasil, que põe
de prontidão o navio patrulha graúna, que navegando
por aquelas águas. Este solicita mensagens de posição
a cada 12 horas.
A dificuldade agora é outra. Com minha posição
extremamente à oeste, ainda tenho que passar o equador,
ainda a 75 milhas, e entrar logo nos alíseos de sueste,
pois a corrente sul equatorial vai derivando pro oeste, mas
a calmaria com chuva derruba o ânimo. Já faço
planos para chegar em fortaleza.
Cruzei o equador no dia 19/10, às 09:15h, na longitude
w 31°. Começa a soprar um sueste bem fraquinho. É
o começo dos alíseos.
A missão é dura. São 240 milhas de contravento,
não posso perder nem 1 grau.
O veleiro bate muito nessa mareação, e receio
pelo casco atingido pela baleia. Junto com a ansiedade de chegar,
são horas de silêncio prudente.
Dia 20/10, à noite, recebo a mensagem - "navio patrulha
graúna na sua popa, vindo dos penedos para F. Noronha".
Os ventos alíseos de sueste agora sopram com honestidade.
A genoa ii faz um trabalho brilhante.
Dia 21/10 amanheceu com cara de chegada. O mar está com
a cara do atlântico sul, o mar do brasil, sol, vento fresco,
os primeiros atobás sobrevoam o utopia. A mensagem para
meu irmão - "F. Noronha a 44 milhas. A gente se
vê hoje à tarde no Brasil" revela o estado
de espírito da tripulação.
Começo a esticar o pescoço a cada 5 minutos, tentando
avistar um pedacinho de brasil, capaz de fazer meu coração
explodir de alegria. E isto acontece às 10:06, na distância
de 27.4 milhas.
Começo a rir sozinho..... Normal, são efeitos
colaterais de uma espera bem sucedida. Noronha vai crescendo
na proa.
Manobrando somente a vela, a ãncora toca no fundo da
baia sto antônio às 16:00h do dia 21/10/05, depois
de 14 dias e 1374 milhas. Cheguei no brasil.
A circunavegação ao redor do globo terrestre termina
aqui, pois F. Noronha é o primeiro lugar, onde, navegando
de leste para oeste, a âncora cai pela segunda vez.
Os números soam bem. De F. Noronha para F. Noronha foram
3 anos 9 meses e 7 dias, 31.268 milhas e 32 países visitados.
Explicar o sentimento é dificil. Fico calado, somente
olhando a beleza de Noronha ao meu redor. Deço o bote
na água, a administração do porto me aguarda.
Desembarco na praia e beijo o chão.
O navio patrulha graúna chega na madrugada do dia seguinte.
Faço uma visita de agradecimento e passo a manhã
a bordo na companhia do capitão. Agora, na frente do
computador, eu poderia filosofar por 10 páginas, mas
gosto de me expressar com poucas palavras.
Para a família e amigos são fotos, filmes e estórias.
É o tesouro que posso dar a eles.
Pra mim já não é tão importante,
prefiro abraçar um outro tesouro.
No coração, na alma e na memória ficam
as marcas de uma grande viagem.
Épocas de lições e grandes provações,
tempos em que o medo, a solidão e a saudade foram inimigos
do dia a dia, mas condição essencial para "quebrar
a casca do ovo".
Não dá mais pra ser a mesma pessoa.
Quanto ao utopia, mergulhei na chegada em Noronha para inspecionar
o casco.
Sem furos ou rachaduras, leme ok, mas o eixo, pé-de-galinha
e hélice todos empenados. Ainda não está
decidido onde será sua casa de repouso. Se conseguir
tirar o barco da água, em Recife ou Salvador, para desempenar
o que está torto, aí tento descer até São
Paulo. Caso contrário, ele fica um tempinho pelo nordeste.
Tá limpo, ele fez sua parte.
Bom, como estou me sentindo depois de tudo isso? Resposta fácil
- "o homem mais rico do mundo". Afinal de contas,
esse foi o meu sonho - "um casco, uma vela, ver o mundo
com meus próprios olhos. Voltar pra casa, abraçar
meus pais, meus irmãos, minha família, meus amigos
e me sentir o homem mais rico do mundo".
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CABO HORN 35 UTOPIA SOBREVIVE AO TSUNAME.
O
Cabo Horn Utopia, de Marcos Cianflone, definitivamente tem
sete vidas. Não é que ele estava ancorado em
Phuket, Thailândia no dia do Tsuname. Quando este mesmo
barco se chamava Guruçá já escapou de
um dos furacões mais ferozes que já ocorreram,
o famigerado Louis, que assolou a Ilha de Saint Martin. Agora
então é que a fama não vai mais largar
a classe Cabo Horn 35. Abaixo segue o relato que o Marcos
nos mandou por e-mail.
" Eram 09:30, o Utopia ja estava ancorado
em Kata Beach, Koh Phuket, na Thailandia, ha 5 dias.
Eu estava costurando uma bandeira, quando o alarme da ancora
comecou a tocar. Sai la fora e vi os veleiros girando para
todas as direcoes. Os velejadores se olhavam sem entender
nada. So comecei a perceber a encrenca quando olhei pro costao
das pedras e vi um fluxo de agua invadindo a baia com uma
forca indescritivel. Olhei pra praia, e as pessoas corriam
para detras dos muros dos hoteis. A cena foi dantesca!!!!
O Oceano estava engolindo a praia. A ficha finalmente caiu,
se tratava de um efeito de atividade sismica. Levantei a ancora
depressa e me afastei com dificuldade, pois o Utopia nao conseguia
vencer o fluxo de agua mesmo com 3000 rotacoes no motor. Todos
os outros fizeram o mesmo e nenhum veleiro foi perdido(em
Kata Beach).
Me afastei uns 400 metros e assisti de olhos arregalados o
que nunca pensei que fosse ver um dia. O mar engoliu a praia,
subiu quase 6 metros em menos de 3 minutos, nao se via a praia,
o mar estava no nivel das arvores, depois recuou muito alem
do limite da mare seca, depois engoliu a praia de novo e retornou,
tudo isso muito rapido. Esses 2 primeiros fluxo e refluxo
foram os mais violentos, depois sucedeu mais 3 vezes, com
menos forca. Uma onda reversa voltava em direcao ao mar a
cada retorno das aguas. Quando tudo acalmou um pouco, o cenario
era desolador, tudo que se pode imaginar flutuava nas aguas
da baia: mesas, cadeiras, armarios, pranchas de windsurf,
geladeiras, guarda-sois, almofadas, sacos de pao, cachos de
coco, pes-de-pato, cilindros de mergulho, roupas de neoprene
etc...
Em toda costa oeste de Koh Phuket via-se dezenas de veleiros
sem saber pra onde ir, nao sabendo se ja era seguro retornar,
pois havia rumores que outra vez aconteceria as 17:00.
Retornei pra ancoragem as 16:00, porem mais afastado, joguei
o ferro em 17 metros(estava em
8 metros quando tudo aconteceu). Os mais receosos deixaram
o veleiro e foram para um hotel, outros ficaram a deriva na
isobatimetrica de 50 metros a noite toda e so ancoraram novamente
na manha seguinte. Foi uma pena, pessoas pobres que tinham
kiosques a beira mar para vender pro turista, esses perderam
tudo.
No dia seguinte desci com o bote na praia e vi os estragos....mais
tristeza. Neste mesmo dia 27/12 desloquei o Utopia para o
outro lado da ilha, parei numa marina para abastecer de agua
e diesel, e somente hoje(28/12) fiquei sabendo de tudo, inclusive
a tragedia em Sri Lanka. O que aconteceu na
Thailandia foi so um pelinho do cotovelo do tsunami. Tudo
ficou sem graca, os turistas foram embora,e a praia(Ao Patong)
onde eu ia passar o ano-novo esta aos pedacos.
Ja fiz a saida do pais e amanha(29/12) parto pra India, meu
ano-novo sera no meio do Oceano.
Indico. Guardei uns jornais locais e mostrarei a todos quando
chegar.
Obrigado a todos pelo carinho e pela preocupacao de todos,
pode preparar o gelo e o carvao, pois
em novembro estou chegando cheio de estorias.
GRANDE ABRACO E FELIZ ANO-NOVO A TODOS MARCAO
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CABO HORN 35 UTÓPIA
Depois do tsunami que balancou a Asia, cancelei meu ano-novo
em Koh Phuket, e parti da Thailandia no dia 30/12, com destino
a Cochin, na India, 1500 milhas de distancia.
Segue o relato do que aconteceu:
DIA 01/01 - 01:00h, uma nuvem carregada de ventos fortes
e aguaceiro dao um jibe na vela grande, com bastante violencia,
produzindo 2 rasgos consideraveis na altura da segunda cruzeta.
Sem chance de voltar 250 milhas pra tras contra o vento
e a corrente.
Sigo em frente so com a genoa, velocidade 5 kt, esta otimo.
DIA 03/01 - O piloto-automatico hidraulico nao responde.
Removo os 250 litros de agua em garrafoes que estao na cama
de popa, para dar acesso ao compartimento do piloto e jogo
tudo la pra frente. A forca do piloto arrancou um pedaco
do quadrante do leme(de aluminio) no qual esta fixao. Vai
ser preciso soldar uma parte do quadrante, mas so na India.
Tudo bem, tenho um grande aliado; o leme-de-vento, um piloto-automatico
mecanico, que usa a
forca do proprio vento e a forca hidrodinamica da agua do
mar.
Somente com a genoa e o leme-de-vento, as medias de velocidade
estao acima dos 5kt.
Comeco a fazer o reparo da vela grande, o qual demora 3
dias para ser concluido.
DIA 05/01 - Escuto barulho de agua nos poroes. O Utopia
faz muita agua, as 2 bombas eletricas de
esgotamento nao param de trabalhar. Comeco a abrir todas
as tampas dos assoalhos, procurando o
grande vazamento. Achei!!! A gaxeta( especie de barbantes
que envolvem e vedam o eixo do motor desapareceram. Rios
de agua entram por ali. Tenho que remover aqueles 250 litros
de agua ainda mais pra frente, os garrafoes estao por todos
os lados. Comeco o ingrato trabalho de trocar a
gaxeta, pois o baco teo que estar parado para o eixo nao
virar, mas o mar nao para de balancar. A mangueira de agua
por onde passa o eixo eh estrangulada com uma bracadeira
de aco inox, para estancar o vazamento, o eixo eh desconectado
da flange do motor, e a gaxeta eh trocada. Foi 1 hora de
trabalho, tudo normal.
O tempo eh nublado.
O desafio agora eh manter vigilancia no trafego de navios,
pois entrei na rota dos monstros que vem e vao na rota Suesz/Singapore/Suez.
Sao aproximadamente 25 a 30 navios por dia, e a noite nao
da
pra relaxar.
DIA 06/01 - Mau tempo, ventos fortes de manha, Utopia voa
baixo a 7 kt, so com a genoa. Ao meio-dia o vento acaba,
mas a chuva nao, pesswima visibilidade, radar ligado o tempo
todo. A noite a chuva da uma tregua, o vento volta , e a
vela grande devagarinho comeca a retomar seu lugar.
Muitos navios!!! As vezes tenho qur ligar o motor para ajudar
a me desviar deles.
DIA 07/01 - Ventos excelentes o dia todo, 25 a 28kt. O Utopia
faz 79 milhas em 12 horas. O tempo
comeca a abrir. Olho para o remendo da vela grande e vejo
um pequeno furo. Vela embaixo para
novo reforco. Esta feito, mas deixo a vela grande arriada,
o Utopia nao esta precisando dela agora.
Vem a noite, o vento continua firme. Os navios ja nao me
preocupam mais, pois apos 4 dias me desviando, agora so
bato o olho, e pela composicao das luzes, ja sei a trajetoria
que seguem.
DIA 08/01 - Sao 08:00h, estou passando o traves de Galle,
no Sri Lanka. A massa de terra acaba com o vento, tenho
que motorar por 12 horas(sem piloto-automatico), ate atingir
o Golfo de Mannar, que separa a India do Sri Lanka, uma
faixa de mar de vento nordeste canalizado. O vento
entra com tudo, 25 a 30 kt, o Utopia engole 200 milhas nas
proximas 36 horas.
DIA 09/01 - A vela grande nao aguenta e um dos remendos
se abre todo. Vela grande embaixo e vamos so de genoa de
novo.
DIA 10/01 - O Utopia se aproxima da costa da India e o vento
desaparece.
Assi sendo, me restou ficar no leme nas proximas 34 horas
num dia e noite bonitos e mar espelho.
DIA 11/01 - 16:00, o Utopia esta ancorado em frente ao Port
Control Building, em Cochin, depois de 12.5 dias e 1521
milhas navegadas,
Ufa!!!!! O cansaco eh grande, o alivio ainda maior, e a
satisfacao eh ENORME.
Eu poderia dizer que esta foi a pior travessia ate agora,
mas prefiro dizer que ESTA FOI A MAIOR
PROVACAO ATE AGORA.
A escala na India agora ficou menos turistica, e mais tecnica,
varios reparos para fazer, pois a proxima travessia sao
1860 milhas ate o Porto de Aden, no Yemen, porta de entrada
do Mar Vermelho.
GRANDE ABRACO A TODOS MARCAO
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CABO HORN 35 UTOPIA SOBREVIVE AO TSUNAME.
O
Cabo Horn Utopia, de Marcos Cianflone, definitivamente tem
sete vidas. Não é que ele estava ancorado em
Phuket, Thailândia no dia do Tsuname. Quando este mesmo
barco se chamava Guruçá já escapou de
um dos furacões mais ferozes que já ocorreram,
o famigerado Louis, que assolou a Ilha de Saint Martin. Agora
então é que a fama não vai mais largar
a classe Cabo Horn 35. Abaixo segue o relato que o Marcos
nos mandou por e-mail.
" Eram 09:30, o Utopia ja estava ancorado
em Kata Beach, Koh Phuket, na Thailandia, ha 5 dias.
Eu estava costurando uma bandeira, quando o alarme da ancora
comecou a tocar. Sai la fora e vi os veleiros girando para
todas as direcoes. Os velejadores se olhavam sem entender
nada. So comecei a perceber a encrenca quando olhei pro costao
das pedras e vi um fluxo de agua invadindo a baia com uma
forca indescritivel. Olhei pra praia, e as pessoas corriam
para detras dos muros dos hoteis. A cena foi dantesca!!!!
O Oceano estava engolindo a praia. A ficha finalmente caiu,
se tratava de um efeito de atividade sismica. Levantei a ancora
depressa e me afastei com dificuldade, pois o Utopia nao conseguia
vencer o fluxo de agua mesmo com 3000 rotacoes no motor. Todos
os outros fizeram o mesmo e nenhum veleiro foi perdido(em
Kata Beach).
Me afastei uns 400 metros e assisti de olhos arregalados o
que nunca pensei que fosse ver um dia. O mar engoliu a praia,
subiu quase 6 metros em menos de 3 minutos, nao se via a praia,
o mar estava no nivel das arvores, depois recuou muito alem
do limite da mare seca, depois engoliu a praia de novo e retornou,
tudo isso muito rapido. Esses 2 primeiros fluxo e refluxo
foram os mais violentos, depois sucedeu mais 3 vezes, com
menos forca. Uma onda reversa voltava em direcao ao mar a
cada retorno das aguas. Quando tudo acalmou um pouco, o cenario
era desolador, tudo que se pode imaginar flutuava nas aguas
da baia: mesas, cadeiras, armarios, pranchas de windsurf,
geladeiras, guarda-sois, almofadas, sacos de pao, cachos de
coco, pes-de-pato, cilindros de mergulho, roupas de neoprene
etc...
Em toda costa oeste de Koh Phuket via-se dezenas de veleiros
sem saber pra onde ir, nao sabendo se ja era seguro retornar,
pois havia rumores que outra vez aconteceria as 17:00.
Retornei pra ancoragem as 16:00, porem mais afastado, joguei
o ferro em 17 metros(estava em
8 metros quando tudo aconteceu). Os mais receosos deixaram
o veleiro e foram para um hotel, outros ficaram a deriva na
isobatimetrica de 50 metros a noite toda e so ancoraram novamente
na manha seguinte. Foi uma pena, pessoas pobres que tinham
kiosques a beira mar para vender pro turista, esses perderam
tudo.
No dia seguinte desci com o bote na praia e vi os estragos....mais
tristeza. Neste mesmo dia 27/12 desloquei o Utopia para o
outro lado da ilha, parei numa marina para abastecer de agua
e diesel, e somente hoje(28/12) fiquei sabendo de tudo, inclusive
a tragedia em Sri Lanka. O que aconteceu na
Thailandia foi so um pelinho do cotovelo do tsunami. Tudo
ficou sem graca, os turistas foram embora,e a praia(Ao Patong)
onde eu ia passar o ano-novo esta aos pedacos.
Ja fiz a saida do pais e amanha(29/12) parto pra India, meu
ano-novo sera no meio do Oceano.
Indico. Guardei uns jornais locais e mostrarei a todos quando
chegar.
Obrigado a todos pelo carinho e pela preocupacao de todos,
pode preparar o gelo e o carvao, pois
em novembro estou chegando cheio de estorias.
GRANDE ABRACO E FELIZ ANO-NOVO A TODOS MARCAO
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CLASSE CABO HORN 35 CONTINUA SE EXPANDINDO
Depois
de Navarra, Espanha, agora também teremos um Cabo Horn
35 construído em Busan, Coréia do Sul. Somando-se
com o Guruçá que se encontra na Austrália,
a classe vai cada vez mais fincando um pé lá
fora, o que provou ser o modelo admirado por velejadores nos
mais diferentes países.
Nosso construtor coreano optou por fazer o casco em fibra
de vidro, empregando C-Flex como base da laminação.
Esse produto é super interessante para a construção
de um único barco em fibra de vidro. Trata-se de um
feixe de varinhas de fiberglass, como se fossem finos caniços
de pescaria, unidos por costuras transversais. As varinhas
tem um diâmetro de 3 mm e o feixe é fornecido
em forma de bobinas com aproximadamente 300 mm de largura
e 75 metros de comprimento. É facílimo se flechar
um casco com esse material. Basta grampear sobre as balizas
construtivas esse feixe, como se fosse um sarrafo e encostar
aresta com aresta, o feixe seguinte, até que o casco
esteja todo fechado. Como
o material é bastante flexível, ele se amolda
às balizas e os feixes se encostam um no outro sem
dificuldades. A oportunidade de especificar o projeto também
para esse método construtivo nos deixou entusiasmados,
e com o que aprendemos sobre esse processo construtivo nos
animou a recomendá-lo para a construção
artesanal em fibra de vidro.
Com o Cabo Horn 35 de Navarra sendo construído em madeira
moldada, o processo mais deslumbrante de se construir um casco,
vamos enriquecer a flotilha de Cabo Horns, espalhando-a mundo
afora.
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GENTE DO MAR
DESAFIO DE ARTESÃO
(Extraído da Revista Náutica)
Aos 63 anos, 40 de profissão, o marceneiro
Matozinho Alvarenga, uma das figuras mais respeitadas de Itabira,
(MG), está chamando a atenção na cidade
em que mora por causa de um trabalho inédito em sua
carreira: fazer um barco. A encomenda do amigo Flávio
Tonon, médico na mesma cidade, é um Cabo Horn
35 ( 10,6 m ), de cedro rosa, veleiro de cruzeiro oceânico
projetado por Roberto Barros (Cabinho). Mas esta não
foi a maior novidade. O trabalho acabou levando seu Matozinho
a conhecer o mar e ver de perto a construção
de barcos em pleno Rio de Janeiro. Agora, ele escalou amigos
e filhos para ajudar a lixar o casco e
prevê a entrega para daqui a um ano. "É
um desafio, um trabalho melindroso, mas para Deus nada é
impossível", afirmou.
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EU E O FURACÃO
Extrato de artigo publicado pela Revista
Náutica
História do Mar em depoimento ao jornalista Célio
Albuquerque
Quem está no Brasil jamais vai saber
se preparar para um "furacão". Assim o capixaba
Fausto Pignaton resume a experiência vivida ao ser surpreendido
pelo Luis. Sim, ele estava lá quando o furacão
assolou a ilha de Saint Martin, no nordeste do Caribe, em
setembro de 1995. Foi uma tragédia. Dos 11.800 barcos
que freqüentavam a região, pouco mais de uma centena
escapou. Entre eles, o Guruçá.
Aos 12 anos , Fausto estava realizando o sonho de cruzeirar
num barco construído por ele
mesmo. Cinco anos antes, havia relegado a segunda plano sua
Fábrica de caiaques, em Vitória (ES), para dedicar-se
ao projeto. Adquiriu a planta do veleiro Cabo Horn 35, desenhado
por Roberto Barros Yacht Design, e foi à luta. As aulas
de vela só vieram com a construção em
andamento, mas logo que o Guruçá ficou pronto,
em setembro de 1993, Fausto lançou-se ao mar. Já
no verão de 1994, ele partia para o Caribe. A bordo
do Guruça estava também sua mulher, Inês,
que voltou ao Brasil pouco depois. "Fausto sempre quis
estar perto de um furacão", diz Inês. "Mas
não imaginou o que significaria". Melhor deixar
o próprio Fausto contar a sua história....
No dia 23 de agosto, Inês ouviu pelo rádio que
uma tempestade poderia passar por Saint Martin, onde estávamos.
Comecei a observar o barômetro e vi que a pressão
havia caído e se estabilizado em 105 milibares. Notei
que as ondas, já grandes, aumentavam ainda mais. Dia
seguinte, fomos para Simpson Bay, laguna bem protegida, no
interior da ilha. Logo veio a informação: o
Íris, nosso primeiro furacão, havia passado
em uma ilha perto da gente. Não foi tão terrível
assim: com duas âncoras, suportamos bem - embora outros
barcos subissem nas pedras.
Depois da passagem do Íris, o vento continuou rondando.
Dia 25, Inês voltou ao Brasil, e logo depois a pressão
caiu ainda mais. Era outro furacão. Desta vez, o Karen,
que passou longe. De brincadeira, chamaram o Íris de
"sapatão", porque partiu com o Karen. Pois
é, o pessoal está tão acostumado com
furacões, que faz até piada. Não era
o meu caso.. Dia seguinte, 1 de setembro, a pressão
caiu para 105 milibares trazendo grandes ondas. Notei um movimento
grande de veleiros em direção 'a laguna. No
píer, as pessoas arrumavam as coisas com pressa. Pensei;
deve ser o aviso de alguma tempestade. Toda vez que isso acontece
é uma correria. Mas desta vez havia algo diferente
no ar.
Trabalhando no Guruçá, perto da Marina Manchester
Field, percebi que minha amiga Kelly arrumava seu King Silver
apressadamente. "Passei" um rádio e ela me
informou que o Luis estava a 115 milhas e vinha em nossa direção:
"Segundo os boletins metereológicos, há
98% de chances do furacão passar em Saint Martin, com
o olho viajando entre Saint Martin e Saint Barts", disse
ela. Sem espera por um segundo aviso, segui para a laguna
Simpson. Ao chegar no mar aberto, vi muitos barcos com o mesmo
objetivo. Percebi que o bicho ia pegar...
Vem aí o Luis... Marinheiro de primeira viagem, eu
não tinha noção do que são ventos
de 100 nós. Notei que Martin, outro amigo, dono do
Princess Spa - belo veleiro que acabou perdendo no furacão
-, andava preocupadíssimo. Seu barco já estava
com quatro ancoras e, mesmo assim, ele queria arranjar uma
quinta. Ao chegar na laguna, mais problemas: os barcos pequenos
tinham que ficar de fora. Só era permitida a entrada
dos grandes. Ali, o poder da grana é absoluto: você
vale pelo que tem.
Só consegui entrar 'as 7 da noite. Ainda mais problemas:
como poderia, no escuro, fazer um fundeio seguro? Não
deu. As pessoas ancoravam de qualquer forma, para no outro
dia fazer o fundeio ideal. No fim da tarde do dia 1, o barômetro
ainda marcava 105 milibares, mas o vento estava crescendo
e alcançava 25 nós. Era o furacão chegando,
embora eu nada pudesse observar da laguna, a não ser
as variações do barômetro e o vento entrando
de nordeste - o que confirmava a passagem do olho. Como o
movimento do furacão é anti-horário,
ele deveria chegar nor-nordeste, depois rondando no sentido
oeste.e sudoeste para, em seguida, entrar sul novamente.
Na segunda-feira, saí e só voltei 'à
tarde. As melhores áreas de fundeio já estavam
ocupadas. Resolvi ancorar perto de um morro, onde imaginei
que estaria protegido dos ventos nor-nordeste. Mergulhei e
preparei as âncoras. Nem reparei direito no fundo. Forcei
o motor para 3.000 rpm e a âncora não se mexeu.
Satisfeito, resolvi aceitar um convite para jantar num barco.
Fui de bote. Mas foi difícil retornar. O bote quase
virava com o vento, passando dos 25/30 nós. Imaginei
que ficaria nisso. Pura ingenuidade. Me disseram que aquilo
era apenas aperitivo: o furacão só chegaria
na quarta-feira.
Resolvi aproveitar para tirar um bom sono. Sabia que, assim
que o furacão entrasse, eu teria que ficar noites sem
dormir, cuidando do barco, da âncora. Mas não
tinha nenhuma noção do que são 100 nós
de vento. As pessoas que vivem no Brasil nunca vão
se preparar o suficiente para um furacão. Quem não
conhece pode achar que exagero. Mas a verdade é que
uma pessoa que nunca vivenciou só vai se safar se imitar,sem
discutir, o procedimento de alguém que tenha vivido
experiência similar.
Sem controle - A 1 hora da manhã os ventos já
alcançavam 45 nós e o Luis ainda nem havia chegado!
Pensei comigo : perdi o Guruça, já imaginando
o barco lutando contra o furacão, que geralmente dura
3 a 4 dias. Liguei o motor e tentei fundear mais próximo
ao tal morro. Imaginei: como fica ao norte, o vento bateria
nele, subiria e me deixaria no vácuo, a sotavento.
Como o fundo ali tinha muita lama, a manobra foi facilitada.
Com o motor a 3.400 rpm, o barco permanecia firme, mas eu
sabia que, se aumentasse para 3.800, ele se soltaria. O que
estava na iminência de acontecer. Não deu outra:
apesar de toda a minha precaução, ainda no início
do furacão, o Guruçá foi um dos primeiros
a se soltar.
Mais tarde, tentei aproximar mais o barco do morro para jogar
a âncora novamente. Mas não tinha jeito, não
segurava. Eu jogava âncora e o vento me trazia. A âncora
unhava, mas era como se fosse um arado, correndo pelo fundo.
Assim, eu tinha que desviar dos outros barcos para não
bater. Para evitar colisões, eu usava o motor e navegava
pra lá e pra cá. Mesmo assim, não conseguia
controlar o barco. O único jeito era dar popa ao vento
e retornar rápido. Mas numa das tentativas, o hélice
enganchou o cabo da âncora. Outro problemão.
Fiquei com uma âncora na proa e outra presa na hélice.
Pior: não era um lugar apropriado para agüentar
a pressão de um vento forte. Se por acaso unhassem
as duas âncoras, o eixo do hélice inevitavelmente
quebraria e o Guruçá faria água. Cortei
o cabo que estava preso no bico de proa mas não adiantou
nada: ele não soltou do hélice. Tive de mergulhar,
com quase 50 nós de vento! Enfim, consegui livrar o
hélice e recuperei a mobilidade do motor. Mas estava
com uma âncora só. Fui arrastando-a até
conseguir ficar mais de 1 hora preso. Foi o tempo necessário
para recuperar as forças e comer alguma coisa antes
de recomeçar a guerra. Já com mais de 60 nós
de vento, consegui unhar de novo com ajuda do motor. Fiquei
mais meia hora preso. Até que passou um Beneteau 50,
sem ninguém a bordo, garrando, e pegou a minha âncora.
Fomos os dois embolados para sotavento.
A situação estava dramática. O rádio
era uma loucura total: no canal 16, gente gritando, desesperada.
E o Guruçá permanecia preso ao outro barco.
O Beneteau agarrou numa lancha que tinha uma poita enorme
e a gente ficou por ali algum tempo. Quando liguei o motor
e dei avante, meu hélice pegou outro cabo. Com ventos
de 80 nós, lá fui eu mergulhar novamente. Consegui
cortar o cabo entre uma ou outra pancada forte nas costas
durante o mergulho: era o barco que levantava e descia freneticamente.
O único jeito foi me agarrar no hélice com força.
Se alguma coisa batesse na minha cabeça eu desmaiaria.
Pelado na ventania - Era um risco, mas eu não podia
perder o barco. Dez minutos depois de cortar o cabo, o Béneteau
se soltou da lancha, mas continuou preso ao Guruça.
Não havia muito o que fazer. A praia estava cheia de
barcos. Avistei um lugar desocupado. Liguei o motor e fui
até lá, onde encalhei, com o Bénéteau
a barlavento. Consegui ficar mais avante dele. A proa do Bénéteau
batia na popa do Guruça, que, por sua vez, quase batia
na proa de outro barco, também encalhado. Ficamos enfileirados.
Consegui chegar próximo 'as árvores de um mangue
e amarrei os barcos num coqueiro. Foi o que me salvou. Quando
o vento rondou, os outros barcos que estavam por perto ficaram
embolados. Era de manhã. Meu corpo estava cheio de
hematomas. Mas eu tinha que ter fé. E tive. Mesmo obrigado
até a tirar a roupa. Não gosto de ficar nu na
frente de ninguém, mas não havia saída.
Numa situação como aquela, basta ter um pouco
de pano no corpo para ser carregado pelo vento. Eu tinha que
ir me arrastando até a proa para amarrar o barco. E
o vento rondou novamente. Soprava do norte e passou para nor-noroeste
- ao contrário do que eu pensava inicialmente. Foi
empurrando o barco para trás, e quase o barco bateu
numa casa. Fui para o meio do mangue e amarrei uns 15 cabos.
Os galhos das árvores próximas não eram
grossos, mas consegui imobilizar o barco. Com ele preso, fiquei
o dia inteiro observando. Os barcos batiam uns nos outros,
se quebrando, afundando, capotando. Depois disso, o vento
ainda aumentou muito. E começou a chover. Eu mal via
a proa do Guruça, que começou a fazer água.
A única solução era ficar serrando, pedacinho
por pedacinho, os galhos das árvores à medida
que o barco ia entrando no mangue, e amarando-o mais 'à
frente. Quando começou a anoitecer, o olho do furacão
parecia estar perto. Por sorte, passou mais ao norte. Foi
um alívio. O barco estava protegido. Só pegava
marola, não mais vento direto. Resolvi ir até
a base das árvores para amarrar melhor o Guruçá.
O risco se algum barco viesse para cima de mim, eu me quebraria
todo. Quando chegavam na praia, os maiores passavam por cima
de dois ou três veleiros menores. Muitas famílias
morreram assim. Até que o pessoal da tal casa me convenceu
a sair do Guruçá, que já estava preso.
Aceitei o convite. Dormi profundamente. No dia seguinte cedo,
o vento já era oeste. A paisagem em volta era terrível.
Em toda a volta da laguna havia barcos encalhados. Comecei
a lembrar de todos os conhecidos que tinham desaparecido.
Havia 1.800 embarcações na ilha. Dessas, 800
afundaram, pouco mais de uma centena continuou flutuando,
e o resto foi parar na praia. Apesar do susto, o Guruçá
não quebrou. O saldo: o guarda mancebo amassou e o
bote se foi. Ninguém acreditou que o barco fosse de
"fibra", pensaram que ele fosse de ferro. Graças
à ajuda do governo local, consertei as poucas avarias
do Guruçá e voltei velejando para o Brasil.
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ALAGOANO CONSTRÓI CABO HORN 35 PARA
DAR A VOLTA AO MUNDO.
Extrato do jornal Gazeta de alagoas.
O Alagoano Roberto Nogueira, 37 anos, é um desses apaixonados
pelo mar. Veleja desde criança e aos 20 anos adquiriu
seu primeiro barco - categoria laser - depois trocando por
outros de classe superior com os quais participou de inúmeras
regatas, tendo inclusive colecionado alguns troféus.
Mas seu grande sonho é velejar pelo mundo afora, conhecer
ilhas paradisíacas e suas fantásticas histórias.
Enfim, navegar os sete mares como fizeram seus avós
portugueses, que além de exímios navegadores
também foram construtores navais. Essa aventura começou
em terra firme há seis anos quando ele decidiu construir
seu próprio barco, um veleiro de 35 pés com
a segurança e o conforto de uma embarcação
"ao que se propõe a enfrentar uma navegação
de longo curso".
Filho de pai português e mãe nórdica,
Roberto tem no sangue a saga dos navegadores e mais do que
ninguém soube incorporar o espírito do "navegar
é preciso...". de que falava o poeta Fernando
Pessoa, outro lusitano ilustre. O sonho de construir seu próprio
barco, iniciado em 94, já está bem próximo
de virar realidade. O veleiro, que acomoda até seis
pessoas, está praticamente concluído, faltando
apenas alguns retoques internos e o ajuste final dos equipamentos
de navegação para cair no mar. E a primeira
viagem internacional já está definida: Maceió-Cidade
do Cabo, África do Sul, voltando pela |Ilha de Santa
Helena onde Napoleão Bonaparte foi confinado pelos
franceses.
A idéia de Roberto Nogueira era navegar pela costa
brasileira de ponta a ponta e só depois alçar
vela rumo a outros mares do mundo. Mas a falta de infra-estrutura
de apoio náutico ( poucas marinas ) o forçam
a tomar outro curso. "E uma pena que um País como
o Brasil, com oito mil quilômetros de litoral, bons
barcos e equipamentos disponíveis não tenha
ainda uma infra-estrutura de apoio" a navegação
"ao de esporte e recreio", lamenta o nosso navegador.
Lembra . Lembra que essa carência é um dos principais
entraves 'a expansão da frota brasileira de embarcações
de lazer, estimada atualmente em pouco mais de 100 mil unidades.
Preços altos. Construir um barco de lazer é
uma tarefa e tanto, sobretudo no Brasil que apesar de já
produzir quase tudo que uma embarcação precisa,
e com alto nível de qualidade, tem problemas de preços
altos, falta de mão de obra especializada, pequena
escala de produção e forte concorrência
dos importados. E se a construção for artesanal
- como no caso de Roberto Nogueira - a dificuldade vira um
desafio.
Quando decidiu fazer seu próprio barco, o economista
Roberto Nogueira jamais imaginaria que teria de se transformar
em marceneiro, eletricista, mecânico, pintor, serralheiro
e outras profissões, pois na falta de mão de
obra qualificada, foi obrigado a botar a mão na massa
e fazer tudo sozinho. A única coisa que recorreu a
terceiros foi o projeto de engenharia, encomendado a Roberto
Barros, o Cabinho, festejado projetista brasileiro e referência
obrigatória para quem pretende construir o próprio
barco. A produção, que já soma 45 projetos
distintos e mais de mil barcos construídos, oferece
mais de uma dezena de alternativas para os construtores amadores.
Roberto optou pelo Cabo Horn 35, mais famoso projeto do Cabinho,
com comando interno para proteção contra calor,
frio e umidade. "Nesse barco, construído 'a base
de fibra de vidro, você pode comandar o leme sentado
em confortável poltrona, tomando sua cerveja gelada
sem risco de mistura-la com água da chuva, ou pior
ainda, água salgada de uma onda traiçoeira",
garante o próprio projetista. "As dificuldades
foram tantas, que num determinado momento pensei em abandonar
o projeto" diz Nogueira, que nos últimos seis
anos dividiu seu tempo entre as atividades d imobiliária
da família e a construção do seu grande
sonho. Superadas todas as limitações inclusive
à importação dos equipamentos eletrônicos
e o pano das velas. Nogueira já pensa até em
mudar de ramo e se tornar um construtor naval. "Estou
pensando em montar um estaleiro para construir barcos e lanchas
de pequeno porte que têm mercado garantido no Brasil",
admite ele, mas pondera que qualquer iniciativa nesse sentido
só depois que der a volta ao mundo a bordo do seu veleiro.A
única coisa que Roberto não gosta de falar é
nos custos de sua empreitada. Diz que um sonho não
tem preço e nem sabe quanto investiu até agora,
até porque não contabilizou as despesas. Diz
apenas que um veleiro do porte do Cabo Horn 35, com os modernos
equipamentos de navegação de que dispõe,
pode chegar a R$200 mil no mercado nacional. Mas ele prefere
encarar o desafio mais como um projeto de vida e menos como
empreendimento econômico.
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