Multichine 28 - Dois barcos, duas propostas

O que os velejadores de oceano mais desejam é poder estar a bordo de um barco quase sem sentir diferença para estar em terra firme. Esse é o grande desafio que um escritório de yacht design tem que enfrentar quando está desenvolvendo um projeto de veleiro de oceano. A equação para se atingir esse objetivo é bem complexa. Os barcos maiores são mais confortáveis internamente, mas são mais difíceis de serem manobrados. Os barcos muito pequenos são exatamente o contrário. O Multichine 28 é o projeto que desenvolvemos que talvez seja o melhor compromisso entre esses dois mundos. Como nós do escritório construímos em dupla com um amigo, Roberto Ceppas, dois barcos da classe, o Makai e o Fiu, e em seguida ao lançamento do nosso barco, o Fiu, moramos por dois anos e meio a bordo e velejamos mais de seis mil milhas com ele em viagens oceânicas, podemos dizer com conhecimento de causa que ele é uma moradia fantástica para ser habitada, seja quando em um ancoradouro, seja em alto mar.

Que o MC28 seja adequado para se morar a bordo e seja um barco fantástico para cruzeiro oceânico, quanto a isso temos experiência de sobra para afirmar. No entanto, que ele seja excitante como veleiro de regatas locais, isso ainda precisa ser confirmado. Em regatas oceânicas de percurso com vento mais forte ele já se provou ser o capeta (veja em clube do MC 28 o artigo escrito pelo bloguista Hélio Viana: Makai, o MC28 voador), como nas regatas Recife-Fernando de Noronha, quando sempre que um barco da classe participa, ele se dá super-bem, mas em regatas triangulares em águas abrigadas, isso ainda está faltando comprovar. Esse artigo fala de dois MC28, um deles veleiro de cruzeiro oceânico assumido, sendo o outro turbinado para participar de regatas locais na região de Pudget Sound, Estado de Washington, Estados Unidos, que está na reta final para ser lançado à água.

O layout do interior do MC 28 é tão perfeito para se viver a bordo quanto um barco de seu comprimento possa ser. Existe um absoluto equilíbrio entre os vários ambientes de modo a transmitir uma sensação de bem estar em qualquer compartimento do barco.

Um exemplo de utilização radical para cruzeiro oceânico é o MC28 Vagamundo, de Ricardo Costa Campos, de Vitória, Espírito Santo. Ricardo é um amador em construção de veleiros, mas nem parece ser. O padrão de qualidade que deu ao seu veleiro chega a superar muitas construções profissionais. Vagamundo é na realidade um dos barcos mais bem construídos de nossa linha de projetos.

A mastreação de cruzeiro proporciona excepcional estabilidade e fácil manobra, qualidades especialmente bem-vindas quando se veleja com uma tripulação reduzida.

Uma importante mudança de rumo na vida de Ricardo foi quando ele decidiu trocar a desgastante carreira de mergulhador de águas profundas pela atividade de comandante de iate de charter e professor de vela, usando o Vagamundo como seu barco de trabalho. Sua decisão foi tão radical que passou a ter o barco como sua moradia permanente. Nesse meio tempo Ricardo se casou, teve um filho, João, um verdadeiro peixinho, uma criança totalmente feliz e adaptada a viver em um veleiro de oceano. Hoje Ricardo se dedica em tempo integral às novas atividades. O empreendimento está indo de vento em popa, uma das razões sendo a grande simpatia e competência do comandante, conquistando amigos para a vida toda a cada charter empreendido. Ricardo está no Face Book – Veleiro Vagamundo. Ele costuma atuar entre Vitória e Parati, no Rio de Janeiro, volta e meia fazendo esse percurso de mais de 400 milhas náuticas em grande estilo. Além de charter, ele opera um curso de vela oceânica.

João, o filho do Ricardo, é um verdadeiro peixinho. Na foto ele está usando a mesa de navegação como seu cantinho particular. Ele faz boa parelha com minha neta Juliana, tomando banho na pia da cozinha do MC28 Fiu quando tinha poucos meses de idade. As crianças parecem se dar bem habitando o interior de um MC28. Cortesia: Ricardo Costa Campos.

Minha neta Juliana tomando banho na pia da cozinha do MC28 Fiu. Para criança pequena o interior do MC28 deve parecer um navio de cruzeiro.

Vagamundo saindo do nevoeiro a todo pano. Uma das melhores virtudes do modelo é sua excelente estabilidade. As pessoas se sentem super seguras quando velejando a bordo de um MC28. Cortesia: Ricardo Costa Campos.

Vagamundo é inquestionavelmente um barco excelente para cruzeiro oceânico. O dodger sendo conectado a um bímini que se estende até a targa onde estão instalados os painéis solares é a solução ideal para proporcionar abrigo e conforto a quem esteja no cockpit. Cortesia: Ricardo Costa Campos.

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A outra história de MC28 nesse artigo vem de Tacoma, Estado de Washington, USA. Nosso cliente, Dave Cross, embora familiarizado com construção amadora, também é um regateiro contumaz. Não estando particularmente interessado em fazer cruzeiros oceânicos, ele nos consultou sobre a possibilidade de desenvolvermos uma versão mais regateira para o projeto do MC28. Não poderíamos ter ficado mais empolgados com o desafio que ele estava nos propondo, e topamos de imediato produzir essa versão.

A mastreação voltada para regata é a ideal para o Estreito de Pudget, uma região de ventos predominantemente fracos. Vamos tocer para que Dave ganhe a cota de regatas locais que merece. Seu esforço para construir um barco mais leve e veloz foi impecável.

Desenhamos um plano vélico com mastro mais alto e mais área vélica, e para contrabalançar projetamos uma quilha de chumbo mais pesada e profunda, com hidrofólio mais adequado para regata e com uma melhor relação de aspecto. O Dave contribuiu com sua parte com o máximo esmero e agora resta esperar pelo resultado do esforço conjunto. A costa noroeste é uma região de ventos predominantemente fracos, de forma que tudo leva a crer que a experiência será um sucesso. Já ficou evidente que não teremos que esperar muito tempo para saber como o coelho da família MC28 irá se sair nas regatas locais.

Os paineiros envernizados de teca e pau marfim ficaram uma beleza e já estão prontos para ir para o lugar. O barco ficará show de bola quando estiver concluído. Cortesia: Dave Cross

O MC28 é quase um casco Redondo. Dave não construiu a plataforma de popa do projeto, o que fez todo o sentido em se tratando de um barco de regata. Assim ele cortou peso desnecessário e aumentou a sustentação de popa, uma boa medida para melhorar o desempenho. Cortesia: Dave Cross

A cabine de popa não foi alterada. Seu excelente beliche de casal e a profusão de armários são marca registrada do projeto. Cortesia: Dave Cross

O salão do barco do Dave em sua versão regateira é ideal para tomar uma cervejinha gelada depois de uma regata batendo um papo de como a regata foi ganha ou perdida naquela tarde de domingo. Cortesia: Dave Cross

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Novidade: mais um MC28 foi lançado à água. Dessa vez foi o De Capitani, construído em Ubatuba, Estado de São Paulo. Essa classe está sempre nos surpreendendo pela beleza do acabamento dos barcos que vão ficando prontos.

De Capitany é o mais novo MC28 a ser lançado à água. É impressionante o acabamento do costado.

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