Pop 25 - Um veleiro projetado para o futuro

Roberto Barros

Imagine uma família que construiu um veleiro de vinte e cinco pés no jardim de casa durante os fins de semana levando mais ou menos uns dois anos para realizar a obra. Quando ficou pronto, o barco foi levado para o clube para ser batizado. Depois de um pequeno e bem humorado discurso e ser quebrada a tradicional garrafa de champagne na quilha, quando o guindaste o colocou na água flutuou melhor do que o esperado, deixando o bico de proa e o espelho de popa bem acima da linha d' água. Nessa hora, para glória dos donos, todos os amigos convidados para o tão aguardado lançamento bateram palmas.

Horus, o primeiro Pop 25 a ficar pronto, no dia de seu lançamento. Cortesia: Daniel D' Angelo

De volta para casa começou o planejamento para o sonhado primeiro cruzeiro em família. Poucas semanas depois de ter realizado o primeiro teste de mar chegou o grande dia de soltar as amarras e sair mar a fora. A grande novidade desta história foi não ter precisado abastecer tanque algum com combustível. O banco de baterias abastecido pelos painéis solares estava carregado até o gogó. Para não dizer que era zero a quantidade de combustível levada a bordo, um pequeno camburão com etanol levava uma reserva para o fogão a álcool.

A boa surpresa foi que o barco flutuou melhor do que se esperava, mal tocando na água. Cortesia: Daniel D' Angelo, veleiro Horus, La Plata, Argentina

A primeira velejada nunca se esquece. Quando a proa começou a formar um bigode na proa e o barco acelerou impulsionado pela brisa, todos os cabelinhos dos braços ficaram arrepiados e a sensação foi de êxtase. O veleirinho, como que querendo conhecer o mundo para além de seus domínios, procurou mostrar a seus donos toda sua capacidade. Quase sem adernar e avançando a boa velocidade o barco caminhava em direção ao destino, deixando a tripulação em estado de graça. Depois de tanto tempo somente sonhando, e agora podendo entrar e sair da cabine, tomar banho de sol no cockpit, ouvir som stereo em auto-falantes instalados sob a targa, ver a paisagem passar corrida, tudo isso era a realização de um desejo acalentado por tanto tempo.

A primeira velejada é para não ser esquecida. Com vento de oito nós o Horus navegava a quatro nós. Cortesia: Daniel D' Angelo, veleiro Horus, La Plata, Argentina.

Com o cair da tarde o vento foi perdendo intensidade até acabar completamente. Então foi só apertar um botão e sem o mínimo ruído, o barco timoneado pelo piloto automático continuou avançando no rumo desejado com a mesma velocidade que navegara antes, impulsionado pelo motor elétrico auxiliar. Uma vez chegado ao destino, foi só pisar em um pequeno pedal para que âncora e corrente caíssem em alguns segundos, proporcionando uma perfeita ancoragem. Então o barco já não era mais um veículo, mas sim um pequeno lar flutuante. Apesar de ser uma noite quente de verão, a temperatura dentro da cabine se mantinha bem agradável, graças ao especial isolamento térmico, marca registrada do projeto.

Enquanto o jantar ia sendo preparado, os tripulantes se socializavam na confortável salinha muito bem iluminada por lâmpadas LED embutidas no forro do teto. Na hora da refeição uma mesa desmontável, ampla o suficiente para quatro pessoas, foi instalada no corredor do salão.

As acomodações internas do Pop 25 são comparáveis às de barcos com dois ou três pés a mais. Uma cortina separa a cabine de proa do banheiro e outra separa o banheiro do salão.

Antes de o sono chegar, todo mundo foi para o cockpit a fim de apreciar uma noite estrelada típica de verão, o papo se estendendo até altas horas. Finalmente quando bateu aquele sono, conseqüência de um dia longo com muitos acontecimentos, os dois filhos escolheram seus beliches de cada um dos lados do cockpit, enquanto o casal se instalava na cama de proa isolada do resto do barco por uma cortina descida sobre a cabeceira. Se fossem três casais, todos teriam suas camas de casal, pois os beliches de popa também são desenhados para duas pessoas.

Depois do café da manhã nossa feliz família saiu para nadar e mergulhar. Foi então a plataforma de popa com mais de dois metros de largura com sua escada de mergulho que brilhou intensamente.

Quando o vento da tarde entrou já estava em boa hora de se preparar para a volta. Com as baterias parcialmente recarregadas pelo sol da manhã, içar a âncora foi novamente um trabalho de pisar em um pedal embutido no convés. De novo navegando, enquanto o barco ia avançando à vela, a função regenerativa do motor elétrico ia completando o carregamento das baterias, tudo isso sem requerer trabalho algum.

O cockpit do Pop 25 é bem amplo. Seis pessoas encontram lugar para sentar sem se sentirem espremidas. Cortesia: Daniel D' Angelo, veleiro Horus, La Plata, Argentina.

Depois de um uso intensivo, um dia o barco já estava precisando de uma raspagem de casco para retirar cracas que começavam a infestar o fundo, afinal os órgãos ambientais só permitem fazer tintas anti-incrustantes com formulações que não sejam prejudiciais à saúde das mesmas. Foi então utilizada a mais atraente característica do projeto, a possibilidade de deixar o barco em seco apoiado em suas quilhas gêmeas, que esse problema tão angustiante para os donos de outros veleiros de quilha fixa, foi resolvido de uma forma de deixar muito cruzeirista com água na boca.

Poder fazer manutenção de fundo pelo proprietário na variação de maré é a solução para a escassez de pátios, sendo uma boa forma de evitar os preços exorbitantes cobrados pelos prestadores de serviço. Essa é uma das características mais desejáveis do Pop 25.

Essa parte da história relata o final feliz de uma empreitada bem sucedida. Para receber esse prêmio teve muito trabalho realizado antes. No entanto o desafio não foi muito difícil de ser superado. Construir um Pop 25 é bem diferente de construir outros barcos igualmente projetados para construção amadora, e como está sendo constatado, de uma maneira geral mais simples e gratificante, a começar pela ajuda de um roteiro muito bem ilustrado que explica passo a passo como realizar a construção.

A primeira fase da obra é se construir doze anteparas ou semi-anteparas em bancada, todas elas bem simples de serem feitas, havendo vasta explicação, tanto nas plantas, como em ilustrações apresentadas no roteiro, de como fabricá-las. Essa fase representa alguns dias de trabalho, e é tão agradável que produz um efeito fantástico, capaz de levantar o moral do menos otimista dos construtores. Desse ponto em diante a construção continuando nesse nível de dificuldade, a vitória estaria garantida.

O trabalho começa com a fabricação em bancada de doze anteparas ou semi-anteparas que dão forma ao barco, têm papel estrutural e ainda constituem a parte transversal da divisão interna. Cortesia: Petr Novack, construtor amador de um Pop 25 na República Tcheca.

A fase seguinte, a construção do casco, é mais sedutora ainda. Para fazer a montagem basta colocar as anteparas antecipadamente construídas em bancada na posição vertical, uni-las com sarrafos que se encaixam em entalhes também pré-fabricados em bancada e revestir com compensado. Nessa altura a febre de ver o casco concluído é quase incontrolável e num piscar de olhos nossos construtores terminam essa fase já se sentindo os felizes proprietários de um imponente iate oceânico.

Mas a construção do Pop 25 esconde um grande segredo. Existe uma sensível diferença entre a maneira de construí-lo e aquela usualmente empregada em outros projetos. Essa diferença é a parede dupla dos costados, o segredo da robustez e do isolamento térmico do modelo. As pessoas só se dão conta de quanto essa solução torna o barco robusto quanto um tanque de guerra no dia em que o casco é virado de cabeça para cima e se descobre durante a operação da virada que ele não se deforma um mísero milímetro.

O casco do Pop 25 é o sonho tipo " faça-você-mesmo" de qualquer construtor amador. As paredes laterais são verticais e o fundo é plano no sentido transversal. Cortesia: Francico Aydos, veleiro Rancho Alegre, Porto Alegre, RS.

O grande lance do Pop 25 é esse sistema de construção com costado e superestrutura duplos. A resistência à deformação fica incomparável, além de proporcionar um isolamento térmico sem paralelo. Esse método construtivo é o equivalente ao sistema de construção em sanduíche de fibra de vidro, porém mais barato e fácil de ser feito. Cortesia: Marcelo Schurhaus, veleiro Konquest, Santa Catarina

Quando o casco é virado de cabeça para cima, a nova etapa da obra gera um nível de adrenalina difícil de ser controlada. Afinal já se tem um barco que flutua e até mesmo pode navegar com a ajuda de um longo remo. Então se existia alguma resistência quanto às despesas que a construção vinha acarretando, nessa altura do campeonato todos na família passam a desejar contribuir para que o barco fique pronto sem demora. Por essa época o casal começa a se preocupar com a instalação da cozinha e a decoração interna, enquanto os equipamentos começam a ser adquiridos como se todo dia fosse dia de Natal. O interior vai adquirindo um aspecto de casinha e aí fantasia e realidade praticamente não se distinguem. Talvez essa seja a fase de maior empolgação de toda a construção, e por causa do sistema construtivo, onde toda a parte transversal do arranjo interno foi pré-fabricada em bancada, em um piscar de olhos o interior está concluído.

Construir o interior do barco é muito rápido. Como as anteparas transversais fabricadas em bancada já fazem parte da divisão interna, o trabalho se limita a instalar os painéis longitudinais. Cortesia: Marcelo Schürhaus, veleiro Konquest.

A última fase da obra, fabricação da superestrutura e acabamentos finais, é quando a ansiedade toma conta dos espíritos. Todos os envolvidos já querem ver a luz no fim do túnel e então parece que a obra começa a se arrastar. É possível que nessa etapa seja cometido algum pequeno pecado com a intenção de cortar caminho, tipo dar uma demão de verniz a menos do que o programado, com a promessa que aquela falha será consertada mais adiante na primeira manutenção. Mas então a confiança na capacidade de terminar a obra já é total.

A fabricação da superestrutura é semelhante à construção dos costados. Ela também possui parede dupla preenchida com espuma para isolamento térmico. Cortesia: Müntaz Karahan, veleiro Hayal, sendo construído na Turquia.

O Pop 25 é um projeto recente. Em pouco mais de dois anos desde seu lançamento já são cinqüenta e um construtores em doze países diferentes, e o Horus, primeiro veleiro da classe a estar navegando, vai demonstrando que o barco é tudo o que se esperava. Como outros Pop 25 em construção estão ficando prontos em diversos países, breve a classe deverá estar estabelecida internacionalmente. Essa foi a contribuição do escritório B & G Yacht Design para tornar a vela de cruzeiro oceânico mais acessível a pessoas que sonham com a vida de cruzeiro, mas que não têm a disponibilidade de deixar um cheque de algumas dezenas de milhares de dólares nas mãos de um corretor durante um salão náutico. Além do mais é um barco desenhado para o futuro, com quase zero de pegada ecológica, talvez mesmo tendo saldo positivo de emissão de carbono, uma vez que a madeira utilizada na construção, sendo plantada, representa carbono retirado da atmosfera.

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