Mantendo o rumo no Green Nomad Parte 1 – Leme de Vento

Se eu tivesse que timonear por algum período longo eu não estaria navegando. Simples assim! Ficar preso a uma roda ou cana de leme por horas, no sol ou na chuva, borrifo das ondas batendo na cara, não é parte do cenário para mim.

Timonear não é como gosto de passar o tempo!

Green Nomad em Jacaré, Cabedelo, perto de João Pessoa, Brasil

Desde que começamos a viver a bordo e navegar com o primeiro Green Nomad em 1996 eu devo ter passado no máximo umas 6 horas ao leme. E este período inclui uma grande quantidade de milhas, nos Oceanos Atlântico e Pacífico.

A viagem do primeiro Green Nomad

No primeiro barco nós tínhamos um piloto automático eletrônico com atuador hidráulico e um leme de vento Aries. Agora temos também um piloto automático eletrônico com atuador hidráulico e um recém adquirido leme de vento Windpilot Pacific, o que motivou a escrita deste texto. Não temos geladeira, AIS, telefone via satélite, mas temos controle automático de rumo de primeira classe.

O primeiro Green Nomad em Vanuatu, mostrando o leme de vento Aries levantado

É interessante que o mesmo leme de vento que adquirimos agora esteve nas minhas mãos em 2010 em Porto Alegre, quando estava para ser instalado no Multichine 41 SK Bepaluhê, um barco para o qual eu desenvolvi o kit de corte CNC e onde até ajudei a montar a primeira chapa do fundo, em companhia do dono do estaleiro Ilha Sul Construções Náuticas, nosso amigo Jairo. O dono do Bepaluhê, Paulo, frequentemente me pedia opiniões sobre equipamentos, e fui eu quem sugeriu a ele o modêlo Pacific fabricado pela Windpilot, da Alemanha.

Será que eu pensei que um dia seria nosso?

Depois de vir com o Bepaluhê para Recife e participar da REFENO, Paulo concluiu que por bastante tempo não iria realizar travessias de longa duração, e resolveu nos vender o leme de vento em troca de um atuador hidráulico reserva para seu piloto automático eletrônico (Se eu fosse ter apenas este tipo de piloto também iria querer uma unidade atuadora reserva já montada, pois trocar um cilindro hidráulico no mar, tendo que sangrar as linhas não é coisa viável se o mar não estiver muito calmo). O piloto automático eletrônico do Paulo é igual ao do Green Nomad, da marca Furuno, e é excelente.

Nosso leme de vento ainda montado no Bepaluhê, outro desenho do escritório, um Multichine 41 SK construído em alumínio

Fora percursos curtos, onde a Marli gosta de timonear, o Green Nomad vai quase sempre sozinho. Nós lemos, cozinhamos, dormimos e mantemos vigia, mas não timoneamos. Essa é uma das razões de não se ter uma roda de leme, e preferir uma cana de leme, que é mais simples, barata, mais confiável, oferece uma conexão melhor para o leme de vento e fica totalmente fora do caminho quando o barco está ancorado.

Festa no cockpit. Sem roda de leme o espaço é todo aproveitado!

Marli timoneando o primeiro Green Nomad, porque não gosta de uma esteira em S!

Eu “timoneando”

Mesmo tendo um ótimo piloto automático eletrônico nós não considerávamos a área de comando completa até ter o leme de vento.

Novo tripulante a bordo!

Ao confiar exclusivamente no piloto automático eletrônico a pessoa não está depositando sua confiança apenas na unidade do piloto em si, mas em todo o sistema elétrico, no sistema de carga de baterias, seja por meio de painéis solares, geradores eólicos ou motores e alternadores, mais reguladores de tensão etc. Isso adiciona várias camadas de possíveis problemas ao problema do comando de rumo automatizado. Um raio que caia nas proximidades do barco já pode ser o suficiente para colocar todo o sistema elétrico fora de operação.

Um sistema bem simples e direto para a transmissão do esforço de comando entre o leme de vento e a cana de leme. Notem o cilindro hidráulico do piloto eletrônico, acoplado a uma cana de leme secundária.

Recentemente estava conversando com um amigo, dono de um Ovni 435, que me contou que a insistência de um estaleiro renomado da Suécia de que ele não precisaria de um leme de vento, e que portanto eles não instalariam, foi o fator determinante para ele escolher o barco.

O leme de vento Windpilot Pacific ainda deixa bem livre o acesso da plataforma de popa ao cockpit. Um casamento perfeito com o Kiribati 36!

Eu não estou questionando o fato de que um bom piloto automático eletrônico vai provavelmente controlar o rumo melhor (se manter um rumo exato de bússola for o objetivo), embora os mesmos cuidados necessários ao bom funcionamento de um leme de vento tenham que ser observados, equilibrando o barco através da regulagem das velas para que o atuador mecânico do piloto não sofra esforço e desgastes indevidos, aumentando também desnecessariamente o consumo de energia elétrica. Mas para nosso estilo de viagem e orçamento o leme de vento é uma opção mais adequada.

Um detalhe da instalação. Os mordedores vão permitir que os cabos da transmissão sejam regulados para compensar tendências do barco e que as folgas sejam eliminadas.

Não se trata de aqui tentar convencer ninguém da superioridade de um sistema sobre outro, mas sim de expressar a alegria de finalmente termos adquirido nosso leme de vento. O sentimento de independência que ele traz é um grande reforço ao estilo de vida simples que gostamos de levar. Nos dias de hoje quase não se consegue fazer nada que não requeira energia elétrica, e navegar usando a energia do vento para o movimento do barco e a mesma energia convertida em movimento do barco para controlar o rumo, usando a direção do vento como referência é muito interessante, e de fato um fator de tranquilidade nas grandes travessias. E faz sentido!

Para que o leme de vento funcione satisfatoriamente é necessário manter o barco equilibrado através da regulagem das velas. Isto por sua vez requer que o barco tenha sido bem desenhado de início, senão o trabalho de regulá-lo pode ser impossível. Neste ponto sabemos que o Green Nomad é um bom barco, portanto se o controle do rumo não estiver bom, o culpado serei eu mesmo!

Um barco bem equilibrado deve ser fácil de manter no rumo para o dispositivo que o controla!

Estamos ansiosos pela próxima travessia, quando estaremos experimentando com o Pacific pela primeira vez, aprendendo suas peculiaridades e truques!

Agradecemos ao Paulo por nos vender o leme de vento, e ao Peter Foerthmann, o fundador e desenhista dos lemes de vento Windpilot, pelo suporte dado durante a instalação!

Tambem pretendo escrever um texto sobe o piloto automático eletrônico do Green Nomad, cuja unidade atuadora hidráulica foi montada por mim a partir de peças usadas e novas avulsas. Um piloto com atuador hidráulico não tem que custar uma fortuna!

Clique aqui para saber mais sobre o projeto do Kiribati 36.