Volta ao mundo começando em Perth, Austrália - Parte I

Nos idos dos anos sessenta minha esposa Eileen e eu estávamos empreendendo uma viagem de volta ao mundo a bordo do Sea Bird, um veleiro de 25 pés de comprimento, quando ao fazer escala em Tahiti, Polinésia Francesa, a viagem foi interrompida pelo nascimento de nossa filha Astrid. Vivemos na Polinésia por quase um ano, e desde então nunca mais voltamos a esse lugar que nos deixou tantas saudades. Hoje Astrid tem 45 anos e de lá para cá muita água passou por baixo da quilha. Essa historia é conhecida em nossa comunidade náutica, pois foi relatada no livro "Do Rio à Polinésia", o primeiro livro de aventuras náuticas editado no Brasil (você pode adquiri-lo na Livraria Moana, em Sao Paulo, ou no Centro Náutico, no Rio de Janeiro). Esse livro até hoje continua sendo um bestseller do ramo.

Embora sem nos preocuparmos muito com isso, o objetivo final de nossa viagem era dar uma volta ao mundo de veleiro, o que até aquela data nenhum velejador brazuca tinha realizado. Mas existia um plano mais concreto a curto prazo, o de abrir uma oficina de construção de embarcações de recreio na Nova Zelândia, um sonho que me acalentava há algum tempo.

No entanto com um bebê a bordo de um veleiro de 7,5m de comprimento por 1.95m de boca, embora Eileen valentemente insistisse em prosseguirmos a viagem, de minha parte a coragem se esvaiu e decidi vender o barco em Tahiti, voltando de avião para o Brasil, onde realmente comecei um negócio de construção de barcos. Os modelos Tahiti 16, Rio 20 e Atoll 23, os veleiros produzidos nessa fábrica foram pioneiros em nossa industria. Ainda existem muitos desses barcos navegando por todos os cantos do país.

Quando o imposto sobre produtos industrializados de embarcações de recreio passou de 10% para 50%, apesar de o negócio estar prosperando e os barcos serem bem conceituados, resolvi vender a fábrica e, considerando a inclinação pelo ramo náutico da família, pois a Astrid escolheu engenharia naval como carreira, no ano de 1987 decidi criar um escritório de yacht design, inicialmente chamado Roberto Barros Yacht Design. Sendo um dos poucos escritórios especializados no assunto no país, o negócio se expandiu rapidamente, inclusive no mercado internacional. Astrid veio a se casar com o engenheiro naval que conhecera na universidade, Luis Gouveia, e como ele também se interessou pelo assunto, juntou-se toda a família para trabalhar na empresa. No ano de 2007 Astrid recebeu uma oferta irrecusável de emprego, para trabalhar em Perth, Austrália. A solucão que encontramos para essa novidade foi transferir a empresa para a Australia, eu e Eileen ficando no Rio de Janeiro para ajudar o escritório nos negócios feitos no Brasil. Foi então que o estúdio mudou de nome, passando a se chamar B & G Yacht Design, B de Barros e G de Gouveia.

Passados sete anos e vendo o segmento internacional de nosso mercado se expandir sem a ritm rápido, decidimos fechar o escritório no Brasil e concentrar a familia novamente em um só lugar, agora em Perth, Austrália Ocidental (nossa equipe é maior, mas os outros trabalham on-line). Entào Eileen e eu voamos para Perth, via Dubai, chegando à nova cidade no início de outubro. Porém um compromisso importante me obrigou a retornar ao Rio logo no dia13 de outubro, quando eu ainda mal me recuperara das 11 horas de diferença de fuso horário e 25 horas de voo da viagem de ida. Essa volta pelo mesmo caminho teria sido um porre de tão monótona, não fosse ter escolhido um lugar na janela do avião.

Antes de partir para a volta ao mundo. Da esquerda para a direita: Nossa filha Astrid, a neta Juliana, Eileen e eu, apreciando uma caminhada no King`s Park, em Perth, Austrália Ocidental.

A fatigante viagem de volta não foi totalmente desprovida de interesse porque em minha adolescência fui fascinado pelas grandes explorações no continente africano, especialmente as realizadas pelo médico e aventureiro David Livingstone, e por Stanley, o jornalista americano que veio à sua procura, depois de anos sem se saber o paradeiro do explorador britânico. Eu já voara sobre a África no passado, mas dessa vez meu lugar era numa janela, o que me permitiu observar a paisagem lá em baixo, primeiro a estreita calha onde o Rio Nilo se encaixa, uma faixa verde vivo em uma paisagem totalmente desértica à sua volta. Em seguida o avião sobrevoou os grandes lagos africanos, para depois sobrevoar a floresta equatorial africana tendo o impressionante Rio Congo fazendo meandros em seu interior. Da janela de um avião de carreira a onze mil metros de altitude, a floresta me pareceu imensa e ainda parecendo quase impenetrável, uma vez que pouco pude observar de ocupação humana, além de estradinhas de terra bem esparsas e alguns vilarejos. O avião atingiu o oceano Atlântico sobrevoando Luanda, e de lá em diante aproveitei para deixar o sono em dia. De volta ao Rio minha vida foi só trabalho duro, e depois de fazer tantas coisas que não gosto, resolvi me dar um refresco, fazer uma viagem de volta de natureza nostálgica, escolhendo a rota Rio de Janeiro, Santiago, Ilha da Páscoa, Papeete, Auckland e Sidney, o ultimo trecho sendo um voo regional de cinco horas de duração cruzando de leste a oeste o continente australiano. A natureza emoc[onal desse retorno reside no fato de que foi o caminho inverso que Eileen e eu escolhemos quando retornamos de Tahiti quarenta e cinco anos atrás, trazendo em nosso colo a pequena Astrid.

A viagem de lazer começou de fato quando o avião pousou na Ilha da Pascoa. Quarenta e cinco anos antes fôramos passageiros de um dos primeiros voos entre Tahiti e o Chile, pouco depois do aeroporto da Ilha da Páscoa ter sido inaugurado. Ainda nesse voo a escala tinha um importante significado para a pacata população daquel ilha perdida no fim do mundo.

Dessa vez, logo ao entrar no saguão do aeroporto observei em uma das paredes uma galeria de fotos da viagem inaugural do voo Tahiti/Chile com escala na ilha. Pelo que vi pouca diferença fez para o nosso voo, com certeza só faltando os políticos e celebridades convidados, pois o grupo de dança folclórica que nos recebeu, com seus saiotes feitos com penas de rabo de galo, uma vez que não existia palha de folha de coqueiro ou outra planta fibrosa na ilha para fazer os saiotes taitianos. O livro "Do Rio à Polinésia" cobre essa história que para nós foi um dos pontos altos de nossas vidas.

De volta ao presente, posso fazer comparações. Minha primeira impressão foi um pouco decepcionante. A população nativa que em nossa passagem pela ilha era predominante, agora está muito diluída, hoje a maioria dos habitantes sendo chilenos ou descendentes, que, como Bernados eremitas que habitam as carapaças de outros moluscos, nada têm a ver com a fantástica civilização que floresceu naquele lugar perdido por muitos séculos. A população atual deve ter aumentado umas dez vezes desde nossa visita e hoje a vista da janela do avião mostrou que a ilha agora parece ser uma cidade espalhada, exceto pelos parques nacionais onde estão os monumentos arqueológicos. A boa notícia é que foi realizado algum reflorestamento, além de existir bem mais areas cultivadas do que há quarenta e cinco anos. Apesar do divórcio étnico com o passado a ilha não deixou de ser um dos melhores lugares do mundo para se viver uma vida tranquila.

Casa modesta nos arredores de Hanga-Roa. Ninguém se preocupa com segurança, uma vez que não existe lugar para bandidos na ilha.

O que não existia há quarenta e cinco anos era o pequeno porto semi-abrigado para pequenas embarcações com uma rampa de encalhe e acesso a guindaste capaz de tirar da água embarcações de até uns quarenta pés de comprimento. A velejadora brasileira Isabel Pimentel que está concluindo uma volta ao mundo em solitário a bordo de seu veleiro de alumínio Don, após ter capotado no Oceano Austral, depois de realizar um reparo de fortuna, pois o veleiro voltou à posição normal com uma cruzeta da mastreação partida, após empreender um reparo de fortuna em alto mar, dirigiu-se à Ilha da Pascoa para fazer o conserto definitivo, usando as facilidades desse pequeno porto para colocar seu barco em seco. Lá ela teve a ajuda de seu amigo e nosso cliente Flavio Bezerra, que voou do Panamá onde estava no momento com seu MC 28 Access para a Ilha da Pascoa.

O acesso ao pequeno porto em Hanga-Roa requer sangue frio e nervos de aço, pois as pedras afloram bem na entrada.

Flavio já vive há uns oito anos a bordo de seu MC28, boa parte desse tempo velejando pelo Caribe. No momento ele se encontra na Polinésia Francesa, mas quando a amiga o chamou para ajudá-la ele ainda estava no Panamá, preparando-se para a travessia do Pacífico. Atravessar o passe de aceso ao portinho é uma operação de arrepiar os cabelos, pois uma porção de recifes afloram na entrada, sempre com arrebentação acontecendo. Vi um vídeo recente de um veleiro de bandeira alemã se despedaçando nessas pedras.

1969. Mohais em linha. Pode-se ver no horizonte como a ilha era desprovida de vegetação.

2014. Esses não são os mesmos mohais da foto acima. Visivelmente eles foram colocados nesse lugar mais recentemente. Hoje existem muito mais árvores plantadas em toda a ilha.

Sendo minha escala programada para apenas um dia, tive que ser seletivo, desistindo de visitar o vulcão Rano-Raracu, onde as estátuas eram esculpidas. Assim a imagem gravada em minha memória ficará sendo a daquele dia em que pisei naquele lugar mágico pela primeira vez.