Volta ao mundo começando em Perth, Austrália - Parte II

A parada seguinte em minha viagem de retorno à Austrália foi o Aeroporto de Faaa, Tahiti. Essa escala teve para mim um forte significado sentimental. Naquele exato lugar se deu nossa despedida da ilha encantada quarenta e cinco anos atrás, onde passáramos os momentos mais felizes de nossas vidas. Quando marcamos nosso retorno, no dia do embarque todos os nossos amigos compareceram ao aeroporto para nos desejar boa viagem. Agora, tão logo pisei novamente naquele solo, senti os olhos carregados de lágrias pela emocão de recordar aqueles tempos maravilhosos e nosso último dia na ilha. Tinha sido muito traumático ter-nos separado de nossa pequena casa flutuante que nos trouxera até lá, mas pelo menos tinhamos o consolo que nosso amigo Michel le Noan iria cuidar dele talvez até melhor do que nós mesmos. Nossa viagem de volta incluia uma escala na Ilha da Pascoa, o que nos deixara super-excitados, pois conhecer esse lugar era um dos meus sonhos. Naquela noite de despedidas cada amigo que chegava ao aeroporto nos dava dois beijos e depositava em nossos pescocos um colar de conchas, o equivalente ao leis havaiano. Dessa vez, quarenta e cinco anos passados, o cenário foi diferente. Nem amigos, nem leis, mas a atmosfera de lugar encntado continuava a mesma.

A primeira impressão que tive foi a melhor possível. Entrando no saguão do aeroporto, antes mesmo de passar pela alfândega, os passageiros foram recebidos por dois casais de cantores e dancarinos polinésios que davam um show de harmonia e bom gosto, entoando uma fascinante cancão dos mares do sul. A distância entre o aeroporto e o Hotel Meridian, onde iria me hospedar, entre o distrito de Faaa e o de Punauiá, uma estrada que já era pavimentada, mas que agora é duplicada, foi muito maior do que o que me lembrava. Parece que quando alguem vive grandes momentos em algum lugar as imagens que ficam gravadas na memóres são mais róseas do que a realidade.

Costumava ir em minha mini-bicicleta de Papeete a Punauiá, sendo esse um de meus programas favoritos, culminando com uma sauna tahitiana, que consistia em dar um mergulho na laguna de aguas mornas azul turqueza, para em seguida entrar mato a dentro do outro lado da estrada para se refrescar nas águas cristalinas do riacho que desaguava na laguna. É contado no livro "Do Rio à Polinésia" que as vahines as vezes faziam graca de mim perguntando se tinha lugar no quadro da minha bicicleta de mulher, para dar carona à elas. Bons tempos!!! Para mim naquela época esse passeio era um tirinho de espingarda. Dessa vez no entanto o taxi levou quase uma hora para fazer apenas parte do precurso que eu fazia saindo de Papeete. Chegando no hotel estava caindo pelas tabelas da longa viagem de avião entre a Ilha da Páscoa e Tahiti, por isso tendo ido dormir logo em seguida. Novas emocões estariam me esperando no dia seguinte, e elas vieram em torrentes.

Em 1969 o conselho de arquitetura e urbanismo local emitiu um decreto exigindo que todos os prédios proeminentes construídos no país a partir daquela data seguiriam um estilo arquitetônico tipicamente polinésio. Nós ainda estávamos lá quando essa fachada de hotel de luxo foi construída. Essa foto eu tirei em uma de minhas incursões de bicicleta pela estrada que contorna a ilha.

Depois de estar ausente por quarenta e cinco anos tudo o que queria fazer era comparar as imagens que ia visualizando com as que estavam gravadas em minha memória. Essa comparação não deixou qualquer vestígio de decepção. Afinal cada cantinho do planeta nesse meio tempo sofreu fortes modificações e Tahiti não seria exceção. No entanto, se mudanças bruscas ocorreram, elas não conseguiram destruir o charme que é marca registrada da Polinésia. O que hoje é difícil de encontrar, pelo menos na ilha de Tahiti, são os Fares ( casas em taitiano) feitos de paredes de bambu, telhados de folhas de coqueiro trançadas e esteiras forrando o chão, como eram tão comuns então. Elas eram mais frescas no verão e tinham tudo a ver com a cultura local, mas afinal no século 21 existe pouco espaço para saudosismo.

Em 2014 o emprego do estilo arquitetônico da cultura polinésia continuou sendo adotado nos novos prédios. Esse é o Hotel Meridian, onde fiquei hospedado durante minha estada em Tahiti, um prédio de extremo bom gosto.

Espero voltar a Tahiti mais uma vez, se possível a bordo de m veleiro e em companhia de minha família, para que eles possam compartilhar de todas as emoções que senti. É uma pena que minha filha não conheça o lugar onde nasceu, logo ela que já viajou para os mais variados lugares. Quando dessa vez visitei o Park Bougainville, o lugar onde Eileen costumava levar a Astrid em seu carrinho de bebê para aproveitar o sol da manhã, meus olhos ficaram banhados em lágrimas.

Eileen costumava levar Astrid ao Park Bougainville de manhã cedo, pois mais tarde o calor era muito forte. O "Sea Bird"ficava estacionado na orla logo do outro lado da rua.

O parque não mudou muito, tendo mantido a atmosfera de um lugar para se respirar ar puro e se refrescar na sombra de árvores frondosas. A placa com o nome do parque, mesmo sendo parecida com a da foto que tirei naquela época, sem dúvida não é a mesma.

Quando vivíamos em Tahiti foi construído o prédio da Assembleia Territorial, uma construção da altura de um prédio de uns oito andares cuja estrutura era toda de madeira laminada, um prodígio de inovação na época. Esse prédio foi demolido e agora um outro edifício ocupa o memo. espaço, esse menos arrojado, mas sem dúvida mais funcional. No entanto isso me trouxe uma pequena decepção, pois o prédio original me causou grande espanto. Aquela estrutura original era tão bonita e tão arrojada!

Eu era, aliás sou até hoje, um admirador fanático da tecnologia de laminado moldado em madeira, pois o Sea Bird era construído por esse sistema e estive envolvido no desenvolvimento do projeto e na construção do maior veleiro de laminado moldado já construído, o mega iate Antônia, fabricado em Porto Alegre durante os primeiros anos da década de oitenta. Acompanhar o levantamento desse prédio em 1969 foi para mim de arrepiar os cabelos.

Eileen estendendo fraldas para secar no guarda mancebo do Sea Bird. Poucas semanas depois o Sea Bird estaria sendo vendido para o jornalista/radialista Michel Le Noan. Dessa vez perguntei a várias pessoas se conheciam o destino do Sea Bird, mas ninguém com quem falei jamais ouvira falar desse barco.

Quando morávamos a bordo de nosso mini-veleiro em um dos lugares mais badalados do mundo, sentíamos como se fossemos o casal mais feliz do planeta. No entanto com o nascimento da Astrid começamos a achar que um barco de vinte e cinco pés de comprimento total com a largura de uma faca cortando a água como não sendo o ideal para se criar uma criança a bordo, principalmente quando navegando em alto mar. Não nos arrependemos nem por um minuto de termos colocado o barco à venda. O bem-estar de nossa filha estava acima de todas as outras coisas.

Eu adorava essa cerveja. Em 1969 existiam duas marcas de cervejas locais: a Hinano e a Manuhia. A Manuhia não existe mais e agora a Hinano impera soberana. Quando visitávamos o mercado municipal para adquirir suprimentos para o Sea Bird sempre aproveitava para pedir uma Hinano para saborear no barzinho existente no mercado. Dessa vez não comprei nada, mas a cervejinha estava lá me esperando.

Me lembro como se fosse hoje que quando íamos fazer compras no mercado as matronas taitianas sempre nos vendiam seus produtos por um preço muito maior do que cobravam para seus conterrâneos, enquanto nas barraquinhas dos chineses os precos cobrados eram os mesmos para qualquer pessoa. Hoje a comunidade nativa exerce as funções menos nobres na ilha, como motoristas, jardineiros, etc., enquanto os chineses estão todos ricos.

Moorea é o lugar mais bonito que conheço. Em 1968 passamos o natal mais inesquecível de nossas vidas a bordo do veleiro de linhas clássicas Te Revá, pertencente ao nosso melhor amigo na Ilha, o aventureiro Francis Dumansky, o popular Popov. O remador no caíque era o nosso amigo Jacques, um dos personagens de nossa história.

Sendo curta minha escala preferi ficar em Tahiti e não visitar Moorea, mas não poderia deixar de tirar essa foto da ilha da fantasia vista de Punauia. É uma pena que o relógio da história não ande para trás nunca... mas nesse caso é feito se o relógio tivesse pelo menos parado no tempo. A única coisa que senti falta nessa foto foi a canoa com balancim que fotografei quarenta e cinco anos antes.

Embora a encantadora laguna de Punauiá estivesse ã distância de um cuspe do lobby do hotel, os hóspedes milionários americanos que predominavam preferiam ficar saboreando seus drinks prediletos imersos até a cintura nessa laguna artificial do que se aventurarem na verdadeira laguna, muito mais bonita e atraente. Para eles, estar nas Bahamas, nas ilhas gregas ou na Polinésia, é a mesma coisa.

Os bangalôs em palafita construídos dentro da laguna na propriedade do hotel foram uma novidade para mim. Alíás em 1969 não existia hotel nenhum ali e a paisagem que conheci era igualzinha a que Wallis, o descobridor da ilha, e o Capitào Cook, que lá chegou pouco tempo depois, conheceram, sem nenhuma diferença. O que foi um choque para mim foi ter descoberto que não existe mais vida na laguna onde esses bangalôs foram instalados. No meu tempo existiam milhares de cardumes de todos os tipos e cores de peixinhos coloridos que viviam nos corais. Quando nadávamos eles vinham nos olhar com curiosidade sem se importar que dividíssemos seu espaço conosco. Fiquei pensando que talvez o mar de coral possa estar morrendo.

Agora a comunidade náutica de recreio, tanto local, quanto internacional, não mais se aloja na orla beira mar de Papeete. que hoje é uma praça pública. Agora o "point" dos cruzeiristas e velejadores locais é a grande marina construída em Punauia. A confraternização que antes se dava no calçadão da orla, agora se dá no bar da marina, onde uma atmosfera bem legal, com música ambiente e muita cerveja, se parece com a de todos os centros de vela de cruzeiro do mundo.

Atualmente existe um boa quantidade de mega iates disponíveis para charter em qualquer lugar da Polinésia Francesa. Esse catamarã está pronto para levar dezenas de pessoas para qualquer das ilhas dos mares do sul.

Esse mega iate de charter estava estacionado no cais de Papeete. É chocante compará-lo às escunas que ligavam as ilhas quarenta cinco anos atrás, cujas partidas para as paragens longínquas era uma de minhas diversões prediletas assistir, quando engradados contendo galinhas, às vezes porcos, motonetas, passageiros e todos os tipos de cargas se misturavam numa confusão incrível, havendo sempre as lágrimas de separação de um grande amor. Hoje a maioria das ilhas possui aeroporto e as escunas não são mais o único meio de se alcançar as ilhas mais remotas.

Parece que foi ontem que Eileen e eu íamos ao mercado fazer nossas compras. A diferença é que hoje tem sua estrutura pintada com cores alegres em vez do cinza chumbo de nossa época, e não é mais um lugar ocupado principalmente apenas por nativos.

A catedral onde Astrid foi batizada está lá igualzinha como era antes... A rua está melhor pavimentada agora, só sentimos falta de nossos amigos, pois não consegui encontrar nenhum deles. Um sentimento de nostalgia encheu meu coração.

O livro "Do Rio à Polinésia" conta a história do batismo com detalhes:

Quando Astrid completou um mês de idade decidimos batizá-la. Esse batizado veio a se tornar o principal acontecimento no Water Front por um bom tempo. Convidamos um montão de amigos, entre eles nativos, residentes franceses e a comunidade cruzeirista internacional. Convidamos Catherine, a esposa de Pièrre Deshumeurs, o tripulante de Bernard Moitessier, e o nosso melhor amigo na ilha, Popov, para serem os padrinhos, e usando bermudas, nosso traje de gala, dirigimo-nos à igreja para a cerimônia. O único incidente do dia foi a recusa do padre de batizar a filha como Astrid Tahiauutona, o nome que nos tinha sido oferecido como presente por uma nativa das ilhas Marquesas, alegando que era um nome pagão, como se para o Ser Supremo pudesse fazer diferença o nome das pessoas.

A recepção que se segui não pode ser comparada ao banquete boca livre oferecido pela Metro Goldwin Mayers para toda a população da ilha durante a filmagem de "O grande motim", o clássico estrelado por Marlon Brando, mas talvez por causa da incrível habilidade de Eileen de improvisar em situações precárias, e do grande interesse das mulheres nessas ocasiões, a festa superou todas as expectativas. Nossos amigos improvisaram uma longa mesa sobre a calcada, usando chapas de compensado sobre cavaletes, cobrindo em seguida com toalha de mesa. Eileen colocou uma jarra enorme com um ponche delicioso sobre a mesa, e uma grande quantidade de copos descartáveis, para que cada um se servisse à vontade, o jarro sendo reabastecido à medida que esvaziava. Além disso preparou suficientes sanduiches para ma legião. Cada convidado contribuía com um quitute, tudo isso aberto para qualquer um em plena calcada pública. Não foi surpresa que em pouco tempo o lugar ficasse lotado de amigos, pessoal que não conhecíamos e até turistas. A multidão só começou a se dissipar quando a jarra de ponche não foi mais reabastecida e quando já começava a escurecer, e com a Astrid em nosso colo, voltamos para o "Sea Bird".

Esse foi um dos dias mais felizes de nossas vidas. Iaorana Tahiti!