Volta ao mundo começando em Perth, Austrália - Parte III

Quando deixei Tahiti para trás, também me separei da viagem no tempo, o mergulho no passado que marcou minha estada na ilha.

Minha escala seguinte foi em Auckland, um lugar onde nunca estivera antes, embora seja o país da família de minha esposa Eileen. Apesar de minha escala ter sido curta, apenas cinco dias, estava extremamente motivado para realizar essa visita, uma vez que em 1969 estávamos navegando pelo Pacífico com destino exatamente à Nova Zelândia quando tive que interromper a viagem na Ilha de Tahiti por causa do nascimento de nossa filha. Por outro lado, como uma pequena compensação por não ter atingido o principal objetivo, chegar à terra de Aetearoa., existe um ditado que afirma que depois de chegar a Tahiti e conhecer a Polinésia Francesa, tudo o mais é anticlímax.

Mas a Nova Zelândia também era um lugar que desejava muito conhecer. Eileen e eu pretendíamos fincar raízes por lá e era meu sonho abrir uma oficina de construção de barcos de recreio nesse país, uma vez que achava a Nova Zelândia o lugar ideal para exercer essa especialidade. Se iria ser bem sucedido ou não, isso não posso garantir, mas somente na conjuntura, acho que iria me dar bem.

Existem muitos veleiros clássicos de construção em madeira mantidos como se fossem obras de arte. Esse da foto, estacionado na West Haven Marina, próximo da ponte que liga Auckland Sul à outra parte da cidade que fica ao norte da baía, estava disponível para charter. Notem a limpeza da água bem no centro da cidade!

Esse motor-sailer de dupla proa com bandeira dos Estados Unidos também está disponível para charter e pode ser contratado no local, a orla marítima bem no centro da cidade.

B & G Yacht Design já tem alguns clientes na Nova Zelândia, mas, sendo realistas, ainda somos ilustres desconhecidos nesse país. Por essa razão meu primeiro interesse nessa visita foi procurar ver o maior número de barcos possível para tentar descobrir que tipo de embarcação os neozelandeses realmente preferem. Os Kiwis se vangloriam que o país deles é o lugar onde existem mais embarcações de recreio por habitantes no mundo, a relação sendo de um barco para cada três habitantes. Visitando a West Haven Marina, a qual creio ser a maior de Auckland e talvez a maior do país, descobri que existe um montão de veleiros de cruzeiro não muito novos medindo em média uns nove metros, por aí. Parece que o que importa mais para eles é possuir um barco robusto e confiável, com boas linhas e que navegue bem, pouca importância sendo dada a status e modismos.

Esse ketch de linhas clássicas é um dos muitos disponíveis para charter em Auckland. Os turistas têm muitas opções de escolha e o passeio pode ser combinado na hora.

Ninguém pode dizer que conhece alguma coisa sobre um país passando apenas poucos dias em sua cidade principal, ainda mais porque nesses poucos dias, apesar de ter tentado, não encontrei uma só pessoa do meio náutico com quem pudesse trocar ideias. Mesmo assim, por tudo que pude observar, o que parece ser o principal objetivo dos velejadores locais é possuir um veleiro forte e seguro para velejar com a família ou com amigos.

Esse veleiro é uma réplica reduzida dos barcos da antiga fórmula da América`s Cup, usado para treinamento, pois era muito mais barato de ser construído embora permitisse avaliar o potencial do verdadeiro competidor.

Os barcos de competição que pude observar eram principalmente veleiros monotipo de regata. Máquinas de regata mesmo, vi muito poucas. Os clientes do escritório que estão construindo nossos barcos na Nova Zelândia escolheram em nossa lista de planos de estoque exatamente o mesmo tipo de barcos que pude observar às centenas nos lugares por onde passei, o que me deixou bem otimista quanto a no futuro termos mais projetos nossos sendo construídos no pais.

Monumento de arte contemporânea em uma praça pública. Embora não seja essa exatamente minha praia, tenho que admitir ser uma peça de alta criatividade.

Depois de dar uma boa espreitada na flotilha de barcos de recreio local, ainda tinha que passear um pouco pela cidade, para pelo menos poder dizer que estive lá. (Admito que sou fanático pela náutica, mas não tanto a ponto de não querer fazer mais nada além de ficar vendo os barquinhos).

Foi o maior barato conhecer o lugar. Como Auckland é encantadora! Eu não me importaria de escolher essa cidade para morar lá pelo resto da vida. Ainda bem que a família está pretendendo ir lá nesse verão, talvez alugando um motor home para que possamos conhecer melhor o país. Aí percorreríamos as ilhas de norte a sul, com ênfase em conhecer Bay of Island, um lugar ao norte de Auckland que tem fama de ser espetacular, comparável ã região de Angra, Paraty, no Brasil, e aproveitar para visitar nossos clientes Howard e Noelle Bennett que estão construindo um MC 34/36, o Smocko, em Dunedin, Ilha do Sul, um barco que está ficando um espetáculo de bem construído.

Howard e Noelle Bennett estão construindo um Multichine 36 em Dunedin, Ilha do Sul. Se conseguirmos viajar para a Nova Zelândia nesse verão é possível que possamos ver o barco deles já concluído. Cortesia: Howard & Noelle Bennett.

Em maio de 2014 o Smoko estava nesse estágio de construção ja tendo o seu interior bem adiantado. Howard estava programando pisar um pouco no freio durante os meses mais frios do inverno, uma vez que o epóxi não cura a uma temperatura abaixo de 13o Celsius e o inverno na Ilha do Sul é muito rigoroso. Como pretende terminar a obra ainda esse ano, é provável que o barco já esteja bem diferente da foto acima. Cortesia: Howard Bennett.

Auckland é uma mistura de arquiteturas do século 20 e do século 21, com algumas construções do século dezenove em estilo vitoriano, hoje tombadas como monumentos históricos. Que combinação atraente! Os novos prédios todos emparedados com vidro não ficam devendo aos de nenhum outro lugar em matéria de gosto e arrojo arquitetônico.

Um templo batista em estilo gótico próximo ao centro da cidade. Toda a cidade é um colírio para ser vista!

Outro edifício de construção recente que é o estado da arte em arquitetura. Existem muitos outros em Auckland compartilhando lado a lado com construções de estilo mais tradicional. Tomara que a pressão imobiliária não acabe com essa coexistência.

Visitei o Maritime Museum, um dos lugares mais badalados da orla. Esse museu mostra bem a saga dos primeiros imigrantes do Reino Unido e do resto da Europa, que embarcavam para lá na cara e na coragem, sendo seu destino no novo país uma loteria. Esse modelo de navio de passageiros é a reprodução de um dos mais famosos que faziam a linha para a Nova Zelândia. A nova onda de imigrantes vem principalmente da Ásia.

O dia seguinte ã minha chegada foi um domingo, o dia da Maratona de Auckland. Esses competidores eram do grupo de trás da corrida. Para minha surpresa nenhum queniano ganhou a corrida, essa glória tendo ficado para um neozelandês.

Em meu último dia em Auckland fiz duas viagens de ferry, uma para Devonport, na Grande Auckland, no lado norte do golfo, e outra para a Ilha de Waiheke, um parque nacional belíssimo onde pude conhecer a mata nativa do país, uma vegetação apinhada de samambaias e outras plantas primitivas.

A Sky Tower, o marco da cidade, pode ser visto de longa distância, tornando o GPS no celular um recurso desnecessário para o turista se orientar.

De Auckland voei para Sidney, e de lá peguei um voo regional para Perth, a cidade onde Eileen e eu iremos ficar. Essa volta ao mundo em menos de trinta dias foi útil para me esclarecer, pelo menos um pouquinho, sobre quais são os anseios dos marinheiros de vários lugares fora das Américas e da Europa, onde posso dizer que tenho uma razoável ideia de qual sejam. A conclusão que cheguei é que se continuarmos projetando barcos robustos, bons de mar e que inspirem confiança, teremos a porta aberta em qualquer mercado.

Acompanhar nossos clientes de perto sempre que solicitados, como é nosso hábito, é uma estrada de mão dupla. De um lado ajudamos nossos construtores em caso de dúvidas. De outro lado aprendemos com eles onde encontram dificuldades, o que nos permite melhorar os detalhes mostrados em nossas plantas e os roteiros de construção.

Conclusão da volta ao mundo. Eileen e eu juntos em Perth, Austrália.