Multichine 28 - Duas histórias em 2015

Marimbondo conquista sua maioridade. As primeiras mil milhas navegadas no barco construído com suas próprias mãos você nunca esquece.

Mais um veleiro da classe MC28 construído por um amador tem um forte motivo para comemoração. Esse veleiro é o Marimbondo, construído por André Ferraz, um professor universitário que tem uma grande paixão pelo esporte da vela e por construção amadora. Ele nos enviou um gentil e-mail que reproduzimos a seguir:

Caros amigos da B & G Yacht Design.

Estava por mandar um email sobre as andanças do MC28 Marimbondo e fui deixando para depois. Vi a notícia no site sobre o Samoa 28 e me lembrei que em nosso último mini cruzeiro encontrei o pessoal do Terrius na ancoragem da Praia da Almada em Ubatuba.

É muito gratificante quando um construtor amador que fez seu barco com as próprias mãos no jardim de sua casa sai para velejar em sua criação. É a grande recompensa pelo trabalho duro realizado. Agora André está comemorando as primeiras mil milhas navegadas a bordo do Marimbondo. Foto: André Ferraz.

No anexo (pvt para info@yachtdesign.com.br) lhes envio algumas fotos recentes do Marimbondo. A primeira delas mostra o odômetro que marcou as primeiras mil milhas, dia 27 de dezembro (2 anos depois de ter ido para a água), no mesmo dia em que estávamos saindo para mais um minicruzeiro até Parati e região de Angra.

Marimbondo ancorado em uma das inúmeras enseadas da região do litoral de Ubatuba Foto: André Ferraz

Como já comentei em emails anteriores, o barco só tem dado alegria.
Veleja bem e é muito confortável. A autonomia de água e diesel é impressionante. Só para dar uma ideia, saímos dia 27/12 (eu e a Elaine) e voltamos para Ubatuba no dia 07/01. Não reabastecemos a água dos tanques nenhuma vez e os tanques da cozinha ainda tinham água sobrando.

O tanque que alimenta o banheiro acabou só na chegada em Ubatuba. O detalhe é que temos um pressurizador nesta linha e além da torneira do lavatório, temos chuveiro no banheiro e um chuveiro de popa para tirar o sal depois dos mergulhos.

O barco transmite muita segurança. Já pegamos alguns tempos ruins e nunca achamos que ficaríamos sem controle da situação. Também já corremos algumas regatas em Ubatuba e o barco não fez feio. Nas regatas barla-sota fica um pouco difícil, pois ainda não compramos um balão assimétrico para as "descidas" com ventos mais folgados. Mas numa dessas brincadeiras entramos no Ubatuba Sailing Festival de 2013.

Foram 4 regatas em dois finais de semana. A primeira foi a volta na Ilha da Vitória (17 milhas de ida e mais a volta). O vento apertou (passou dos 25 nós várias vezes) e na classe bico de proa que contava com 8 barcos, tivemos 7 desistências. O Marimbondo e a tripulação teimosa (só eu e a Elaine) foi exceção e fizemos um primeirão na classe naquela regata.

Foram 7,5 h para fazer as 34 milhas. A "subida" foi com vento de proa e forte e a distância foi bem maior do que as 17 milhas da linha reta. Por pouca experiência naquela época, não diminuímos a mestra e o barco adernou um bocado, mas nunca perdeu o leme. Na "descida", com 25 nós na alheta, vi o marcador de velocidade de casco informando impressionantes 8,7 nós. Ainda fizemos dois terceiros e um quarto lugar nas outras regatas e ficamos em segundo na geral do bico de proa. Muito divertido e instrutivo.

No último cruzeiro de fim de ano decidimos não andar à motor (só quando fosse indispensável). Chegamos a nos arrastar com 3-4 nós de vento e o barco fazia 2 nós. Na volta para Ubatuba saímos 15 milhas para fora da ponta do Joatinga (usei o motor até lá) e então velejamos até Ubatuba em popa rasa, balançando um pouco, mas com o piloto automático levando o barco sem perder o rumo.

Besteira falar muito mais: é um barcão.

Mais um obrigado pelo projeto e apoio na construção. Abraço e feliz 2015 para toda a família. Bons novos ventos na Austrália (agora ficou meio longe para levar o barco pra vocês conhecerem).
André e Elaine

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MC 28 Access, o globetrotter da classe

Flavio Bezerra é um dos amigos/clientes mais doidões e aventureiros que temos. Ele construiu o MC28 Access em um centro de construção amadora que existe no Rio de Janeiro, as dependências do setor náutico do Clube São Cristóvão de Futebol e Regatas, um polo de construção amadora conhecido em todo o país. Acontece que ao lado do clube existe uma das mais perigosas favelas do Rio de Janeiro, e Flávio, com toda a determinação que tem, dormiu em um pequeno quarto ao lado de sua obra durante o tempo que durou a construção, onde as paredes estavam crivadas de balas dos tiroteios que o corriam com frequência na parte da noite, por causa do tráfico de drogas ou outras atividades do crime organizado.

Quando o barco ficou pronto, logo em seguida Flavio pulou para dentro dele e está vivendo ali até hoje. No fim da obra Flavio estava quase falido, sem grana para comprar motor, leme de vento, piloto automático e outras coisas mais. Só um cara muito ousado se manda sem ter toda essa parafernália instalada a bordo. e foi exatamente isso que ele fez. Pouco tempo depois do barco ficar pronto saiu velejando para o Caribe. e para complicar mais as coisas, nessa passagem colidiu com uma baleia, tendo o leme se partido no impacto. Apesar de tudo isso, chegou firme e forte ao Caribe, sem pedir ajuda a ninguém. Em Antigua arranjou um emprego que o ajudou a equilibrar as finanças. Sendo um capitão amador licenciado, consegui fazer algumas entregas de barco na Europa e melhorar seu caixa consideravelmente.

Flavio Bezerra quando começou a morar a bordo lá pelo ano de 2006. Cortesia: Flávio Bezzerra

Flavio é uma dessas pessoas que tudo que faz, faz bem feito. É difícil encontrar um desafio que ele não supere. Esse dourado ele pescou na travessia entre Panamá e Nuku-Hiva, Ilhas Marquesas, e aposto que as refeições que proporcionou foram uma mão na roda para ele chegar bem alimentado do outro lado do Pacífico. Nessa altura do campeonato ele já tinha tudo o que é importante para se fazer um cruzeiro bem sucedido, como leme de vento, painéis solares, gerador eólico, piloto automático, e por aí vai...Selfie: Flávio Bezerra

Estive em Tahiti em novembro de 2014, e uma de minhas curiosidades nessa visita era se descobria onde estava o Access, uma vez que sabia que tinha chegado na ilha. No entanto não encontrei pista alguma do navegador misterioso. Andei por muitos lugares, inclusive na grande marina localizada em Punauia, mas de nada adiantou minha busca. Bom para ele, afinal quem chegou ao paraíso não precisa encontrar ninguém de fora. Foto: Flávio Bezzerra

Flávio é um surfista fanático. Não importa onde vá, sua prancha de surf está sempre presente. Se ele convidar um amigo, ou uma amiga, para uma velejada a bordo do Access, essa pessoa irá ter que dividir o beliche com a velha prancha. Esse seu jeitão alegre e esportivo é que encanta quem o conhece, não importa onde o Access esteja ancorado. O que é difícil saber ao certo é quando sua volta ao mundo irá terminar. Apostamos que nem ele saiba, mas de nossa parte pouca diferença faz, contanto que continue publicando as fotos dos lugares por onde o Access vai passando.

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Alguns construtores de MC28 estão bem animados com o feito do Flávio Bezzerra. Vimos comentários no Face Book de proprietários de MC28 sobre outros proprietários que disseram pretender fazer viagens longas com seus barcos, perguntando porque não fizeram ainda. É bacana essa atmosfera de clube que existe entre muitos donos de MC28. É como se fosse uma família!

No fim de ano, em nossa habitual mensagem de congratulações, incluímos um MC28, quase escolhido no "cara ou coroa" para incluí-lo entre os doze homenageados de 2014. Outros donos de MC 28 então nos chamaram de puxa-sacos do cliente cujo barco foi escolhido. Para consertar um pouquinho nosso erro, vamos incluir nesse artigo mais um MC28 que merece constar de nossa divulgação, o Safo de Claudine da Silva Franco. (Mas sabemos que outros vão nos chamar de puxa-sacos do novo homenageado:) Mas também nossos amigos do clube dos proprietários de MC28 sabem que são muito bem-vindos para escreverem relatos com boas fotos de suas aventuras para publicarmos em nossas notícias, como estamos fazendo agora com o André Ferraz.

Safo é um MC28 construído com o máximo esmero pelo construtor amador Claudine da Silva Franco. Claudine pretende viajar com seu barco de Santos até o Mediterrâneo, sendo seu objetivo final a Ilha de Capri no mar Adriático. Cortesia: Claudine da Silva Franco.

Nosso amigo Claudine da Silva Franco construiu o super-caprichado MC28 Safo e agora está se preparando para ir velejando desde Santos até a Ilha de Capri, uma viagem que o irá colocar no "Hall da Fama" dos veleiros do escritório.

Uma vez publicamos uma matéria sobre o fato do MC28 ter sido projetado em volta de uma cozinha. Olha a cozinha do Safo como é ampla e bem planejada! Foto: Claudine da Silva Franco

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