Kiribati 36 Green Nomad navega até a beira da floresta amazônica

Deixar o Green Nomad sozinho numa poita ou marina nunca é algo que fazemos com boa vontade.

Green Nomad a contrabordo do Joceba no Rio Mahury

Mas desta vez tínhamos um bom incentivo: nossos amigos aqui na Guyana Francesa são exploradores experientes nas florestas tropicais, e como era época de férias escolares eles levaram seu filho e outro amigo para uma expedição de 8 dias para dentro da floresta Amazônica, e nos convidaram para ir.

Para chegar ao destino teríamos que navegar quase 30 Milhas Náuticas em um bote, e nosso bote inflável de 2,8m, embora muito bom como barco de apoio, claramente não iria sobreviver à viagem.

Nossa rota pelos rios da Guyana

Por isso pegamos emprestado o bote do Joceba, amarelo como o seu barco mãe, e nele colocamos tudo o que iríamos precisar para sobreviver uma semana ou mais dentro da floresta tropical, onde iríamos dormir em abrigos que são construídos em concessões temporárias de terra que o governo daqui dá aos cidadões que se dispuserem a construir um. Estes abrigos são conhecidos como Carbets.

Um Carbet, um abrigo na floresta

Estes abrigos são telhados com mais ou menos anexos, variando em complexidade desde um telhado simples a cabanas com bancadas de cozinha e banheiro.

São construídos normalmente próximos às margens dos rios e tem docas para pequenos barcos.

Esperamos então um dia de bom tempo e uma maré enchente para deixar a marina de Dégrad de Cannes em companhia dos dois outros botes.

Arrumacão para partir no bote do Joceba

Edi arruma sua canoa

A viagem leva 6 horas, e fizemos uma parada para comer e descansar do barulho e vibração do motor de popa. Como a maré enchente só começava ao meio dia nós tínhamos um cronograma apertado para chegar antes do anoitecer ao primeiro abrigo.

Edi e Claudia e Lucky, o cachorro!

Laurent e Angelo, filho de Edi e Claudia, e futuro homem da floresta!

A própria jornada em bote já seria motivo suficiente para toda a preparação, pois o cenário é muito bonito. Começa no Rio Mahury, largo e onde fica o porto comercial de Dégrad de Cannes, e que fica mais estreito e com as margens mais cobertas por floresta à medida em que se avança, e para chegar ao destino passamos por 3 bifurcações de rio. Com cada bifurcação o rio seguinte fica mais estreito e tem as margens com floresta mais densa, até que no final da jornada o rio é pouco mais que um riacho no qual se tem que abaixar a cabeça para evitar galhos e folhas.


30 milhas náuticas num bote com suprimentos para uma semana!

Ao longo de todo o caminho passamos por apenas dois povoados, a cidade de Roura e um povoado habitado por Ameríndios.

A cidade de Roura

Pelo fato da hora ser avançada e não podermos cobrir as últimas milhas até o destino com luz do dia, passamos os dois primeiros dias num Carbet chamado Dégrad la Caille, num local absolutamente perfeito, mas que não era muito confortável no tempo constantemente chuvoso devido ao fato do local para fazer fogo e cozinhar não ficar coberto por um telhado ligado à cabana principal.

Chegando ao Carbet Dégrad la Caille, às margens do Rio Kounana

Quando houve uma quebra nas chuvas e após ter explorado as redondezas em Dégrad la Caille resolvemos nos movimentar para um outro Carbet, camado Dégrad Lalanne.

Estes abrigos são de propriedade particular, e se os donos decidirem vir ocupá-los não há nada a fazer a não ser arrumar tudo e partir em busca de outro abrigo vago. Portanto a cada vez que se ouve um ruído de motor existe uma grande possibilidade de se ter que mudar de acampamento, pois não existe nada mais no local, e uma visita sempre será ou do dono do lugar, de outro explorador em busca de um telhado ou de caçadores.


A floresta e rio são o habitat de um número incrível de espécies de animais terrestres, pássaros e peixes, mas temos que admitir que, à parte de insetos e sapos, não os vemos muito frequentemente. Muitos tem hábitos noturnos, e como a caça é permitida para algumas espécies, eles são muito tímidos e desconfiados dos seres humanos, como não poderia deixar de ser. .

Alguém por aí?

Fizemos vários passeios a pé e em canoas, e nestes conseguimos ver alguns animais. Edi é um guia que conhece bem esta floresta. Além de fabricar facas artesanais ele também atua como guia em expedições, treinando gente para caminhar na mata.

Ele sempre leva seu fuzil de caça, pois mesmo aqui é necessário estar vigilante e atento com a segurança, por conta de operações de garimpo ilegal de ouro, que atraem gente que não hesitaria em atacar um grupo indefeso. Além disso também por aqui existem predadores grandes como a Onça Pintada.

Não importa quantas vezes ouvimos falar da floresta amazônica, ou quantos documentários vimos, o fato é que não se pode ter ideia de como realmente é até estar caminhando por ela. No solo vimos que a floresta não é tão fechada como se imagina, pois a copa das árvores bloqueia a maioria dos raios solares e as árvores não crescem muito próximas umas das outras. Em poucos lugares tivemos que caminhar onde não se via o chão totalmente, e nesses casos a imagem de uma cobra venenosa pronta para dar um bote sempre aparecia na mente. Em outros caminhos mais abertos, quase sempre há muitas árvores caídas através das trilhas, e para progredir tem-se que passar por cima ou por baixo delas, e neste caso o risco de picadas de cobra também é grande.

Cenas típicas da floresta

Vimos apenas uma dessas cobras venenosas, e não foi nas trilhas, mas no Carbet onde estávamos, nos degraus. Eu a vi ao subir, e já várias pessoas e o cachorro haviam passado por ali. Se alguém tivesse pisado nela poderia ter havido um acidente.

Não muito fácil de ver!

O fato de não ver animais diretamente não significa que não tenhamos visto ou ouvido evidência da presença deles. Havia sempre pássaros cantando, alguns dos quais conseguimos gravar com a câmera de vídeo GoPro, e nas caminhadas sempre se viam as tocas de mamíferos grandes que dormem durante o dia.

Uma árvore de bom tamanho!

De madrugada e ao anoitecer também se ouviam os gritos dos Bugios ou Guaribas, um tipo de macaco. E ouvimos também ruídos mais assustadores, os de árvores que caem na floresta depois de chuvas fortes, pois o solo amolece e os ventos aumentam. Uma delas caiu a uns 50 metros do nosso Carbet. Logo percebemos que este é um dos maiores riscos da floresta, muito mais presente que qualquer ameaça de animais.

Conseguimos ver diretamente alguns pássaros grandes como o Mutum (Hocco na Guyana), e o mais interessante contato foi quando vimos duas Lontras Gigantes (conhecidas como Lontras Brasileiras ou Ariranhas), que vieram checar o que estávamos fazendo quando tirávamos água de dentro de uma canoa abandonada que encontramos no fundo de um riacho.

Neste momento vimos duas Lontras Gigantes, mas não tínhamos uma lente com zoom para registrar!

Em outra ocasião saímos com o bote especificamente para parar e esperar por sinais de vida selvagem, ficando amarrados num galho seco na margem do rio. E com certeza, depois de uns 15 minutos uma Preguiça começou a se movimentar numa árvore quando uma chuva a incomodou. Se não estivéssemos parados observando e a chuva não tivesse chegado, nunca saberíamos que logo ali estava este animal enorme. E assim suspeitamos que muitas vezes estivemos bem perto de animais grandes sem estar cientes disso.

Esperando para ver vida selvagem

A Preguiça é difícil de ver. Esta é uma porção de uma foto muito maior.

Um dos nossos companheiros de acampamento saiu para caçar, e trouxe um Mutum numa das vezes e uma Paca em outra. Há regras que permitem a caça de algumas espécies mas não a sua venda. Esperamos que sejam respeitadas e que a caça seja uma forma de procurar alimento para os habitantes locais, e não um esporte para turistas, como acontece com a pesca em muitos lugares.

Cozinhávamos em fogo de lenha, tomávamos banho com um balde ou mergulhando no rio, e nos finais de tarde fazíamos um Happy Hour multilíngue com um aperitivo chamado Ti`Punch, que é Rhum branco com limão e mel ou melaço de cana.

Depois de jantar conversávamos e alguns jogavam cartas ou dominó, outros liam com a ajuda das luzes de cabeça antes de se retirarem para as redes com mosquiteiros.

Laurent e o seu Ti`Punch

Depois de uma semana desta vida simples empacotamos tudo e tomamos o caminho de volta, e encontramos o Green Nomad a salvo nos esperando. Incrível pensar que bastaria baixar o mastro para podermos navegar com ele até o seio da floresta, de volta ao Carbet onde ficamos. Quem sabe um dia não fazemos isso mesmo!

Acima de tudo foi uma experiência de beleza. Forte e simples como apenas a natureza pode proporcionar! E poder chegar tão perto disto levando nossa casa (barco) é um dos grandes atrativos da vida em cruzeiro para nós.


Imersos em Verde

Para saber mais sobre o Kiribati 36, a casa flutuante que nos leva por este mundo bonito, clique aqui.