Multichine 28 Fiu agora tem um terceiro dono

O Multichine 28 Fiu que construí com a ajuda de minha esposa Eileen, inaugurado no ano de 2000 e com o qual pretendia voltar ao Pacífico Sul, agora tem um terceiro dono.

A história da classe MC28, especialmente no que se refere ao veleiro Fiu é bastante conhecida, pois já publicamos vários artigos sobre ela em nossa seção de notícias, as mais antigas estando arquivadas no botão clube do home-page do projeto em nosso site.

Hoje com a classe se aproximando dos duzentos veleiros navegando ou sendo construídos, agora a divulgação das novidades não depende apenas de nossa divulgação, e nem conhecemos todas as histórias sobre esses barcos. Mas agora soubemos de uma novidade que vale a pena informar: O Fiu agora tem um terceiro dono.

O Fiu foi vendido no ano de 2007 para o brasileiro/canadense Beto Roque, que o rebatizou de Stella del Fioravente. Agora em 2015 o barco mudou de mãos mais uma vez e voltará novamente a se chamar Fiu. Cortesia: Beto Roque

Recebi esse gentil e-mail de Beto Roque, que foi a pessoa que me adquiriu o Fiu no ano de 2007, transcrito abaixo:

"O Alexandre vai cuidar bem do barco. Tive sorte de encontrar um comprador como ele, que apesar da distância (ele está em Salvador), tem se mostrado entusiasmado e por isso estou dando todo o apoio que ele precisa. Ele é um jovem Capitão do Exército, parece que sua esposa também é Oficial das FFAA's. A história dele é semelhante à minha, adquiriu o projeto e depois ficou no dilema da logística de construção por causa de sua carreira e compromissos familiares. Procurou um MC28 para comprar, mas é difícil encontrá-los, quem tem não vende a não ser como eu que passei para exatamente o mesmo projeto, mas maior. Chegou a quase comprar um Delta 26 (eu havia comprado, lembra?). Dois dias depois que eu anunciei o barco ele me ligou todo entusiasmado. Sei que vai tratar bem do barco, pois está realizando um sonho.

O Alexandre é do tipo "low profile" tem muito respeito para com o mestre, mas quero dizer para ele que o mestre também se transforma em um grande amigo, como somos agora apesar da distância, Canadá, Brasil, Austrália, a gente sempre permanece em contacto.

Um grande abraço, Cabinho, e acredito que o Alexandre vai se comunicar com você assim que a timidez for vencida. Na verdade mais do que timidez é uma grande dose de respeito que todos temos por você. Abraços,

Beto Roque"

MC 28 Fiu esperando amigos para um "happy hour"em Fernando de Noronha após a Refeno de 2003. Eileen e eu moramos a bordo do Fiu por dois anos e meio nos sentindo tão bem instalados como se estivéssemos vivendo em um apartamento.

O salão do barco em 2015. Tudo continuou igual durante todo esse tempo. A mesa da sala é ampla o suficiente para que seis pessoas possam fazer uma refeição sem se sentirem apertadas. Cortesia: Beto Roque

O Fiu foi projetado para requerer o mínimo de manutenção, o que para mim é um sonho, pois o veleiro de cruzeiro é feito para nos proporcionar felicidade e não para nos escravizar. E é esse o grande segredo do barco. As fotos que anexei são minhas no tempo em que o barco nos pertencia, e do Beto Roque tiradas recentemente. O barco está tão igualzinho que a princípio pensei que as fotos eram as minhas antigas. A única coisa que gastou um pouquinho foi o verniz da cuba do banheiro, que é de latão polido e esse verniz serve para que o latão não perca o brilho. Na cozinha os dois azulejos holandeses que Eileen escolheu, estão lá do mesmo jeito que quando instalamos. Enfim, para mim parece a máquina do tempo!

MC28 Fiu dez anos antes. Minha esposa Eileen preparando um jantar a bordo para convidados. Já publicamos uma matéria sobre o MC28 contando que o barco foi projetado em torno de uma cozinha. Eileen que gosta de arquitetura de interiores de barcos definiu como desejava que fosse essa cozinha antes do projeto ser iniciado.

A cozinha do barco em 2015. Se mudou alguma coisa, foi para melhor. Onde tínhamos duas bicas acionadas por duas bombas de pé, agora são duas torneiras residenciais de alta qualidade acionadas por uma bomba elétrica automática. O resto está todo igual, até mesmo o abatjour com lâmpada de corrente alternada feito de palha trançada continua no mesmo lugar. Os azulejos holandeses decorando as almofadas das duas portas do armário sobre a bancada são marcas registradas da decoração da Eileen. Cortesia: Beto Roque

No dia seguinte recebi um outro gentil e-mail do novo proprietário do Fiu, o qual me deixou muito lisonjeado:

"Prezado Cabinho

Não o conheço pessoalmente, mas há muito acompanho as realizações da Família Barros e, depois, Barros e Gouveia. Foi quando li, ainda adolescente, As Fantásticas Aventuras do Maitairoa, que decidi que construiria meu barco e conheceria o mundo. Na ocasião, me encantei pelo projeto do Cabo Horn 35 apresentado no apêndice do livro.

Cresci no Rio lendo e ouvindo as histórias do lendário Sindicato Ajuricaba. Mas foi em 2000, no Rio Boat Show, que vi o Fiu numa vaga do pier da Marina da Glória. Estava com 25 anos, então mais realista, e foi quando decidi que o MC28 seria o barco a construir. Só o conheci por fora, mas, sem medo do clichê, foi amor à primeira vista!  Em 2002, precisei me mudar para Salvador. Cidade escolhida dentre as opções que tive por ser um porto propício às minhas aspirações náuticas, cuja experiência se resumia a velejadas (capotagens) de Laser na Lagoa de Araruama. Então, a vida seguiu outros rumos. Conheci minha companheira, me casei, tive um filho.

Foi só em 2010 que resolvi adquirir o projeto do MC28 para conhecê-lo em detalhes e tentar viabilizar sua construção. Recebi os planos por e-mail do Luis Gouveia. Estudei tudo, fiz muitas contas, mas fui concluindo que seria necessária uma mudança de rumo muito radical, afinal eu não tinha o tempo e o espaço necessários para uma construção bem sucedida, nem recursos para confiá-la a um estaleiro. Resolvi ir juntando dinheiro para comprar um barco usado ou em fase de acabamento. Mas como é difícil encontrá-los à venda, principalmente aqui no Nordeste. Tampouco é fácil se contentar com outro projeto quando já se tomou um por ideal.

Há uns dois anos meus pais se aposentaram e vieram para Salvador. É em seu barquinho, o Krill, um casco e convés de Delta 17 que meu pai terminou de montar, que fazemos nossos passeios pela Baía de Todos os Santos. Esses passeios ajudaram a transmitir o vírus para minha esposa. Então, nos engajamos na busca com mais determinação.

Depois de algumas negociações sem sucesso, quando quase adquirimos um Delta 26, já meio desanimados, encontramos o anúncio do Stella del Fioravante. Sem acreditar, exitei. Estava um pouco além do orçamento, muito longe e já devia estar vendido. Só liguei no dia seguinte, por insistência da minha esposa. Ainda estava disponível. Graças a um tio, portador do mesmo vírus há mais tempo, que se dispôs a ir para Florianópolis ver o barco, fechamos negócio com o Sr Roberto Roque, que foi super atencioso.

Ainda estou meio incrédulo com o fato de ter encontrado um barco da classe que pretendia, mas além disso, um barco com pedigree, construído por seu criador, um barco que inspirou muitos sonhadores como eu. Quanta responsabilidade! Ele está impecável. Será um desafio manter o padrão altíssimo de manutenção e o cuidado que o Sr Roberto dedicou ao Fiori. Assumo o compromisso sem medo, pois penso que veleiros não são meros bens que se compram, mas uma amizade que se conquista, e como tal, é preciso cuidado e atenção. Creio que o Sr Roberto pense da mesma forma.

O lindo nome Stella del Fioravante ficará com o Sr Roberto. Embora gentilmente tenha deixado a meu critério, é um desejo dele que achei justo, pois a origem do nome está muito ligada a sua história pessoal.

Tive a ideia de rebatizá-lo com o nome original, Fiu. Além de conhecer sua origem e achar muito criativo, seria uma deferência a seu criador e construtor. Acho que os muitos fãs do Fiu por aí concordariam. Fora isso, também seria uma forma de não contrariar muito o protocolo das entidades marinhas guardiãs dessas tradições. Não sou supersticioso, mas vá lá... No entanto, só o faria caso obtivesse seu consentimento. Por isso, peço que me deixe saber sua opinião sobre o nome.

Desculpe o extenso texto, mas é que foram muitos anos apenas observando o site e o fórum da RBYD. Agora não tive escapatória.

Cabinho, a chave do nosso amigo sempre estará a sua disposição. Desejo tudo de melhor para ti e sua família. Torço pela oportunidade de um dia conhecê-lo pessoalmente.

Forte abraço
Alexandre Rabello".

Um e-mail tão carinhoso como esse merecia uma resposta à altura. Essa resposta reproduzo a seguir:

"Oi Alexandre Fiquei contente em receber seu e-mail e ficarei muito honrado se ele voltar a se chamar Fiu. É bom saber que o modelo foi sua escolha pessoal no ano de 2000. Foi o ano da inauguração do Fiu. Ele foi projetado para nos levar de volta ao Pacífico Sul, onde eu e minha mulher Eileen vivemos a aventura mais inesquecível de nossas vidas, inclusive nossa filha Astrid tendo nascido lá. A preparação para retornar ao paraíso foi se  realizando sem pressa, pois sobrava pouco tempo para dedicar ao barco, em vista das solicitações profissionais de nosso escritório de yacht design. A demora foi ruim para nós, pois em 2007 Astrid, que é nossa filha única, foi contratada por uma firma australiana para trabalhar em Perth. W.A. e o escritório, então administrado por meu genro Luis Gouveia, que você conheceu por e-mail, se mudou para lá. Então minha esposa Eileen por problemas de saúde achou que não poderia mais realizar a viagem que fizera aos vinte e poucos anos de idade, e sem a companhia dela não fazia  sentido realizar a viagem. Foi então que decidimos vender o barco, tendo sido o Beto Roque, que agora você conhece, quem o comprou. Durante esses anos fizemos uma boa amizade com ele, o embaixador tendo sido o barco, com certeza.

Em 2014 eu e Eileen nos mudamos para a Austrália e agora toda a família está reunida de novo. Então para nós sua aquisição do Fiu foi razão para recordar boas lembranças. Desejo que o barco proporcione à sua família bons momentos como ele nos proporcionou.

Só por curiosidade, para você rir um pouquinho, no dia que o anúncio foi publicado recebi um e-mail de um gaúcho me informando que queria comprar o barco e se eu o ajudaria caso quisesse fazer alguma consulta. Respondi-lhe que sim, com muito prazer, caso soubesse informar. Como Perth fica a onze horas de diferença de fuso horário, demorei um pouquinho para responder. Então recebi um e-mail  dele, meio desconsolado, informando que a tentativa de compra bateu na trave, pois você já tinha fechado negócio.

Enfim, como a classe é como se fosse um clube, e contamos as histórias dos barcos regularmente em nossas notícias, acho que a tribo de donos de MC28 vai gostar de saber essa novidade. Caso você não se importe, gostarei de publicar uma matéria em nosso site contando esse novo capitulo da história da classe. Tudo que você desejar saber sobre o Fiu, pode contar comigo. Seria a glória se um dia nos encontrássemos. Um irmãozinho do seu barco, o Access está na Nova Zelândia.

Um grande abraço.
Cabinho"

O projeto do MC28 foi concebido teoricamente a bordo de meu penúltimo barco, o Maitairoa, numa inesquecível viagem pelo Oceano Austral, quando eu e meu amigo e tripulante Roberto Alan Fucks conversamos por horas a fio de como seria o melhor veleiro de cruzeiro ao alcance do construtor amador que fosse apto para realizar qualquer tipo de cruzeiro oceânico e que permitisse um ótimo conforto e muita segurança. Esse barco é o MC28!

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