Polar 65 - Paixão pelas altas latitudes

Desde adolescente sempre tive uma fascinação pelos aventureiros que desbravaram os recantos ainda pouco explorados de nosso planeta. Ler os relatos das expedições ao coração do continente africano e às regiões polares realizadas pelos grandes exploradores do final do século dezenove e início do século vinte atiçaram em mim o desejo de realizar aventuras desse tipo. Quando, durante os anos oitenta, participei da criação de um escritório de design de iates, um dos primeiros projetos realizados foi o do veleiro Maitairoa, concebido para navegar em altas latitudes. Esse barco foi construído com muito empenho e com ele eu e minha família empreendemos viagens inesquecíveis pelo Atlântico Sul e Oceano Austral.

Fraternidade, o primeiro Polar 65 a navegar. Esse barco já realizou uma volta ao mundo e já visitou o Continente Antártico. Cortesia: Hélio Viana.

Com a publicação do livro narrando nossas viagens a bordo do Maitairoa, "As fantásticas aventuras do Maitairoa", apesar de nunca termos navegado até a Antártica, ficou uma lenda de que nosso escritório era especializado em projetos de veleiros polares e os velejadores com planos de viajar para as altas latitudes começaram a nos procurar. Um deles foi o iatista brasileiro Amyr Klink, que nos encomendou o projeto de um veleiro polar com cinquenta pés de comprimento total, o qual ao ser concluído realizou o feito de ser o primeiro iate de navegador solitário a hibernar no Continente Antártico. Por esse feito, o projeto, que foi desenvolvido em dupla com um amigo, Gabriel Dias, veio a ser condecorado com o "Tillman Prize", uma honraria concedida pelo Royal Cruising Club da Inglaterra aos veleiros de cruzeiro que contribuíram de alguma forma para desbravar as regiões polares.

A responsabilidade de projetar um veleiro polar, um assunto sobre o qual tínhamos zero experiência, adicionando a isso o fator agravante de o barco ter que resistir ao inverno austral encapsulado pelo gelo, algo que nunca tinha sido realizado por navegador solitário algum, era de tirar o sono. Mas para um verdadeiro escritório de yacht design, quanto maior o desafio, mais divertido fica o trabalho.

O veleiro Paratii construído em alumínio durante os anos oitenta foi nossa introdução ao clube de yacht designers que projetam veleiros polares. A mastreação não estaida denominada Aerorig foi usada com êxito por nosso cliente Amyr Klink. Com essa mastreação o Paratii completou a volta ao mundo navegando exclusivamente pelo oceano Austral, contornando o continente Antartico sem fazer escalas, sendo Amyr o primeiro navegador solitário a realizar essa façanha. Cortesia: Amyr Klink.

Amyr Klink foi um cliente muito especial. Sabendo que nosso background era mais vinculado à outras áreas, deu liberdade total para que decidíssemos toda a parte de arquitetura naval de acordo com nossas convicções. Afinal uma vez que confiara em nossa tacada, era melhor nos deixar trabalhar sossegados do que interferir em alguma coisa que, caso não desse certo, ficaria sem paternidade definida. O problema de ficar encapsulado por gelo durante o inverno, esse tiramos de letra. Bastou para isso desenhar um plano de linhas em que o casco teria o formato de taça, de modo que a água congelando, ao se dilatar, em vez de comprimir o costado, levantasse o barco sem causar qualquer problema estrutural. A única condição que Amyr foi categórico em solicitar, foi para que o barco tivesse o menor calado possível, para que pudesse chegar bem perto de terra e assim evitar os berg-bits que infestam as ancoragens onde pretendia invernar. Novamente optamos pelo simples, lógico e garantido. Projetamos o barco com um fin-keel de baixo calado para nele conter o lastro de chumbo, dessa forma obtendo a estabilidade desejada. Para um bom desempenho na orça colocamos uma bolina móvel com boa profundidade dentro do fin-keel, tudo dando tão certo que o barco sempre se comportou como um cavalo de raça bem treinado, dando show de desempenho e estabilidade.

Amyr realizou com o Paratii alguns feitos notáveis. Na primeira grande viagem desceu até a Península Antártica, onde passou uma boa parte do ano, tendo, como previsto, o mar congelado em sua volta durante o inverno. Terminada a longa provação, quando a primavera liberou o casco, em vez de rumar para Parati, seu porto de origem, decidiu navegar para as altas latitudes do hemisfério norte, entrando no Círculo Polar Ártico antes de voltar para casa. O livro que escreveu, "Paratii entre dois polos", tornou-se um best seller com centenas de milhares de livros vendidos, tendo sido publicado em várias línguas. Duas temporadas depois realizou a circum-navegação do Continente Antártico em solitário, sendo o primeiro velejador a realizar essa façanha, por isso tendo sido condecorado com o Prêmio Tillman, o Paratii tendo sido considerado um dos cincos melhores veleiros polares construídos até aquela data.

A bem-sucedida carreira do Paratii nos ajudou mais ainda a sermos reconhecidos como projetistas de veleiros para as altas latitudes. Fizemos amizades com muitos velejadores com experiência em navegar em águas geladas, tendo sido frequentes então as trocas de informação com especialistas no assunto, muitas vezes acontecendo em fins de tarde em nosso escritório, não raro prolongando-se até altas horas. Navegadores polares como o casal de ingleses Tim e Pauline Carr, do veleiro Curlew, que hoje está exposto no Museu Marítimo da Cornualha, o físico russo naturalizado francês Oleg Bely, do veleiro Kotik, e outros amantes do frio, costumavam nos visitar quando passavam pelo Rio de Janeiro, o endereço do nosso escritório naquela época. Por esse tempo ainda nem suspeitávamos que iríamos mudar de endereço, indo nos estabelecer em Perth, Austrália Ocidental.

Como trocar ideais sobre projetos de veleiros polares é um assunto que nunca se esgota, muitas vezes em nossas reuniões o tópico principal de nossas conversas era sobre qual a melhor solução para se conseguir o mínimo de calado sem perder estabilidade, nem capacidade de orçar. Ficou evidente que a solução quilha e bolina adotada no Paratii, mesmo sendo eficiente, excluía a possibilidade do barco poder ficar em seco apoiado em seu fundo em lugares onde a variação de maré fosse muito intensa.

Como estava em nossos planos criar um novo projeto de veleiro polar, estudar sobre o assunto nos conduziu para a opção de adotar nessa nova empreitada uma quilha móvel pivotante, a maior parte do lastro ficando dentro dela. Isso iria permitir que o barco pudesse encalhar em qualquer lugar onde a variação de maré fosse maior do que a profundidade do casco sem causar problema algum para a estrutura do barco. Para que a eficiência de governo fosse garantida nas piores condições de mar, optamos por dois lemes unidos a dois skegs longitudinais, seguindo desde a região da quilha rebatível até o bordo de ataque dos lemes, e, para possibilitar o máximo de capacidade de manobra possível quando navegando a motor, especificamos dois motores cujos eixos de propulsão foram instalados dentro desses skegs.

Definir todos os detalhes de um projeto desse porte é um investimento muito pesado para um escritório de yacht design. Por isso avançávamos devagar, trabalhando principalmente após o expediente, ou sempre que nos sobrava um tempinho. Mas a sorte estava de nosso lado. Um conhecido velejador do nordeste do Brasil, o ucraniano naturalizado brasileiro Aleixo Belov, desejava construir um veleiro para expedições polares, e sabendo de nossa experiência bem sucedida com o Paratii, procurou-nos para que desenvolvêssemos o projeto de seu veleiro. Ele tinha uma boa ideia do que desejava, que por nossa sorte era bem próximo do que estávamos desenvolvendo.

A cabine de pilotagem do Polar 65 mais se parece com a ponte de comando de um navio de expedições. Definir cada detalhe desse projeto foi um desafio inesquecível para a nossa equipe. Cortesia Aleixo Belov.

Aleixo Belov, um engenheiro por profissão, possui uma empresa de construção naval em Salvador, Bahia, e foi lá que construiu seu Polar 65, o qual foi batizado com o nome Fraternidade. Como é construtor experiente, o barco ficou excelente, nenhum esforço tendo sido poupado para que ficasse o mais perfeito possível.

O Polar 65 Fraternidade foi construído por Aleixo Belov em seu próprio estaleiro. O padrão de qualidade da construção foi do mais alto nível. Essa foto foi tirada quando de minha visita ao estaleiro, antes do lançamento. Por ela pode-se ver que os dois skegs permitem que o barco possa ficar encalhado em seco na variação de maré onde sua amplitude ultrapassar o calado do barco com a quilha içada. Cortesia: Aleixo Belov.

Aleixo é um navegador super experiente, já tendo completado três voltas ao mundo em solitário em seu veleiro anterior, o Três Marias, um barco de quarenta pés de comprimento total construído em fibra de vidro. Nessa nova fase da vida desejou continuar velejando, mas agora em companhia de outras pessoas, especialmente jovens para os quais pudesse repassar a experiência adquirida nas viagens anteriores. Por isso a necessidade de um barco com acomodações para até treze pessoas, sendo apenas sua cabine em suite. O arranjo interno, condicionado pela larga caixa que abriga a quilha quando içada, se caracteriza por ter o salão social na parte de popa, e a maior parte dos camarotes sendo localizados na área central do barco, ficando a cabine de pilotagem sobre a casa de máquinas, uma solução muito prática para um barco desse porte possuindo quilha retrátil.

O interior do Polar 65 é próprio para levar uma tripulação de até treze pessoas confortavelmente. A solução de localizar o salão social na parte de ré do arranjo interno conferiu ao interior uma sensação de amplidão incomparável.

Tão logo o barco foi lançado ao mar Aleixo iniciou os preparativos para testar o barco. Esse teste foi uma volta ao mundo completa, dessa vez navegando pelos trópicos. Ao retornar a Salvador começou os preparativos para sua primeira viagem à Antártica, a qual realizou dois anos depois. Agora, após sua volta, ele pode afirmar que o barco já está mais do que testado, seja qual for o oceano que tenha que enftrentar.

O salão social do Fraternidade transmite uma sensação de amplidão e aconchego difícil de ser rivalizada. Aleixo decidiu não construir o poço do cockpit, o que contribuiu em muito para dar essa impressão de espaço. Cortesia: Aleixo Belov.

Ficar projetando veleiros polares acabou nos deixando uma paixão pelo assunto. Por isso não paramos por aí. Depois do Polar 65 já projetamos dois novos veleiros polares, um novo Polar 50 e o Polar 43, esse para atender a tripulações que necessitem de menos beliches para pernoite. No entanto a experiência e o gosto pelo tema só deverão aumentar com o passar do tempo.

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