Multichine 28 - Conversa de cockpit

Já contamos em artigo anterior que o projeto MC28 foi desenvolvido com a intenção de construirmos um desses barcos para uso de nossa família, pois seu custo razoável e sua facilidade de construção combinavam com nosso desejo de termos um veleiro confortável para morarmos a bordo e viajar com ele para não importa onde decidíssemos ir, e que estivesse dentro de nosso orçamento construí-lo sem medir esforços para que ficasse o melhor possível, tanto em qualidade de construção, quanto em equipamentos.

Tudo aconteceu como planejado. Construímos o MC28 Fiu com as nossas próprias mãos, o que nos deu um conhecimento completo sobre o barco. O Fiu acabou sendo o veleiro que mais gostamos de ter possuído. Nele moramos a bordo por mais de dois anos e viajamos em mar azul por milhares de milhas, sempre nos sentindo seguros e bem alojados.

Selfie tirada antes da gopro. Essa foto eu tirei na volta da Refeno de 2004, quando fiz a travessia em solitário. A maior diferença para a foto abaixo, tirada mais de dez anos depois, é o fato de eu não estar usando o Bimini. Eu o desmontei para que a cada vinte minutos pudesse ficar em pé no cockpit e observar o horizonte num angulo de trezentos e sessenta graus. Mesmo com radar e refletor de radar, não dispensava a inspeção visual do horizonte. Foto: Roberto Barros

Multichine 28 Fiu em 2015, agora pertencendo ao casal Jane e Alexandre Rabello. O barco está em tão bom estado como quando era novo. Cortesia: Alexandre Rabello

Esse resultado positivo não aconteceu por acaso. O projeto conceitual do MC28 foi desenvolvido com bastante convicção sobre o que deveria ser atingido. O barco, do bico de proa ao espelho de popa, deveria ser totalmente aproveitado de modo que cada compartimento proporcionasse o máximo de conforto, cada ambiente não podendo prejudicar o outro. Em uma matéria anterior contamos que o MC28 foi projetado em torno de uma cozinha, essa tendo sido uma participação de minha esposa Eileen, pois na época era ela nossa consultora sobre arranjos internos, especialmente com o que se relacionasse à área da cozinha.

Existem muitos barcos desse porte com interiores bem resolvidos, o MC28 sendo apenas um entre eles. No entanto, no caso do MC28, as soluções foram se encaixando à perfeição, ao ponto dele ter se tornado um dos projetos mais bem sucedidos de nosso escritório, uma vez que é unânime entre nossos clientes a impressão de excepcional conforto interno para um barco desse porte. Como já contamos que o arranjo interno foi decidido tomando como centro a área da cozinha, a parte à ré do restante do interior tinha que ficar igualmente bem resolvida para que o interior de todo o barco tivesse méritos.

Embora o hall de entrada da cabine de popa ainda fique na área com maior pé direito (1.85m), o camarote do proprietário com uma cama de casal bem larga, especialmente na cabeceira, e uma profusão de armários, tornou o compartimento um lugar sensacional para se dormir. Lembro bem das noites de inverno quando Eileen e eu dormíamos ali e a gente se sentia como se estivéssemos em um chalé suíço, pois o compartimento era todo isolado com EVA, mantendo um calorzinho gostoso. Quando chovia forte, o barulho das gotas d`água batendo no assento do cockpit era uma delícia de ficar ouvindo. O grande segredo dessa cabine ser tão aconchegante era a ponte entre o poço do cockpit e a cabeceira da cama, um vão com 700mm de extensão, o que permitia à pessoa que estivesse ocupando o lado sob o poço pudesse se sentar com as costas apoiadas sobre a cabeceira da cama sem sentir-se como se estivesse encaixada em uma gaveta. Essa solução foi duplamente bem sucedida. No cockpit essa ponte se tornou um ótimo beliche para quem desejasse dormir lá fora em uma noite estrelada de verão. Como essa ponte entre cockpit e gaiuta de entrada não é muito usual, algumas pessoas estranhavam, achando que poderia dificultar o acesso à cabine. Mas isso não era o caso, pois nunca sentimos desconforto ao entrar e sair de cabine. Hoje com o projeto já estando próximo dos duzentos barcos sendo construídos ou navegando, já não precisamos mais justificar nossa decisão. Até com o barco navegando no contravento as pessoas gostam de ficar deitadas ali deixando a cabeça para barlavento; uma maravilha!

Camarote de popa do MC28 Ayti. Uma das vantagens desse camarote é que não se tem como cair, pois o colchão vai de parede a parede. Cortesia: Arapuan Fernandes

Lá dentro do camarote a paz era perfeita, não importando quanto o mar estivesse ruim. A ventilação natural funcionava muito bem, havendo três fontes de ventilação: a entrada do camarote, que no caso do Fiu, não possuía porta, somente uma cortina, por ali sempre passando uma corrente de ar iniciada no compartimento de âncora na proa, onde existia uma tampa de inspeção que, durante o tempo em que o barco foi nosso, ficava permanentemente aberta, recebendo ventilação proveniente de uma boca de ar instalada na gaiuta desse compartimento (a água que entrasse por ali drenava pelos dois ralos do compartimento), uma vigia de abrir na parede lateral da cabine no hall de entrada do camarote e uma vigia de abrir no espelho de popa.

A cabine de popa era o meu cantinho favorito no barco. Paralelo ao costado de bombordo tinham instalados armários com estantes em cima e nessa estante era onde eu guardava meus livros mais preciosos, aqueles que tinha medo que os "amigos" me pedissem emprestado e nunca mais me devolvessem. Muitas vezes ficava lendo ali, ou sentado no sofá do hall de entrada, ou ainda sentado na cabeceira do beliche, isso mais no inverno, com a coberta estendida até à cintura.

Somente uma vez a cabine de popa não foi tão aconchegante como estávamos acostumados. Foi quando convidamos um casal de amigos americanos em viagem ao Rio de Janeiro para passar um feriado prolongado na Ilha Grande. Saímos com esse casal em uma noite estrelada para realizar essa passagem de aproximadamente sessenta milhas aproveitando a noite para que sobrasse mais tempo para aproveitar os feriados.

O vento era favorável, vindo da direção leste, como é costume nessa região. O papo começou bem animado na saída da Marina da Glória, nossos amigos antevendo uns feriados maravilhosos naquele paraíso que é a Ilha Grande. No entanto, ao montar a Ponta do Leme, quando o barco entrou no ritmo do balanço da velejada de popa, nosso amigo ficou meio sonolento, deitou-se no convés lateral e desligou. Como a esposa ficou no cockpit, a conversa continuou rolando, mas já menos animada. Seis ou sete horas mais tarde, quando estávamos a umas poucas milhas de chegar na Ilha Grande, sem nenhum aviso, uma depressão atingiu nosso barco com ventos de força de furacão. Talvez tenha sido um tornado, pois não me recordo de ter passado por nada igual durante toda a minha vida de velejador. O céu fechou subitamente, e o vento que era de leste, passou a soprar de oeste. Como era impossível vencer aquela tempestade, a única opção que nos restou foi a de fazer meia volta e sair correndo com o vento. O barco voava surfando nas ondas, ultrapassando os doze nós de velocidade, felizmente sem problemas de controle, pois o leme do MC28 é fantástico. Graças ao sistema da vela de proa, que em vez de enrolador, possuía garrunchos Wichard, em alguns segundos a vela estava abaixada no convés, onde já existia um cabo para amarrá-la ao púlpito de proa. A vela grande deu bem mais trabalho para abaixá-la pois entrar no vento era quase impossível. Por motivo de segurança pedi à nossa amiga que acordasse o marido e que os dois fossem ocupar o camarote de popa o mais depressa possível.

Com o barco surfando em árvore seca a mais de doze nós, o caminho docemente percorrido na ida ia sendo feito no sentido inverso em uma velocidade espantosa. Ao nos afastarmos da ilha o mar cresceu muito rapidamente formando rompentes com carneirinhos colossais. Como os convidados estavam bem protegidos, fiquei tranquilo quanto à sua segurança, concentrando-me apenas em levar o barco de volta. O tempo foi passando e nada do vento amainar, o que só aconteceu quando já estávamos chegando à marina. Então desci para ver como nossos convidados estavam passando. Foi então que descobri que acontecera uma tragédia na cabine de popa. Como o sono repentino de nosso convidado tinha sido um problema de mareio, ao se abrigar no camarote, ele esgotou o que ainda lhe sobrou de força para chegar até a parede de popa e abrir a vigia instalada ali. Quando o mar engrossou violentamente, as rompentes começaram a invadir o camarote, ensopando o beliche. Do jeito que nosso amigo estava passando mal, ele nem teve energia, ou desejo, sei lá, de fechar de novo a vigia, e continuou naquele inferno com tudo alagado. Ao entrar na Baía de Guanabara, rapidamente os espíritos melhoraram e ao chegar na marina ajudamos a secar tudo, felizmente sem maiores consequências, pois os estofados eram revestidos de tecido impermeável. Essa foi a única vez que entrou água naquele camarote, ou mesmo em qualquer outro lugar do barco, pelo menos enquanto o Fiu nos pertenceu. Ele sempre foi absolutamente seco internamente.

Se pelo lado de bombordo tínhamos o camarote de nossos sonhos, por boreste estávamos igualmente muito bem servidos. O banheiro do barco também era muito confortável para um veleiro de 28 pés, muito mais amplo do que costumam ser os banheiros dos barco de série com esse comprimento. À ré do banheiro podíamos contar com um espaço amplo estendendo-se até o espelho de popa, destinado a guardar velas e outros objetos volumosos ou muito longos. Afinal é marca registrada do projeto não ter espaço perdido no MC28.

O banheiro do MC28 Fiu é bem amplo para um veleiro de 28 pés. No espaço entre a bancada da pia e a porta, onde está o tapetinho branco, existe um paineiro ripado sob o qual está o poço do chuveiro. Foto: Roberto Barros

Nosso MC28 foi muito bem aproveitado. Os principais cruzeiros que realizamos com ele foram relatados nos diários de bordo que escrevia durante essas passagens. Foi especialmente gratificante para mim ter realizado duas viagens de ida e volta ao Nordeste com ele, as quais, exceto pela primeira viagem de ida, quando tive a companhia de dois amigos, Erick Ceppas e Rafael Coelho, o restante fiz em solitário. Não tinha experimentado antes fazer travessias tão longas assim em solitário, uma vez que preferia muito mais estar na companhia de minha esposa. Mas como ela não pôde ir durante essas duas viagens, viajar sozinho me ensinou muitas coisas. Na verdade usei bem pouco o cockpit. A cada vinte minutos mais ou menos, saía da cabine e ficava em pé no poço do cockpit, quando dava uma volta de trezentos e sessenta graus para ver se algum navio vinha em rumo de colisão. Além disso passava umas duas horas no fim do dia simplesmente apreciando a paisagem, quando podia tomando uma cervejinha gelada, culminando por apreciar o pôr do sol, às vezes lindíssimo.

No entanto, as lembranças memoráveis de momentos vividos naquele cockpit foram repartidas principalmente com minha família, como no aniversário de quatro anos de minha neta Juliana, para o qual construí uma mesa que se apoiava no púlpito de popa e em uma coluna removível cujo pé se fixava no centro do poço do cockpit. Naquele aniversário tivemos umas doze pessoas instaladas naquela parte do barco, umas sete ocupando os bancos e o resto se acomodando sobre as braçolas do jeito que conseguissem. Então chegou um cruzeirista solitário inglês cujo barco estava em um finger próximo ao Fiu. Esse teve que ficar em pé na plataforma de popa, por absoluta falta de espaço em qualquer outro lugar do cockpit. Eileen era a única que ficou na cabine, passando as bebidas para o pessoal lá fora. Essa noite será difícil de ser esquecida.

Alguns meses depois o escritório se transferiu para a cidade de Perth, na Austrália Ocidental, o Fiu tendo sido vendido para o velejador brasileiro/canadense Beto Roque. Agora, nas mãos de terceiros donos, Jane e Alexandre Rabello, as histórias de cockpit já serão outras, mas na certa serão tão fascinantes quanto às que vivemos a bordo.

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