Green Nomad rumo ao Norte

Em 15 de Novembro de 2011 finalmente o Green Nomad, em sua segunda versão, agora um Kiribati 36, saiu para a vida que sempre sonhamos, o pulo de ancoragem em ancoragem pelos mais variados cantos do mundo.

Saímos de Rio Grande, onde nos acolheu com tanto carinho o Rio Grande Yacht Club, por um ano e um mês, situação que antes já havia se passado com o Clube dos Jangadeiros, em Porto Alegre, mostrando que a hospitalidade dos clubes gaúchos é maravilhosa.

Festa em Rio Grande, com os amigos do Rio Grande Yacht Club

Tivemos que ficar tanto tempo em Rio Grande devido ao período que passamos embarcados nos navios do Sea Shepherd, uma experiência que era tão atraente que justificou nossa parada.

Assim, embora eu tenha navegado 32500 milhas náuticas no intervalo, depois de 5 anos da venda do primeiro Green Nomad ,na Austrália, voltamos a navegar em nosso próprio barco.

Foi um caminho lento de um barco para o outro, e construir 2 barcos certamente não é a maneira mais direta de se ter um barco de cruzeiro, mas em nossa opinião é a melhor, pois oferece a liberdade de se ter o que se deseja, e a confiança de se saber exatamente em que barco estamos entrando.

A vida de construtor de barco, e principalmente de construtor morador, em que se constrói e mora no que será seu barco um dia, tem suas dificuldades, mas se não é o modo mais confortável, certamente é o mais divertido, pois em vez de pensarmos que temos que sair de casa em algum lugar para ir para um galpão onde o trabalho pesado aguarda, já estamos lá. De dia se trabalha, de noite se confraterniza com os outros barcos, e desse modo já nos sentimos parte da vida de cruzeiro.

Convidados para o jantar, cada um se senta onde pode

O período em que passamos em Porto Alegre foi de muito trabalho e acomodações escassas, mas a vida seguia normalmente, o barco não era um sonho distante no futuro, era uma realidade.

Até escritório de desenho o Green Nomad era, e mesa pendurada ou não, as coisas aconteciam.

O Multichine 41 SK Bepaluhê saindo do papel para o mundo virtual no escritório pendurado

Em Rio Grande a experiência continuava. Apesar de deixar o barco para ir navegar em mares distantes, da Antártica ao Mediterrâneo, o barco escritório continuava ativo e recebendo os retoques finais antes de sair para sua primeira viagem de mar aberto. O projeto do Pop Alu 32 foi todo realizado em Rio Grande, a bordo do Green Nomad, e terminado este começamos os preparativos finais para a saída.

Queríamos fazer uma boa viagem, com tempo bonito e sem encarar vento contra, de modo que fomos bem exigentes na escolha da situação meteorológica para a saída de Rio Grande. Não por falta de confiança no barco, embora não seja prudente testar um barco em condições adversas num dos piores trechos de costa da América do Sul, em que durante mais de 280 milhas não existe abrigo, e o vento pode jogar um barco na costa sem muita dificuldade.

Assim, esperamos e tivemos a sorte de ver aparecer uma situação meteorológica atípica, que pode ser vista na foto abaixo. Os ventos predominantes nesta costa e principalmente nesta época do ano são de Nordeste, diretamente contra, e usualmente para poder sair rumo a Santa Catarina se espera uma frente fria, com uma depressão se movendo de Oeste para Leste ao sul da Patagônia, o que provoca uma interrupção no regime de ventos de Nordeste e dependendo da intensidade do sistema traz desde calmarias até ventanias de Sul ou Sudoeste, e quase sempre chuva.

O sistema que apareceu foi no entanto uma depressão que deixou a costa do Brasil na altura do Rio de Janeiro e se moveu para Sul, ocasionando ventos de Sudeste e Sul na região de Rio Grande, mas sem a costumeira chuva e mar grosso que acompanham uma frente fria.

De 1 a 5, a depressão que empurrou o Green Nomad para o Norte

Para monitorar a situação usamos um sistema que recebe arquivos de meteorologia chamados de GRIB, que podem ser baixados da internet ( veja link no web site do Green Nomad ).

Depois da saída também podíamos receber os arquivos GRIB mesmo sem internet, pois temos um sistema de email a bordo via rádio SSB.

O resultado de tanta preparação e espera foi a saída num dia de sol radiante, com mar moderado e vento fraco de Sudeste, que nos empurrava com a ajuda do motor a mais de 7 nós.

Com isso atingimos o Cabo de Santa Marta em menos de 48 horas, e assim a pior parte ficou para trás.

O vento ficou bem fraco depois da passada do cabo, e durante aquela tarde e noite velejamos apenas, já que não havia mais risco de sermos empurrados de volta para Rio Grande pelo Nordeste, e mesmo que às vezes ficasse difícil perceber de onde vinha o vento olhando para o mar, de tão fraco, o Green Nomad andava a velocidades entre 3 e 5 nós.

Navegamos a boa distância da costa, chegando a 30 milhas, para evitar problemas com redes de pesca, e tivemos sorte, o plano funcionou. A desvantagem parcial era estar na rota dos navios, mas estes em condições de tempo tão boas eram fáceis de detetar e evitar.

Várias vezes ouvíamos aeronaves da FAB chamando navios pelo nome, e assumimos que era um controle de costa, e então chegou a nossa vez, um avião veio a baixa altitude e deu três voltas no Green Nomad, nos chamando pelo rádio VHF no canal 16.

Respondemos e estes foram muito gentis, perguntaram se estava tudo bem a bordo e desejaram boa viagem. É famoso este tipo de contrôle na aproximação da Austrália, mas o curioso é que já tinha chegadolá duas vezes por mar sem nunca ter sido controlado desta maneira.

Avião da FAB circula em volta do Green Nomad em operação rotineira de controle da costa

Na manhã do dia 18 nos aproximamos do nosso primeiro destino fora do Rio Grande do Sul, Porto Belo, em Santa Catarina, e o sol desta vez ficou tímido. Entramos na enseada de Porto Belo contornando a Ilha João da Cunha, e ancoramos em águas calmas e bem claras, apesar da falta de sol.

Logo veio ao nosso encontro o João Blauth, conhecido como Fininho, do veleiro Zuretta, que havia nos apresentado ao clube dos Jangadeiros, e nos deu as indicações da área, pois já está com seu barco aqui desde o início do ano ( O Fininho foi meu tripulante quando fui capitão do Gojira, o trimaran do Sea Shepherd , no transporte de Tahiti para a França, e cruzamos o canal do Panamá e o Atlântico juntos ).

Aproveitamos para entrar em contato com nossos amigos Vilmar Braz e Gina, do veleiro Jornal, já vendido por eles, com quem cruzeiramos boa parte do Pacífico em 1998.

Vilmar e Gina deram a volta ao mundo no Jornal, um Samoa 29 de desenho do escritório Roberto Barros Yacht Design, e hoje se dedicam a sua ONG a ANI, Associação Náutica de Itajaí, que tem por objetivo trazer para o mar jovens da região, ensinando-lhes marinharia e construção naval, um belo projeto.

Vilmar e Gina, que deram a volta ao mundo no Samoa 29 Jornal, nossos companheiros
de viagem no Pacífico em 1998

Assim estamos agora fazendo o que mais gostamos, rodeados de amigos em nossa casa autônoma, que gera sua própria energia elétrica e colhe água da chuva. Vida boa e com impacto ambiental mínimo.

Clique aqui para saber mais sobre o Kiribati 36.