Cruzeiro na Lagoa dos Patos - Parte I
De Porto Alegre ao Porto do Barquinho - Antonio Piqueres

"Se você procura, em um barco de cruzeiro, conforto e principalmente segurança,para você e sua família, os projetos da Yatch Design deverão ser a sua primeira escolha." Veremos adiante como o veleiro Atairu, um Multichine 28, resistiu bravamente aos infortúnios da Lagoa dos Patosdurante os 15 dias de cruzeiro. A Lagoa dos Patos é a maior lagoa de água doce da América Latina, medindo cerca de 280 km de comprimento no sentido noroeste-sudoeste, com larguras que oscilam entre 20 e 60 km e profundidade média de 6,5m, lançando suas águas no Oceano Atlântico através da Barra de Rio Grande. As águas são barrentas até próximo de São Lourenço do Sul, onde a água começa a se tornar clara e transparente até Rio Grande, devido às águas do Oceano que adentram pela barra.


Sábado,11 de fevereiro de 2012 - Viramos peixe (enrosco em rede de pesca)

Manhã de sábado. Estava atarefado colocando a escada no veleiro Atairu, uma das últimas pendências listadas para o cruzeiro na Lagoa dos Patos. Há duas semanas havia sido convidado por um grupo de velejadores do Clube dos Jangadeiros, o qual pertenço, a realizar um cruzeiro pela Lagoa dos Patos. Seriam quatro veleiros, com saída de Porto Alegre e destino final a cidade de Pelotas. Porém, por motivos particulares e a dificuldade de finalizar os preparativos de outro veleiro, a flotilha se reduziu a somente dois veleiros: o Atairu (MC 28), tripulado por mim e a Ivana, minha esposa e o Val Halla (Spring 25), tripulado pelo Cmte Fábio Beck, proprietário, e pelo José Campello, veterano velejador e o mais experiente de todos nós com relação a Lagoa. Enquanto os meus amigos testavam o nosso bote inflável de apoio com motor eu finalizava a colocação da escada. Nossa partida estava prevista para as 14:00h, mas estava difícil devido a faina que estava sendo realizada. Após finalizar a colocação da escada e prendermos o bote na proa, o Atairu zarpou às 15:00h do clube em direção a Praia do Sítio, no Rio Guaíba (Lago Guaíba nos dias de hoje, que banha a cidade de Porto Alegre, percorrendo aproximadamente 25 milhassentido noroeste-sudeste, até a Lagoa dos Patos. Tem largura mínima de 2,5 milhas e máxima de 13 milhas, com profundidade variando de 1m a 4m).

Seria uma navegada de aproximadamente 22 milhas náuticas, com tempo estimado de cinco horas e meia. O vento estava por volta dos 5 nós, do quadrante NW a W, facilitando o rumo para nosso destino. O Val Halla saiu na frente e nós na sua esteira. Dia ensolarado e com vento fraco, desta forma, velejamos uma parte do caminho, sendo o restante a motor. Acionamos o piloto automático (o tuzinho), pela primeira vez. Que descanso que ele nos deu, uma maravilha.

Por volta das 18:00h, eu e a Ivana conversávamos animadamente no cockpit sobre o que seria navegar pela lagoa, seria a nossa estreia com o Atairu, e os próximos quinze dias de navegação., quando a Ivana avistou, no través, uma bandeira de sinalização de rede de pesca,quase que imediatamente o Atairu parou e uma das coisas que eu mais temia aconteceu, fomos fisgados pela rede, viramos peixe. Rapidamente coloquei o motor em ponto morto e passei um rádio para o Val Halla e ele retornou em nosso socorro. Desligamos o motor e com o croque fomos pescando a rede e com uma faca de mergulho, fui cortando a mesma, não existia alternativa. Cortei um cabo grosso de nylon, mas o Atairu ainda estava enroscado. O Val Halla havia se aproximado e o Campello havia saltado para o Atairu para nos auxiliar, enquanto o Val Halla rondava em torno do Atairu.

Momento depois, o Fábio gritou um palavrão e de imediato o barco dele também parou, desligando o motor. Ele também havia se enroscado em outra rede, não sinalizada. Com uma faca, Fábio pulou na água para tentar cortar a rede que havia de enroscado no hélice (sistema pé de galinha). Enquanto isto, a Ivana com o croque, deu mais uma pescada e trouxe outro cabo grosso de nylon que foi cortado também. Neste momento o Atairu derivou e o Campellodisse para ligarmos o motor em marcha lenta. Lentamente o Atairu se safou do enrosco, porém o Val Halla não teve a mesma sorte.Era aproximadamente 20:00h quando amarramos um cabo no cunho de popa do Atairu e o mesmo iniciou o reboque do Val Halla.

Saímos em direção ao canal, pois não queríamos outro enrosco, e lentamente fomos na escuridão se dirigindo para a Praia do Sítio. Campello ia à proa, verificando as boias de iluminação, enquanto eu fazia uma navegação através do GPS. Às 22:00h ancorei na Praia do Sítio com o Val Halla a reboque.Jantamos e fomos dormir. No dia seguinte, pela manhã, antes do café, pulei na água com máscara, snorkel e a minha faca, para retirar a rede. Um, dois, três mergulhos e cheguei no hélice. Para a minha surpresa, não havia rede enroscada nem no hélice e nem no eixo. Campello ponderou que foi devido ao formato da quilha e ao "skeg" que evitou o enrosco da rede (se foi, ponto para o projeto). Estávamos pronto para continuar a viagem. No Val Halla, tivemos que amarrar meu cabo de amarra reserva (70m) ao cabo de reboque, desta forma o barco derivou até a beira da praia, devido ao seu calado baixo, facilitando, assim, o serviço de retirada da rede. O Fábio pulou na água com uma faca e iniciou o serviço, o qual só foi terminado por volta das 09:00h, retirando a rede e colocando em um saco plástico. Assim partimos para o nosso próximo ponto: Porto do Barquinho.


Domingo, 12 de fevereiro de 2012 - Montando um restaurante (encalhe no Barquinho)

Tomamos o café navegando, já dentro da Lagoa dos Patos. Dia ensolarado, com ventos entre 6 a 9 nós, do quadrante N a NW. Rumávamos para o Porto do Barquinho, (lado leste da Lagoa dos Patos, sendo um dos locais mais ermos da lagoa, distante de uns 12 km da cidade de Mostardas. Serviria para o escoamento das safras de arroz e cebola da região. O projeto do porto foi iniciado em 1924e reformulado em 1977, sendo quase finalizado em 1979. Como tantos outros projetos governamentais, este porto foi abandonado sem que as obras fossem concluídas, muito menos as estradas de acesso.Possui dois molhes, um de 837m e outro de 762m, bancos de areia e lodo permeiam de cada lado do seu interiore não está cartografado, porém, o porto é umexcelente abrigo para velejadores), distante aproximadamente umas 43 milhas náuticas da Praia do Sítio e aproximadamente 08:30h de navegação.Velejávamos calçados no motor, em torno de 5 nós, pois nosso objetivo era chegar ao Porto do Barquinho ao entardecer e o desenrosco da rede havia nos atrasado.

A navegação ocorreu sem contratempos. No GPS íamos acompanhando o nosso progresso.Próximo à chegada, a Ivana pegou o binóculos para encontrarmos a entrada do porto, pois os molhes ficam a flor da água. Enfim chegamos à entrada dos molhes, com vento NE a E fraco. Neste ponto combinamos que o Val Halla seguiria a nossa frente sondando a profundidade do local.

Na área mais aberta, estávamos com 3m de profundidade. O Val Halla foi mais a frente, passando junto a uma estaca, no canal, e seguiu adiante. Nós ficamos dando voltas, aguardando informações. Vimos que ao entrar um pouco mais a profundidade diminuía muito. Havia um pessoal acampado no lado leste do porto.

Recebemos um rádio do Val Halla com as instruções para a entrada, mas com a advertência que não poderíamos ir muito adiante devido à profundidade. Passamos pela estaca, mas quase no través de um trapiche de ferro, o barco tocou o fundo.Estávamos no meio do canal e não seria possível ancorar neste local.Campello informou pelo rádio que em frente ao trapiche também não seria aconselhado, devido a ferros submersos. Retornamos.

O por do sol estava lindo. Passando pela estaca, notei uma pequena baia rodeada de juncos. Minha intenção era jogar ferro ali e derivar para a baia. Guinei para bombordo saindo do canal e com o vento entrando pela popa não deu tempo para mais nada. O Atairu acabara de encalhar. Eram aproximadamente 18:00h. Imediatamente solicitei socorro ao Val Halla que demorou, devido a já estarem desembarcados. Com a aproximação do Val Halla e da noite que estava iniciando, Campello sugeriu levar o ferro do Atairu o mais longe possível, em um ângulo de 90° em relação ao barco, e acionar o guincho pra tentar girar e desencalhar o barco. Já havia anoitecido e lentamente o Val Halla se afastava levando a âncora do Atairu e liberando corrente, o mais longe possível, até quase o seu encalhe. A âncora foi largada. O Val Halla se afastou e recebi o sinal para ligar o motor, Máquina à frente e acionei o guincho. O corrente fez um barulho no carrinho da âncora devido ao ângulo e o Atairu girou sobre a quilha. Parecia que sairíamos, mas só parecia. Em um caturro o Atairu abaixou a proa e o guincho fez o ruído característico de força máxima, logo diminuindo como se fosse desligar, a âncora cravou ao máximo. Parei os motores e o guincho ao mesmo tempo. O Atairu não se mexia. Tentei mover o leme, que antes se movimentava com dificuldade no lodo, nada se mexia. Literalmente estávamos mais encalhados e prontos para montarmos um restaurante no Porto do Barquinho.

Eram 21:00h quando finalizamos a ancoragem a contrabordo com o Val Halla. Não havia mais nada a fazer. Amanhã será outro dia.O jantar foi realizado no Atairu. A Ivana fez um delicioso molho, com uma massa feita pelo Fábio.

Comemos nós quatro no amplo salão do barco, regado a um bom vinho e queijo colonial. Fomos dormir, eu praticamente não consegui dormir, tentando achar uma forma de desencalhar o barco, quem sabe puxando pela adriça do balão. Noite mal dormida devido aos piores pensamentos para o desencalhe.

Pela manhã, cedo, começávamos a discutir uma nova tentativa de desencalhe, quando se aproximou o Adriana, o barco do Cmte EmílioOppitz, velejador muito experiente na Lagoa dos Patos e nos mares. Foi a nossa salvação. De jeito simples e solidário dos bons e velhos velejadores sugeriu que o Val Halla puxasse pela proa do Atairu, enquanto que ele iria puxar pela adriça do balão atada a um cabo maior fazendo com que o Atairu adernasse e deslocasse à vante com motor ligado, desencalhando. Desfizemos o contrabordo e realizamos a faina conforme combinado. Prendemos tudo dentro do barco. Assim que o Cmte Emílio deu sinal, o Adriana deitava o Atairu pela adriça do balão, enquanto o Val Halla puxava a sua proa. Dei força à frente no motor e em um passe de mágica estávamos desencalhados. Tudo funcionou conforme planejado. Projeto muito bom e construção resistente o Atairu não sofreu nada com o desencalhe. Despedimos do Cmte Emílio e fui recolher a âncora, pois conforme o Campello seria difícil de resgatá-la. Fomos recolhendo a corrente gradativamente, quando estávamos quase em cima da âncora, o barco prosseguiu lentamente, avançando sobre a corrente.

Neste exato momento, em um reflexo involuntário segurei a corrente do guincho, então,em uma fração de segundos, o meu dedo mínimo da mão direita havia sido prensado pela corrente contra as castanhas que recolhiam a corrente do guincho. Um grito e retirei rapidamente a mão do guincho, mas já era tarde.Um corte profundo e metade da unha do dedo mínimo cortada e arrancada devido ao esmagamento. Instintivamente coloquei a unha no lugar e logo em seguida, peguei uma toalha e enrolei no dedo para tentar estancar o sangue e sentei no deck. A Ivana veio com a caixa de primeiros socorros, indispensável em qualquer cruzeiro, enquanto o Val Halla se aproximou do barco e,com habilidade, o Fábio me passou um copo com água. A Ivana fez uma limpeza e colocou pó antisséptico para estancar o sangue. Após o curativo com gaze e medicado, fui novamente realizar o recolhimento da âncora. Conseguimos desprendê-la do fundo e a coloquei e prendi no carrinho. A dor no dedo era muita e o socorro mais próximo ficava há dois dias, em São Lourenço do Sul. Avaliamos a situação e decidimos prosseguir, mas aprendi da pior forma: "Antes de manter a integridade do barco, deve-se prevalecer à integridade física." Por volta das 08:40h saímos do Porto do Barquinho em direção a Barra Falsa, ainda no lado leste da Lagoa dos Patos, nem imaginávamos o que viria pela frente.

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