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Cabo Horn 40

JOSÉ OSCAR BENTINI CONSTRÓI NOSSO PRIMEIRO CABO HORN EM AÇO

José Oscar Bentini, o mago da caldeiraria brasileira, acaba de fechar o casco do primeiro Cabo Horn 40 que está construindo em aço para o informata Walter Barbosa.Para nós do escritório Roberto Barros Yacht Design é um forte motivo de alegria ver um casco com curvas tão bonitas sendo construído com tal perfeição.Na era em que qualidade e bom acabamento são tão exigidos e enquanto as condições meteorológicas vão se tornando cada dia mais imprevisíveis, a construção metálica de um casco redondo talvez seja o máximo que se possa desejar. Walter Barbosa deseja morar a bordo, trabalhar e eventualmente viajar com seu novo veleiro. Ao Walter e sua família, desejamos que seu futuro iate venha a oferecer-lhes as mesmas alegrias que seu valente Samoa 29 Áquila já lhes proporcionou. E ao José Oscar damos os nossos parabéns.milt


A ILHA DO DIA SEGUINTE

Vamos à regata Vitória – Trindade do próximo ano? O convite do amigo Thadeu para compor a tripulação do AYA na mais longa regata oceânica do Brasil, re-acendeu aquele velho espírito competitivo já adormecido no cruzeirista inveterado e acomodado. Aceitei para logo em seguida me arrepender. Consultando as cartas piloto e as previsões de vento para o percurso de 1200 milhas náuticas (ida e volta) no sentido oeste >> leste, me dei conta de que a ida para a ilha seria um contra vento muito apertado e a volta uma popa rasa, as condições de mareação que o cruzeirista mais odeia. Além disso, nem sempre é possível desembarcar na ilha devido às condições do mar. Nos meses que seguiram ao convite, oscilei entre a euforia e a dúvida. A escolha do restante da tripulação me confortava. Pelo menos teria um grupo de velhos conhecidos: Ivan e Ricardinho com quem já naveguei muitas milhas e Christina minha namorada, além do Comandante Thadeu e um amigo seu, o Ibate.
O AYA é um veleiro de 40 pés (Cabo Horn 40), assinado pelo escritório do projetista Roberto Mesquita de Barros, de madeira moldada, muito bem construído pelo estaleiro estrutural de Cabo Frio. Com um interior luxuoso em mogno envernizado, o barco está muito bem equipado, tanto no que diz respeito as instalações internas (cozinha, banheiro, cabines) quanto a instrumentação de navegação e comunicação. Está equipado com uma vela grande, uma genoa 2 com enrolador no estai de proa e uma genoa 3 com enrolador num estai intermediário. Conta ainda com um balão assimétrico. É um barco típico de cruzeiro, com uma enorme tancagem de água (700 litros) e diesel (350 litros), muitas ferramentas e peças de reposição, um conjunto de âncora mais corrente na caixa de proa pesando 180 kg, uma âncora reserva de 30 kg, geladeira e freezer, muitos armários, livros, utensílios de cozinha e tudo o mais necessário a um confortável cruzeiro.
A regata Vitória – Trindade (http://www.radioeldoradofm.com.br/aventura/brasilis5/site/INDEX.ASP), denominada Eldorado Brasilis, já está na sua quinta edição, com um número crescente de inscrições e interesse da comunidade náutica. Mistura na raia os barcos exclusivamente de regata com os de cruzeiro; tripulações profissionais com famílias inteiras. Nesse ano, 20 barcos se inscreveram, três não largaram e três retornaram a Vitória sem completar o percurso.
Eu já conhecia o AYA desde a época da sua construção em Cabo Frio. Já havia velejado rapidamente com ele logo que foi para a água em julho de 2000. Como o barco estava no Rio, combinei com o Thadeu que iria com ele para Vitória, uma forma de conhecer melhor o barco e seus sistemas.
Golfinhos na proa do AYASaímos do cais do Iate Clube do Rio de Janeiro no dia 10 de janeiro de 2004, com uma previsão de calmaria no início da viagem e ventos de nordeste para o restante. De fato, motoramos sem vento até próximo do Cabo de São Tomé quando entrou o vento nordeste muito forte, de 25 – 30 nós com mar proporcional. Seguimos a motor e vela para cumprir o percurso de 270 milhas em 46 horas. Nesse trecho já fiquei muito bem impressionado com o AYA que conseguiu suportar o vento contra e ondas altas com uma ótima performance. Catamarã SUPERNOVAEm Vitória a festa já estava bem organizada pelo Iate Clube do Espírito Santo. Nos dias anteriores a largada, havia uma previsão de mar muito agitado com ondas de até 5 metros para a área da regata. Houve um momento que os organizadores pensaram em adiar a largada. Como a Marinha, por dificuldades financeiras, não iria enviar uma embarcação para acompanhar a regata, a organização arrumou um catamarã a motor (SUPERNOVA) para esta tarefa. Esta embarcação, no entanto, somente daria suporte em caso extremo de abandono de alguma embarcação. Não poderia fazer o reboque nem teria autonomia de combustível para resgate caso tivesse que se deslocar por uma distância muito grande.
Faina na largadaTripulação (esq p/dir): Thadeu, Ivan, Christina, Ibate, João, RicardinhoA largada às 12h35m do dia 17 de janeiro foi com um já esperado mas inusitado vento sudoeste de 20 nós com rajadas de 25 e mar meio agitado. Logo no início, o catamarã Galileu (St Francis 44) teve problemas em sua genoa (costurada depois durante a regata) e o Farasan (Fast 500) com sua buja. O Até Logo (Trimarã 28 pés), justificando o nome, retornou após algumas milhas por supostos problemas com a tripulação e o VMAX 3 (Fast 500) por problemas técnicos não especificados.
Seguimos chacoalhando num vento de través com o mar meio agitado. Como era de se esperar, nesse primeiro dia a tripulação do AYA, meio mareada meio preguiçosa, se limitou a comer sanduíches e biscoitos. Todos na tripulação tinham experiência em longas travessias e combinamos que faríamos três duplas para cumprir turnos de duas horas. Seguimos no rumo direto para Trindade com a grande no segundo rizo e buja e fizemos 166 milhas nas primeiras 24 horas, numa ótima média de 6,9 nós.
Catamarã GalileuNo segundo dia o vento sul/sudoeste continuou soprando porém um pouco mais fraco, na casa dos 15 – 20 nós e a previsão de mar muito agitado não se confirmou. Colocamos a grande no primeiro rizo e abrimos a genoa. Fizemos 150 milhas nesse segundo dia. Com a tripulação mais acostumada ao balanço, iniciamos a exploração do freezer do barco onde a esposa do Thadeu havia colocado várias iguarias congeladas: torta de palmito, de cebola, de frango, arroz com bacalhau, caldo de feijão, kibe. O único trabalho que tínhamos era de descongelar a embalagem, esquentar e servir. A noite fazíamos um lanche com sanduíches, sopas ou macarrão instantâneo. De sobremesa tivemos chocolate, goiabada com queijo, jujuba e outras pequenas guloseimas. Christina, inconformada com a facilidade dos pratos congelados, preparou uma “pasta” com molho especial para o terceiro dia, uma torta de limão, mousse de chocolate e várias saladas para servir de acompanhamento.
Vini Nautos Nanuk (Hi-Tec)O vento continuou do quadrante sul mais para sueste e enfraqueceu no terceiro dia e fizemos 144 milhas. Até esse ponto a regata estava se desenrolando num regime de ventos totalmente atípico para esta região e época do ano. O esperado era um nordeste em todo o percurso, uma orça fechada.
O AYA se colocava muito bem no terceiro “pelotão”, na frente do Farasan (Fast 500) do Albatroz (Delta 36), do Quiricomba (Two Ton 41 pés da Escola Naval), do Gato Xadrez (Cal 9.2), do Kanaloa (Van De Stadt 50 pés), do Mobius (Trimarã 60 pés) e dos dois Vini Nautos (projeto especial de Thierry Stump de 42 pés de alumínio). O Sorsa (NM 43 pés) comandado pelo campeão olímpico Eduardo Penido e o Galileu (St Francis 44) dispararam na frente. No segundo bloco seguiam o Marlim (Beneteau 40.7 da Escola Naval), o Silence (Barracuda 45 pés) e o Tangaroa (Fast 500). O Mestre Rosalino (Brasília 32) de nosso amigo Luis “Poesia” perdeu o mastro no meio do caminho e retornou a Vitória com uma mastreação de fortuna.
Balão na calmariaTodos os dias, por volta das 18 horas, fazíamos contato via rádio SSB com Dona América em Curitiba para dar e receber notícias e bater um papo furado. Nossos familiares se mantiveram informados telefonando para o nosso “Anjo” da Guarda. Recebemos ainda todos os dias via SSB + computador o fax meteorológico com a carta sinótica e previsão de vento e mar da Marinha do Brasil.
No quinto dia (21/01) chegou a esperada calmaria das proximidades de Trindade somente interrompida pela rápida passagem de grandes nuvens de chuva e vento (pirajás). A nossa esperança de alcançar a ilha nesse dia foi embora junto com o vento. Nos arrastamos durante todo esse quinto dia, fazendo as vezes 1 nó de velocidade com um vento Pirajá chegando...leste/nordeste. Aproveitamos para mergulhar na água absolutamente azul e até para tirar algumas cracas adquiridas em Vitória. A Ilha, avistada na tarde do quinto dia, parecia inatingível. Desde a manhã do quarto dia, o nosso comentário mais freqüente era que chegaríamos “no dia seguinte”, dia esse que não chegava nunca. A noite do quinto para o sexto dia foi de intenso trabalho para ganhar umas poucas milhas. Nesse dia de calmaria, fomos ultrapassados pelo Quiricomba e pelo Vini Nautos Nanuk.
Chegamos a Trindade na manhã do dia 22 de janeiro às 10h27m num total de 117h52m, duas horasTrindade chegando .... Trindade à vistadepois do Quiricomba e uma hora depois do Vini Nautos Nanuk.
Trindade é uma pequena ilha, muito árida, rochosa e praticamente sem praias. Possui uma guarnição da Marinha do Brasil que se reveza a cada 2 meses. Há muita dificuldade de abastecimento devido as condições de desembarque e o isolamento é muito grande. Tem uma beleza diferente e um mar cristalino em sua volta. Vimos poucos peixes e enormes tartarugas.
O regulamento da regata permite uma permanência de 48 horas na ilha. Como o desembarque é difícil optamos por fazer uma curta parada para mergulho e seguir quase direto para Vitória.
TrindadeTrindadeSaímos de Trindade às 12h16m do dia 22 de janeiro. A tripulação bem alimentada, descansada, entrosada, de muito bom humor estava animada para o retorno de vento em popa, literalmente. O enorme estoque de água doce do AYA permitiu banhos todos os dias para a tripulação. O tempo era gasto com brincadeiras, fofocas, compartilhar imensas histórias, algumas verdadeiras outras nem tanto, e, naturalmente, o ajuste das velas. O Comandante Thadeu, muito liberal, se desdobrava para relevar as criancices da tripulação e manter a disciplina da regata. Logo no primeiro dia, no primeiro pirajá, demoramos a baixar o balão assimétrico que rasgou próximo ao punho da escota. Desprovidos da vela para vento fraco, nossa performance caiu muito em relação aos outros barcos. Armados a maior Torta de limão...na voltaparte do tempo em Asa de Pombo, a nossa única atividade era dar um jaibe na genoa na passagem das grandes nuvens de chuva. A manobra exigia a colocação e retirada do pau de spy, o que provocou muitas brincadeiras maliciosas envolvendo o Comandante que, educadamente, se mantinha impassível. O retorno, na verdade, foi um grande passeio a vela de 600 milhas com vento de popa e mar muito calmo.
Chegada em VitóriaChegamos a Vitória às 20h42m do dia 27 de janeiro, no tempo de 128h26m, compondo um total (ida e volta) de 246h28m, o décimo tempo da regata. A nossa média geral para as 1246 milhas foi de 5,1 nós. A organização recebeu cada barco com uma comitiva, fotógrafos e champagne.
O Sorsa bateu o recorde da regata com um tempo total de 174h7m e uma incrível média de 7,2 nós, seguido de perto pelo cat Galileu com 180h54m e média de 6,9 nós.
Seguiu-se a festa da premiação e o AYA, além de segundo na classe Bico de Proa, recebeu um inesperado troféu: o “Dinossauro”, mais conhecido como “barco à velho”, por ter a maior média de idade entre as tripulações.